Um ano atrás, perdemos Rosa Gauditano. Ela nos deixou formidável acervo de imagens de povos indígenas e movimentos sociais — e lições de um fotojornalismo rebelde

Pedro Estevam da Rocha Pomar*

Há um ano, no dia 7 de agosto de 2025, o Brasil perdeu uma de suas mais extraordinárias fotojornalistas: Rosa Jandira Gauditano, levada por uma arritmia aos setenta anos de idade, quando se encontrava em período de intensa atividade, “no auge da sua energia”, como descreve sua filha, Camila Gauditano de Cerqueira.

“Movimento de custo de vida, movimento das mulheres, movimento negro, todas as greves do ABC. Eu fotografo de tudo. Trabalhei na Veja, trabalhei na Folha de S. Paulo. Você tem que fazer foto de estúdio, tem que fazer objeto, tem que fazer tudo bem feito. Eu sei fazer tudo: moda, futebol, esporte. Eu tiro de letra, eu faço tudo. Mas meu trabalho pessoal é sobre as pessoas que não têm voz. Na verdade isso sempre foi o que me incomodou a vida inteira”.

Assim Rosa, autora de riquíssima documentação da vida dos povos indígenas, resumiu e definiu o sentido maior de sua trajetória profissional, em depoimento prestado ao Museu da Pessoa em 2014.

No dia seguinte à sua morte, a coordenação do Curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco emitiu uma concisa nota de pesar, que confere ainda mais sentido ao seu trabalho: “Ontem, 7, despedimo-nos com profunda tristeza da fotógrafa e jornalista Rosa Gauditano, que transformou a imagem em instrumento de luta e memória. Sua lente revelou povos indígenas, movimentos sociais e a comunidade LGBTQIA+, deixando um legado de coragem e sensibilidade”.

A Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo (Arfoc-SP) lamentou, igualmente, a morte de sua associada. “Jornalista e fotógrafa reconhecida, Gauditano teve papel fundamental na documentação da comunidade lésbica nos anos 1970, especialmente por meio de registros no Ferro’s Bar e na boate Dinossauros. Suas imagens, censuradas à época, tornaram-se símbolos de resistência e deram visibilidade à população LGBTQIA+ em plena ditadura militar”, diz a nota da Arfoc-SP.

“Com passagem por veículos como a Folha de S.Paulo, teve suas obras incorporadas aos acervos de importantes instituições, como o MASP [Museu de Arte de São Paulo] e o Conselho Mexicano de Fotografia. Participou de diversas exposições no Brasil e no exterior, com destaque recente na Bienal de São Paulo”. Em 2022, lembra ainda a Arfoc-SP, ela foi vencedora do Prêmio de Melhor Livro Autoeditado no festival Photo España, com a obra “A Mesma Luta”, dedicada às mulheres nos movimentos sociais das décadas de 1970 e 1980.

Outro que se manifestou sobre ela foi o Instituto Socioambiental (ISA): “Rosa foi uma fotógrafa e ativista que dedicou parte de sua vida à luta pelos direitos das populações indígenas no Brasil. Reconhecida parceira e aliada do movimento indígena, ela compareceu ao Encontro de Altamira, que reuniu mais de 600 lideranças indígenas em 1989, no Pará, e desde então dedicou-se a documentar a realidade de povos como os Karajá, Kayapó, Tukano, Yanomami, Xavante, Guarani e Pankararu”, diz a nota.

“Rosa também se destacou publicando livros como Índios: Os Primeiros Habitantes (1998), Raízes do Povo Xavante (2003) e Guaranis M’Byá na Cidade SP (2006), e escreveu crônicas para o jornal Público, nas quais alertava sobre a situação dos povos indígenas durante a pandemia de Covid-19”. No entender do ISA, sua contribuição para a memória visual e histórica do Brasil é fundamental: “Sua obra continuará a inspirar gerações de ativistas na luta pelos direitos dos povos indígenas”.

Rosa nasceu em 3 de abril de 1955, em São Paulo, fruto da confluência de duas culturas. “A família do meu pai é do sul da Itália, de Nápoles. Meu pai veio para o Brasil para se casar com minha mãe. Ela é brasileira, de São Paulo mesmo. Eles tiveram quatro filhos, sou a segunda filha”, contou em seu depoimento ao Museu da Pessoa. “Seu pai, senhor Giovanni Gauditano, conheceu dona Lúcia Vampré, sua mãe, em Veneza. Melhor história de amor do que essa seria impossível”, relata seu ex-marido Emídio Luisi.

