Nesta segunda-feira, 6 de julho, o grupo palestino Hamas anunciou a dissolução do órgão que governou Gaza por quase duas décadas, abrindo caminho para que um “comitê tecnocrata” implemente uma administração civil no território sitiado e devastado pela guerra.
A medida marca uma mudança política significativa por parte do Hamas, que governava a Faixa de Gaza desde que seus combatentes tomaram o controle do movimento palestino rival Fatah em 2007, após vencerem as eleições legislativas no ano anterior.
Desde que um “cessar-fogo” com Israel, mediado pelos EUA, entrou em vigor em Gaza em outubro passado, o grupo tem afirmado repetidamente que está disposto a abrir mão da administração cotidiana, mas que não deporá as armas, uma vez que Israel continua ocupando militarmente 60% do território e deu continuidade ao genocídio apesar do “cessar-fogo”.
Mohammed al-Farra, chefe do comitê de emergência do governo, “decidiu apresentar sua renúncia oficial ao cargo e anunciar a dissolução do Comitê de Emergência do Governo, como demonstração da seriedade dessas medidas, em cumprimento aos acordos estabelecidos e para facilitar o processo de transição administrativa”, diz comunicado divulgado pelo Gabinete de Mídia do Governo de Gaza.
Um representante do Hamas afirmou que o grupo deseja a rápida entrada em ação do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), órgão encarregado de supervisionar a futura administração do território, no âmbito de um plano apoiado pelos EUA para encerrar a guerra genocida de Israel contra Gaza.
“O Hamas deu um novo passo ao deixar de estar no comando da Faixa de Gaza, a fim de eliminar quaisquer pretextos para a ocupação [Israel], que prossegue com sua agressão e guerra de extermínio”, disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, à agência de notícias AFP.
“Esperamos a rápida entrada [do NCAG], e o Hamas reafirma sua disposição de transferir as responsabilidades governamentais para o comitê, a fim de garantir seu sucesso”. Hani Mahmoud, da Al Jazeera, reportando da Cidade de Gaza, afirmou que o anúncio do Hamas parece ser “politicamente significativo”.
“Ele foi visto como parte das concessões feitas pelo Hamas para que as negociações avancem, abrindo caminho para a chegada do comitê técnico à Faixa de Gaza e para que ele assuma o controle após meses de crescente vácuo de poder na região.” A medida não significa que o Hamas esteja abrindo mão de seu papel político ou militar em Gaza, mas sim “recuando da administração civil direta” do território.
Ali Shaath, chefe do NCAG, saudou o anúncio do Hamas. “Afirmamos que o NCAG está totalmente preparado para assumir suas responsabilidades nacionais assim que os recursos e as capacidades necessários estiverem disponíveis”, escreveu Shaath nas redes sociais.
Nickolay Mladenov, o alto representante que supervisiona o Conselho de Paz para Gaza — órgão fundado pelos EUA que supervisionaria o trabalho do NCAG —, afirmou que a decisão “ressalta a importância de levar as discussões sobre o roteiro a uma conclusão bem-sucedida”, e é “a ponte entre as declarações e a implementação”.
Mladenov observou que, uma vez alcançado um acordo sobre as disposições de implementação restantes, o NCAG poderá assumir suas responsabilidades. O comitê tem permanecido sediado fora de Gaza há meses, devido a objeções de Israel à sua entrada no enclave sob bloqueio.
Israel descartou permitir que o Hamas governe o enclave, mas também rejeitou, nesta fase, uma tomada de controle direta pela Autoridade Palestina, que controla a Cisjordânia ocupada.
*Adaptação de matéria publicada em inglês pela Al Jazeera, que também utilizou informações da Agência France Press-AFP (confira aqui a publicação original).


