Um renomado diretor de hospital palestino, sequestrado por Israel em dezembro de 2024, está à beira da morte, alerta seu advogado. Hussam Abu Safiya está em cativeiro israelense há 18 meses, desde que as forças israelenses fecharam o crucial Hospital Kamal Adwan — o segundo maior no norte de Gaza — no inverno de 2024.
Agora, a organização Médicos pelos Direitos Humanos em Israel (PHRI) está divulgando um alerta do advogado de Abu Safiya, Nasser Odeh, de que o proeminente pediatra palestino e diretor de hospital está em “estado de risco de vida” e sofrendo “violência e espancamentos diários”.
Segundo o PHRI, Abu Safiya também relatou um aumento drástico nas agressões contra ele desde o início do processo de sua libertação, no mês passado. Após uma audiência de apelação, um grupo de policiais teria invadido a cela de Abu Safiya e o espancado com martelo e cassetetes, e ele vem sofrendo agressões semelhantes diariamente, chegando a perder a consciência diversas vezes.
Odeh relatou que Abu Safiya chegou à última reunião acompanhado por guardas mascarados, com as mãos e os pés algemados. Ele relatou hematomas recentes por todo o corpo do médico, incluindo na cabeça e ao redor dos olhos, orelhas e pescoço. Odeh relatou que os ferimentos eram tão graves que ele mal conseguia reconhecer Abu Safiya.
Abu Safiya tinha dificuldade para respirar e falar, e lutava para se manter sentado sem cair. Odeh disse que seu cliente parecia assustado e em grande sofrimento, e tinha medo de falar abertamente por receio de represálias ainda maiores.
Abu Safiya integra um grupo de 14 médicos palestinos que Israel mantém detidos há mais de um ano e meio sem apresentar acusação formal ou submetê-los a julgamento — uma prática ilegal generalizada que Israel utiliza para sequestrar e manter palestinos, chamada de “detenção administrativa”.
Israel tem prorrogado repetidamente a detenção de Abu Safiya sem o devido processo legal ou qualquer aparência de direitos jurídicos. Porém, seu único “crime”, aparentemente, é curar palestinos feridos e aterrorizados pelas forças israelenses.
Mais e mais apelos pela imediata libertação de Hussam Abu Safiya
A Organização Mundial da Saúde, relatores especiais da ONU e a Anistia Internacional estão entre as dezenas de organizações e grupos que pedem a libertação de Abu Safiya e de outros profissionais de saúde sequestrados por Israel.
Nos últimos dias, um número crescente de políticos britânicos se manifestou, incluindo Hamish Falconer, John McDonnell, Apsana Begum, Zack Polanski e Zarah Sultana. Nick Maynard, cirurgião consultor do Hospital Universitário de Oxford, que atuou como voluntário em Gaza, expressou profunda preocupação a Zeteo sobre a situação.
“Houve uma grave piora em seu estado de saúde e sua vida está em perigo”, disse Maynard. “As informações adicionais que recebemos deixam claro que sua vida corre perigo iminente e ele precisa ser transferido com urgência para um hospital para receber tratamento que lhe salve a vida”.
Claire Valdez, uma das socialistas que recentemente contrariaram a cúpula do Partido Democrata nas primárias de Nova York, disse a Zeteo que não tolerará tais condições quando ingressar no Congresso. “Por mais de mil dias, os Estados Unidos financiaram um genocídio durante o qual 1.722 profissionais de saúde palestinos foram assassinados. Ainda não é tarde para salvar o dr. Abu Safiya”, afirmou.
“Ele deve ser libertado imediatamente, assim como os milhares de prisioneiros palestinos — incluindo mais de uma dezena de médicos — atualmente detidos sem acusação. No Congresso, lutarei para acabar com toda a ajuda dos EUA a Israel e para pôr fim ao cerco e à ocupação de Gaza”.
“Me trouxeram aqui para me matar”
O hospital dirigido por Abu Safiya foi alvo frequente do Exército de Israel, sob a alegação de que abrigava “militantes do Hamas” — uma acusação não comprovada que médicos e o Hamas negaram veementemente. Mas, mesmo que tais acusações fossem verdadeiras, isso não justificaria a campanha ilegal e indiscriminada de bombardeios e sequestros perpetrada por Israel contra hospitais em toda a Faixa de Gaza.
Contudo, a cada ataque das forças israelenses, o diretor do Hospital Kamal Adwan se mantinha firme, insistindo que ele continuasse funcionando para cuidar de seus pacientes, incluindo recém-nascidos.
No final de dezembro de 2024, as forças israelenses invadiram o hospital, incendiaram várias de suas alas e despiram e sequestraram à força os funcionários. Como em muitas de suas operações, Israel alegou, sem apresentar provas, que o hospital servia como base do Hamas. Abu Safiya estava entre as centenas de pessoas sequestradas por Israel.
Entre as últimas imagens de Abu Safiya que correram o mundo, estava a de um médico de jaleco branco, caminhando penosamente em direção a um tanque israelense, rumo ao seu destino de ser detido pelo Exército israelense genocida.
Segundo relatos, Israel o levou primeiro para a notória e horrível prisão de Sde Teiman, onde soldados israelenses são acusados de atos cruéis e bárbaros, incluindo tortura, estupro e outras formas de abuso sexual. Ao longo de sua detenção, Israel o transferiu para diversas outras instalações, incluindo a prisão de Ofer, a prisão de Nafha no deserto do Negev, depois a prisão de Ktzi’ot e, finalmente, a prisão de Ramon, também no deserto, e supostamente para confinamento solitário.
Israel alegou, sem apresentar provas, que Abu Safiya é membro do Hamas — uma afirmação contestada por médicos e outros detidos. “Todos ficaram surpresos com a chegada dele, pois ele é um médico humanitário que não pertence a nenhuma organização”, disse Mustafa Hassouna, um detento libertado de Sde Teimann, à CNN.
Neste domingo, 5 de julho, a Suprema Corte de Israel ordenou que o governo respondesse até terça-feira a uma petição apresentada em abril pela PHRI, que buscava a libertação de 14 médicos palestinos, incluindo Abu Safiya, que estão detidos sem acusação formal.
A PHRI também solicitou que um juiz da Suprema Corte realizasse uma visita oficial de inspeção à prisão de Abu Safiya e pediu permissão para que um cardiologista independente e dois advogados adicionais se reunissem com ele.
Dezoito meses após sua detenção ilegal por Israel, o dr. Hussam Abu Safiya pode morrer a qualquer momento. Ele disse ao seu advogado: “Esta é a última vez que você me verá… Eles me trouxeram aqui para me matar”.
*Publicado na edição de 6 de julho de Zeteo (disponível aqui).