Na juventude, Rosa deixa a casa dos pais e vai em busca de sua vocação e paixão: a fotografia. “Seu primeiro contato com a fotografia é na escola ‘Em Foco’, curso que era do Claudio Kubrusly e os professores eram Cristiano Mascaro, Claudia Andujar e Maureen Bisilliat. A partir daí, ficou encantada e nunca mais deixou a fotografia”, relembra Emídio, parceiro de vida e de profissão e seu futuro sócio na agência Fotograma.

Entre 1974 e 1975, Rosa estuda jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, em São Paulo. Ainda jovem, ela passa a atuar na imprensa nanica, ou imprensa alternativa, ao entrar em 1976 no jornal tablóide Versus, ao lado de jornalistas como Marcos Faerman, Luiz Egypto, Hélio Goldsztein, Caco Barcellos, Mouzar Benedito e outros. Uma escola invejável: liderado por Faerman (1943-1999), seu fundador e principal editor, Versus foi um dos principais títulos do jornalismo de resistência à Ditadura Militar (1964-1985), e Rosa foi sua editora de fotografia.

“Rosa começa a fotografar o movimento das mulheres independentes, o movimento negro que começa a surgir em São Paulo, e a colocar na sua trajetória de trabalho todos esses elementos ligados a uma sociedade mais justa, mais compreensiva e humanista. Depois começa a perceber que poderia desenvolver alguns ensaios pessoais”, recorda Emídio. O primeiro desses ensaios fotográficos, no qual ela contou com a parceria de um grande amigo, o fotógrafo Ayrton de Magalhães (1954-2017), foi sobre as prostitutas da Avenida São João, na capital paulista.

Depois disso, foi pautada pela revista Veja para fotografar o Ferro’s Bar, na Rua Major Quedinho. “A Rosa foi muito bem aceita pelas meninas da época e fez um grande ensaio. Ela foi várias vezes lá, adquiriu a confiança delas, e conseguiu realmente retratar o pessoal LGBT, num período em que realmente não se podia comentar, porque era um período de muita repressão”, conta Emídio. “A partir daí ela começa a trabalhar na grande imprensa. Trabalhou na Folha de S. Paulo [em 1984], depois foi para a Veja [em 1985] e permaneceu um bom tempo”.

Em 1985, Rosa, Emídio e Ed Viggiani inauguram a agência Fotograma. “Começamos a desenvolver vários projetos e também projetos pessoais. Num desses ensaios que a gente tinha dentro da Fotograma, a Rosa foi cobrir o Encontro de Altamira, no Pará [em 1989]. Recebe um estímulo para começar a fotografar os povos indígenas, e com isso ela se dedica plenamente a várias etnias”, diz Emídio. Passa a voltar-se para a história de populações que são oprimidas ou relegadas e graças às imagens, aos ensaios e “com toda essa dedicação, esse amor e carinho que ela tinha pelo trabalho, começa a dar voz para essa gente”.

Rosa acabaria publicando vários livros sobre essa temática, entre os quais um que Emídio considera belíssimo, Festas de Fé (2003). “Ela se envolve exatamente com essa cultura dos povos originários. As festas populares de origem das pessoas mais carentes e das pessoas mais inteligentes e mais sensíveis. Ela começa a desenvolver esse trabalho, faz essa série de publicações e, o que é muito importante, faz várias exposições nacionais e internacionais”.

  • Fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Manifestação do Movimento Contra a Carestia, 1979 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Boate lésbica Dinossauro, em São Paulo, em 1979 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Passeata em repúdio ao assassinato da cantora Eliane de Grammont, em 1981 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Menores abandonados brincam na Praça da Sé, na capital paulista, em 1984 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Na redação do jornal Versus, com Marcos Faerman

I Encontro dos Povos Indígenas do Rio Xingu e a “conexão” de Rosa

Posteriormente à Fotograma, Rosa criou uma agência própria, o Studio R, que “além de ser uma empresa que prestava serviços fotográficos, pautas para jornais e revistas, foi se tornando ao longo dos anos um grande banco de imagens que hoje é constituído por mais de 50 mil imagens”, relata sua filha Camila. Pouco antes de falecer, estava organizando o seu acervo, revendo tudo que fez. “Ela passou por mais de 18 países, registrando suas pessoas, sua cultura. E isso a partir de pautas e propostas e de viagens a trabalho que realizou”.

