Logo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo
Logo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
Logo da Federação Internacional de Jornalistas
Logo da Central Única dos Trabalhadores
Logo da Federação Nacional de Jornalistas

Vladimir Sacchetta, presente!

Causou grande consternação o falecimento, nesta sexta-feira, 15 de maio, do jornalista, pesquisador iconográfico, escritor e editor Vladimir Sacchetta, aos 75 anos de idade. Teve atuação marcante nos setores editorial e de memória histórica, deixando seu nome em diversos livros, exposições e filmes, como autor, organizador ou pesquisador histórico ou de imagens. Ele se formou em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, em 1982, e foi filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) até sua morte.

“É o grande nome brasileiro, ninguém maior do que ele, na iconografia. Quem quisesse fazer uma produção, uma publicação, inapelavelmente recorria a ele, ao seu instituto Iconographia, que tem toda uma memória visual das lutas sociais do Brasil, particularmente da esquerda, do movimento popular e sindical”, declarou ao SJSP um de seus muitos amigos, o jornalista Paulo Vanucchi, ex-ministro-chefe da então Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH). “E a gente tem agora o dever de seguir fortalecendo e prosseguindo todo o trabalho que ele realizou”.

Ao que parece, Vladimir Sacchetta deu seus primeiros passos nessa trilha logo depois de formado. “Foi chefe de pesquisa (1978-1982) da coleção ‘Nosso Século’, da Abril Cultural, que resgatou a história contemporânea do Brasil através de documentos visuais e textos jornalísticos”, registra a Wikipedia.

Foi coautor, com Carmem Lúcia de Azevedo e Márcia Camargos, do livro Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, que ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Ensaio e Biografia, e também o Prêmio Livro do Ano, ambos em 1998. Antes disso, organizou A contestação necessária: perfis intelectuais de incorformistas e revolucionários, obra do sociólogo (e professor da USP) Florestan Fernandes, lançada em 1995 e igualmente premiada com o Jabuti.

Militante do Partido dos Trabalhadores na sua juventude, Vladimir Sacchetta era próximo de Florestan (1920-1995) e, quando este assumiu o cargo de deputado federal, em 1987, tornou-se seu chefe de gabinete e “braço direito”, como lembra Vannuchi. A referência familiar do jovem Sacchetta era das mais fortes, tanto do ponto de vista político como profissional.

“Era filho do militante comunista Hermínio Sacchetta — para quem não sabe, é aquele jornalista que, no filme do Wagner Moura sobre Marighella, aceita divulgar o manifesto de uma ação revolucionária da Ação Libertadora Nacional, ALN”, esclarece Vanucchi. Hermínio (1909-1982) foi chefe de redação da Folha da Manhã e da Folha da Noite (precursoras da Folha de S. Paulo), e tinha prestígio na categoria.

“Tive o privilégio de ser herdeiro de uma amizade nascida em 1943, quando meu pai, o jornalista Hermínio Sacchetta, travou conhecimento com um jovem brilhante, aluno da Faculdade de Filosofia, que passou a freqüentar a redação da Folha da Manhã. Com a convivência, além de tornar-se colaborador regular do jornal, Florestan Fernandes foi cooptado por Sacchetta para a militância clandestina no Partido Socialista Revolucionário”, revelou Vladimir em artigo publicado em 1996.

“Naquela pequena organização trotskista, verdadeira microuniversidade, como lembrava Florestan, abriram-se outros horizontes, responsabilidades e esperanças. Se a ditadura Vargas era seu alvo imediato, a revolução proletária começava a se desenhar como um objetivo essencial e permanente”, acrescentou.

Vladimir coordenou os trabalhos de pesquisa dos livros Brasil, rito e ritmo: um século de música popular e clássica (2003), Brasil, palco e paixão: um século de teatro (2004), Brasil, um século do futebol: arte e magia, de João Máximo (2005), Século XX: a mulher conquista o Brasil (2006) e Trem das onze: a poética de Adoniran Barbosa (2010), todos organizados por Leonel Kaz.