Muito bem organizado e acondicionado, esse banco de imagens retrata uma parte importantíssima da história do Brasil, do início da década de 1970 até os dias de hoje. “Ou seja: um período super forte de ditadura, passando pela abertura democrática, pelas Diretas-Já, que a Rosa acompanhou intensamente — a movimentação de todas as categorias sociais, até as primeiras greves dos metalúrgicos, na região do ABC — todo o florescimento do Lula como liderança deste país”. A seu ver, Rosa desde sempre acompanhou essas lutas e contribuiu para que esses direitos fossem garantidos, deixando um legado inestimável.

“Além desse material, que é amplamente conhecido aqui no Brasil, ela fez inúmeras exposições no exterior. Talvez essa paixão pela fotografia tenha se dado início quando ela, muito jovem, saiu de casa e foi convidada por uma amiga a levar a filha dela para encontrar os pais que estavam em Paris — e ela entrou na Universidade Sorbonne e fez um ano de faculdade de cinema”. Mas Rosa não conseguiu se manter na França e quis voltar para São Paulo, onde começou a sua trajetória de trabalho profissional.

Na avaliação de Camila, o momento “de grande conexão” de Rosa, decisivo, foi realmente sua participação, como jornalista, do já citado I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989, quando ela se deu conta da diversidade étnica do país. Conhecido como Encontro de Kararaô, ele reuniu diversos povos da Bacia do Rio Xingu para discutir os impactos socioambientais gerados pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

“Ela percebe a falta de jornalistas da imprensa nacional no encontro e, consequentemente, a falta da veiculação de informações estratégicas sobre as questões indígenas no Brasil. A partir de então ela dedica seu olhar aos povos indígenas”, relembra. “Ela me dizia: ‘Como é que eu, uma jornalista que trabalha para a grande imprensa, não conheço essa diversidade? Se eu não conheço, a maior parte da população desconhece absolutamente essa realidade’. Então ela começa um trabalho de forte documentação na relação com esses povos”.

À época, Rosa se aproximou do Centro de Culturas Indígenas, que era liderado por Ailton Krenak e Angela Pappiani — e então registrou, em 1991, a Terra Indígena (TI) Yanomami em Roraima, onde documentou em profundidade o modo de viver desse povo em sua grande maloca, onde cada família tem o seu fogo. Nessa mesma ocasião, ela fotografou a maravilhosa cena de um beija-flor “colado” a um jovem yanomami. 

“No ano seguinte, fizeram uma viagem para a TI Pimentel Barbosa, do povo Xavante, no Mato Grosso, na qual minha mãe me levou aos 12 anos de idade. Foi uma experiência tão única e reveladora que norteou toda a minha trajetória como antropóloga e educadora, influenciou fortemente no meu caminho”, revela Camila. A forte relação de Rosa com os xavantes daquela TI resulta num livro que registra esses quinze anos de convívio.

  • Jovem yanomami da aldeia Demini, em Roraima, em 1991
  • Festa do Divino, em Pirenópolis, Goiás, em 1989 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Índio kaiapó participa do I Encontro de Povos Indígenas do Rio Xingu, em 1989 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Registro histórico: no Encontro de Altamira, Tuyra Kaiapó protesta contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Na TI Pimentel Barbosa, crianças xavantes participam de cerimônia de purificação na água, em 1996 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • O terena Gildo Jorge tenta barrar a brutal repressão do governo FHC à Marcha do Descobrimento, na Bahia, em 2000 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)
  • Videomaker feminina grava ritual feminino Yamaricumã, do povo Waurá, no Xingu, em 2015 (acervo pessoal, disponível no site do Instituto Moreira Sales)

“Nossa Tribo” e seus projetos com xavantes, pankararus e guaranis

O estreito contato com o povo Yanomami, por sua vez, é que levou Rosa a criar a organização não governamental “Nossa Tribo”, quando ela começou a se dar conta, ao documentar o modo de vida yanomami, “que crianças de zero a cinco anos sofriam uma alta mortalidade por questões básicas de saúde, como desnutrição e pneumonia, e a partir das lideranças locais ela foi percebendo a importância da segurança alimentar nesse povo para a garantia da saúde”.

Assim, “a partir da orientação do ancião Sidaneri Xavante, da aldeia Wederã da TI Pimentel Barbosa”, Rosa resolve desenvolver projetos para colaborar com a segurança alimentar das comunidades xavantes e pankararus, por meio do plantio de árvores frutíferas do cerrado, além de levar atendimento básico de saúde para adultos e crianças. Ao longo de dez anos, a Nossa Tribo realizaria projetos ligados à cultura, à saúde e nutrição.

A colaboração da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) permitiu à Nossa Tribo levar à população indígena pankararu do Real Parque, na capital paulista, a orientação de que “fortalecessem o plantio de árvores frutíferas e de alimentos saudáveis no entorno da aldeia, formando grandes quintais”, de modo que esses nutrientes estivessem mais próximos da comunidade, e em especial das crianças.

Outro trabalho importante da Nossa Tribo foi realizado com os Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul, “para fazer uma denúncia da realidade em que esse povo vive e à revelia das suas terras”, relata Camila. “Eles vivem nos acostamentos de grandes estradas porque são expulsos do seu território original, é uma guerra que perdura até hoje e é um dos lugares no Brasil com maior violência, índices de mortes e suicídios”.

No depoimento que prestou ao Museu da Pessoa, a própria Rosa fez questão de falar dessa tragédia: “São mais de 30 mil pessoas que estão na beira das estradas, expulsas das melhores terras do Brasil por quem? Pelos plantadores de cana e soja. Quem são esses caras? São políticos, são juízes”.

A ong de Rosa também colaborou com as comunidades do Povo Guarani Mbyá da TI Jaraguá em São Paulo, com as quais desenvolveu oficinas de fotografia, textos e desenhos que culminaram em livro e exposição. O projeto envolveu atividades de documentação e de formação audiovisual nas três aldeias que constituem aquele território.

“Mamãe realizou grandes exposições, muitas publicações, e na época do Studio R ela contribuiu imensamente para a educação nacional”, diz Camila, explicando que diversas editoras brasileiras compraram e utilizaram — em livros didáticos destinados a estudantes de escolas públicas — imagens captadas por Rosa, especialmente as que abordavam a realidade indígena e suas temáticas sociais. “Todo o recurso adquirido sempre foi rateado com as associações indígenas representantes de seus povos, garantindo o direito de uso de imagem, algo inédito até então”, destaca a antropóloga.

Assim, parte da receita de seu trabalho como fotojornalista e autora de livros foi revertida para as comunidades indígenas por ela retratadas. “É um reconhecimento não só do direito autoral, mas do direito de uso de imagem, então ela implementa isso no mercado de trabalho, creio que é a primeira pessoa a fazer isso. Essa forma de fazer os contratos acaba sendo uma referência para outras pessoas que vieram a fazer isso a partir dessa experiência”.

Por outro lado, Rosa Gauditano apoiou o ingresso de diversos jovens indígenas em universidades, “porque começou a se dar conta de que essa entrada na universidade garante para os povos indígenas a chance de ocupar lugares e posições de tomada de decisões, e de se formarem médicos, advogados e professores, para poder trabalhar nessas áreas através das próprias perspectivas, sem depender da perspectiva não indígena, para poder lidar com as necessidades e demandas da própria realidade”, conta Camila.

“Sua grande parceira de trabalho nos projetos da Nossa Tribo foi Jaciara Martim, guarani mbyá da TI Jaraguá que trabalhou com Rosa como estagiária no período de sua graduação em Serviço Social na PUC-SP”. Ela apoiou ainda a inserção de jovens xavantes em diferentes cursos em São Paulo e no Mato Grosso.

A chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República, em janeiro de 2019, deixaria Rosa “estarrecida e consternada, indignada com a falta de humanidade desse governo”. A seu ver, a vitória de Lula nas eleições de 2022 restaurou o reconhecimento oficial da diversidade social e étnica e o respeito do governo brasileiro aos povos indígenas, aos afrodescendentes, às pessoas com deficiência, às mulheres.

Em janeiro seguinte, na rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, Rosa capta a imagem que é um marco do período final da sua trajetória profissional — “a foto que ela fez na posse do Lula, com ele subindo a rampa com o cacique Raoni, que é a verdadeira liderança originária desse povo diverso”.

*O autor é secretário de Formação Sindical e Profissional do SJSP. Este texto-homenagem seria impossível sem a colaboração de Camila Gauditano Cerqueira, Emídio Luisi e Jesus Carlos, aos quais o SJSP agradece enfaticamente.

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