Foi responsável, ainda, pela pesquisa e edição dos cadernos de imagens dos quatro primeiros volumes do célebre trabalho do jornalista Elio Gaspari sobre a Ditadura Militar (1964-1985): A ditadura envergonhadaA ditadura escancaradaA ditadura derrotada e A ditadura encurralada, publicados entre 2002 e 2004.

Ainda no âmbito da memória histórica, foi curador das exposições “1924: A Revolução Esquecida” (São Paulo, 2009); “Marighella” (São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, 2009); “Não tens epitáfio pois és bandeira”, sobre o também ex-deputado federal Rubens Beyrodt Paiva, igualmente assassinado pela Ditadura Militar (São Paulo, 2010); “Lugares da memória: resistência e repressão em São Paulo” (São Paulo, 2011); e “Os advogados da resistência: o direito em tempos de exceção” (São Paulo, 2013).

Estudioso e admirador da obra do escritor Monteiro Lobato, no final dos anos 1990 Vladimir Sacchetta assumiu a curadoria e a direção geral do “Projeto Memória 1998/Monteiro Lobato”, que envolvia uma exposição itinerante que passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Porto Alegre, “além da publicação de livros e cartilha, produção de vídeo documentário e revitalização da Biblioteca Monteiro Lobato, na capital paulista, e da Chácara do Visconde, em Taubaté”, segundo a Wikipedia.

Em 2003, ao lado de Márcia Camargos, então sua esposa, dos jornalistas Mouzar Benedito e Jô Amado, do violeiro Ivan Vilela e de Alice Nakao, entre outras pessoas, ele fundou a “Sociedade dos Observadores de Saci” (Sosaci), sediada em São Luiz do Paraitinga, pitoresca cidade do Vale do Paraíba. De acordo com Mouzar, Vladimir foi o principal redator do irônico “manifesto” de criação da entidade, que evoca a frase inicial do famoso Manifesto Comunista de 1848 e cita Lobato já no primeiro parágrafo.

“Um espectro ronda a indústria da cultura. Como já ocorrera durante a I Guerra Mundial — quando os chamados ‘povos civilizados’ se matavam entre si nos campos da Europa, como lembra Monteiro Lobato em seu Inquérito, escrito em 1917 —, o espectro do Saci voltou para dar nó na crina das potências que invadem outros países com uma ‘indústria cultural’ predadora e orquestrada”, diz o texto.

Reconhecido como “uma força da resistência cultural a essa invasão”, cabe ao Saci “expor abertamente seus objetivos” e denunciar “o verdadeiro espectro: o espectro do imperialismo cultural”. Receberá, nessa luta, o apoio de “outros expoentes do imaginário cultural brasileiro — como o Boitatá, a Iara, o Curupira e o Mapinguari”, os quais “reuniram-se e redigiram o presente manifesto”. Quatro anos após a criação da Sosaci, Vladimir foi o curador da exposição “Formas e pulos, o Saci no imaginário”, realizada no Museu AfroBrasil, na capital paulista.

O Instituto Vladimir Herzog (IVH) é uma das entidades que emitiram notas de pesar pelo falecimento de Vladimir. “Entre seus inúmeros trabalhos, teve atuação fundamental como pesquisador no primeiro grande projeto do IVH, o ‘Resistir é Preciso!’, na coordenação do trabalho de recuperação de acervos da imprensa alternativa brasileira, preservando exemplares históricos que sobreviveram à censura, à repressão política e ao tempo”, diz a nota.“Assim, organizou o livro Os Cartazes desta História e participou da publicação As Capas desta História, obras fundamentais para compreender o papel da imprensa de resistência durante a ditadura militar iniciada em 1964. Seu trabalho ajudou a transformar documentos dispersos e ameaçados em patrimônio coletivo da memória democrática brasileira”, assinala o IVH.

“É com profunda tristeza que recebemos a notícia da partida do companheiro Vladimir Sacchetta”, declarou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Vladimir fez parte da construção e da fundação da Escola Nacional Florestan Fernandes, contribuindo com compromisso, generosidade e dedicação à formação política e à luta popular ao lado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Sua trajetória deixa marcas profundas na história da Escola e na vida de tantos companheiros e companheiras que compartilharam sonhos, aprendizados e batalhas ao seu lado”.

O MST expressou solidariedade à família, aos amigos e “a todos que caminharam com Vladimir” ao longo de sua vida. “Sua presença seguirá viva em nossa memória, em cada espaço de formação e em cada semente plantada. Vladimir Sacchetta, presente!”.

“O MST é onde moram minhas utopias”, declarou Vladimir, em entrevista recente gravada em vídeo e divulgada pelo movimento ao lado da nota de pesar. “Estão aí, dando uma lição de organização e de formação. Eles têm muito claro o processo de formação, de educação. Não tem criança ‘sem terrinha’ em acampamento que não esteja na escola. Têm formação político-ideológica”, enfatizou. “E estão dando lições, você vê o que aconteceu durante a pandemia, durante as enchentes do Rio Grande do Sul. Estava lá o MST, levando a comida boa, livre de agrotóxicos, ajudando objetivamente”.

Na opinião pessoal do economista João Pedro Stedile, um dos líderes do MST, Vladimir “foi uma pessoa comprometida com o socialismo” e deixou “um legado de coerência, dedicação e compromisso com a causa dos trabalhadores”.

Em nota, o Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa (Cemap) lamentou profundamente a morte do jornalista e produtor cultural, que era membro de seu Conselho Consultivo. “Vladimir esteve conosco ainda nesta última segunda-feira, prestigiando o lançamento do Cadernos Cemap n° 1 – Nova Série e a posse do Conselho Consultivo, na sala Fúlvio Abramo, sede do nosso centro. Pesquisador incansável, na ocasião ele celebrou a vocação do Cemap de manter viva a memória das lutas da classe trabalhadora”.

Sua ligação com o Cemap, explica a nota, era profunda: “seu pai, o jornalista e histórico militante trotskista Hermínio Sacchetta, foi um dos fundadores do centro, nos anos 1980”. “Pai de Paula e Felipe, Vladimir tinha um enorme orgulho de seus filhos. Durante nossa última confraternização, ele compartilhava com entusiasmo a alegria pela chegada de seu primeiro neto, Leon, filho de Paula”.

A Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, também destacou a importância do trabalho do jornalista e pesquisador para a memória e história da esquerda. “Construiu um imenso banco de iconografia sobre a luta de trabalhadores e trabalhadoras, contribuindo fortemente para registro da luta da esquerda brasileira. A Fundação Perseu Abramo utilizou estes materiais coletados um a um por Sacchetta, usado amplamente pela Editora na coleção História do Povo Brasileiro, e tantos outros tantos livros, e pelo Centro de Documentação e Memória Política Sérgio Buarque de Holanda [CSBH], em suas publicações”.

Além disso, informa a nota da FPA, “hoje o CSBH possui uma vasta documentação de periódicos, doados por Sacchetta em 2023”. A coleção conta com edições dos jornais Lampião da Esquina, O Pasquim, Opinião, Folhetim, Repórter, O inimigo do rei e outros.

Vladimir “foi uma referência no trabalho de pesquisa, documentação e produção cultural, atuando de forma respeitada e transversal em diferentes campos da esquerda e da intelectualidade brasileira”, declarou a Fundação Maurício Grabois, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). “Como afirmou Walter Sorrentino: ‘Vladimir Sacchetta foi uma unanimidade absoluta em todo o espectro da esquerda, de democratas e patriotas por sua dedicação ecumênica, profissionalismo e gentileza. Simplesmente isso: unanimemente admirado. Fez história!’”.

No sábado, 16, o presidente Lula também se manifestou. “Vladimir Sacchetta nos deixou na última sexta-feira, 15 de maio, mas o trabalho que ele realizou durante sua vida segue fundamental para compreendermos o país”, postou Lula. “A memória da luta pela democracia, dos movimentos dos trabalhadores do ABC e da imprensa alternativa estão preservadas, em grande parte, graças às pesquisas que ele realizou, aos documentos que reuniu, aos arquivos que organizou”.

O SJSP e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) juntam-se a todas essas manifestações para celebrar o excepcional trabalho de Vladimir, bem como para solidarizar-se com amigos, amigas e familiares, em especial sua filha Paula e seu filho Felipe.

veja também

relacionadas

mais lidas

Acessar o conteúdo