O financiamento de pesquisas pelo Ministério da Defesa de Israel (MOD) e por fabricantes de armas frequentemente não consta nos bancos de dados nacionais destinados a rastrear financiamento estrangeiro. Uma investigação de Drop Site News revelou que o MOD e empresas de defesa israelenses destinaram milhões de dólares em financiamento não declarado a programas de pesquisa de universidades americanas para o desenvolvimento de armas, patrocinando pesquisas diretamente ou servindo como intermediários para o financiamento.
Uma amostra de auditorias estaduais e universitárias, divulgações de financiamento estrangeiro e outros registros institucionais identificou milhões de dólares em vínculos financeiros nas últimas duas décadas entre o MOD, fabricantes de armas israelenses e universidades americanas, grande parte dos quais não aparece de forma consistente em bancos de dados nacionais destinados a rastrear o financiamento estrangeiro em universidades dos EUA.
Uma análise dos registros de auditoria, baseada em descobertas compiladas pela Antiwar Initiative, um grupo de pesquisa acadêmica que documenta as conexões entre universidades e a indústria global de armamentos, encontrou mais de US$ 15 milhões em lançamentos não declarados ou declarados de forma inconsistente para financiamento ligado ao MOD ou a fabricantes de equipamentos militares.
A verdadeira dimensão do apoio israelense é difícil de determinar, pois os registros desse financiamento muitas vezes não são divulgados em documentos públicos relacionados à divulgação de doações estrangeiras, mas foram descobertos por meio de cruzamento manual de dados em bancos de dados públicos e internos, registros de auditoria e agradecimentos em artigos acadêmicos. Alguns projetos listados em materiais universitários como sendo patrocinados pelo Ministério da Defesa de Israel ou por empresas de defesa também não incluíam os valores do financiamento fornecido ou continham registros inconsistentes ou contraditórios em bancos de dados de auditoria.
Drop Site News analisou e verificou registros públicos que mostravam bolsas de pesquisa, pagamentos de mensalidades e recebimento de doações totalizando milhões de dólares para dezenas de faculdades e universidades em todo o país. Os dados mostram exemplos de apoio financeiro e patrocínio para pesquisadores americanos por parte do MOD, bem como de fabricantes de armas israelenses, como a Elbit Systems.
Registros que datam de 2004 a 2025 apontam para um grande número de instituições de ensino superior que mantiveram relações financeiras com o Ministério da Defesa de Israel ou com fabricantes de armas israelenses, incluindo Columbia, Cornell, Princeton, Harvard, Northwestern, Georgia Tech, Texas Tech, Universidade de Connecticut, Universidade do Tennessee, Universidade de Maryland, Universidade da Flórida, Universidade da Califórnia (UC) em Berkeley, Universidade de Rhode Island, Universidade do Novo México, Universidade de Washington em St. Louis e Universidade Estadual de Nova York.
Os registros de relações financeiras incluem contratos de pesquisa com prazo determinado e não indicam se as relações com o MOD ainda estão em andamento. Reportagens anteriores documentaram o financiamento de programas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) pelo MOD e protestos estudantis realizados na instituição em decorrência dessa relação.
Além do apoio financeiro do MOD e da Elbit, os registros também mostraram o patrocínio de projetos de pesquisa individuais relacionados a tecnologias militares pelos fabricantes israelenses de equipamentos bélicos Rafael e Israel Aerospace Industries. Em conjunto, os registros revelam um sistema opaco de pesquisa para a defesa, disseminado por algumas das universidades mais importantes do país.
Um exemplo que ilustra a natureza típica dessas ligações é o de um projeto patrocinado pelo MOD na Universidade de Connecticut, que constava em registros de auditoria pública com o título “Pesquisa de Previsão do Ponto de Impacto para Projéteis de Curto e Médio Alcance”. Os registros anuais de financiamento federal de Connecticut contabilizam US$ 668.456 em verbas sob esse título ao longo de nove anos fiscais, entre 2013 e 2023, com o Ministério da Defesa de Israel como financiador.
Outro projeto de pesquisa da universidade, também ligado ao MOD e intitulado “SQUIDs de Alta Sensibilidade para Detecção de Campo Magnético”, recebeu US$ 251.336 em financiamento no mesmo período.
A legislação federal exige que faculdades e universidades que recebam auxílio federal divulguem doações e contratos que totalizem US$ 250.000 ou mais em um ano civil, provenientes de fontes estrangeiras, embora transações abaixo desse limite possam permanecer fora do sistema de relatórios públicos. No entanto, essas contribuições plurianuais não aparecem de forma consistente nos bancos de dados federais destinados a auxiliar o público no rastreamento do fluxo de dinheiro estrangeiro para universidades americanas.
A última divulgação pública do Departamento de Educação dos EUA sobre doações e financiamentos estrangeiros não contém nenhuma menção a Israel para a Universidade de Connecticut, mesmo que registros desse financiamento apareçam em outros bancos de dados e documentos de auditoria.
O governo israelense e seus aliados no Congresso dos EUA estão agora buscando transformar relações como essas, atualmente focadas em pesquisas dispersas, em uma política formal de defesa americana. A Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) para o ano fiscal de 2026 já orientou o Pentágono a estabelecer um Grupo de Trabalho da Base Industrial de Defesa EUA-Israel para avaliar a integração de Israel ao que denomina “Base Nacional Americana de Tecnologia e Indústria”.
Uma proposta apresentada pelo Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes para a NDAA do ano fiscal de 2027 iria além, criando uma Iniciativa de Cooperação em Tecnologia de Defesa Estados Unidos-Israel, encarregada de expandir a pesquisa bilateral, o desenvolvimento, os testes, a produção de armamentos e a cooperação industrial. Se essas medidas se tornarem lei, as conexões de financiamento dispersas, documentadas em registros de auditoria e artigos de pesquisa de universidades americanas, passariam a fazer parte da arquitetura da base militar-industrial americana.
As forças israelenses utilizaram drones, ferramentas automatizadas de inteligência, vigilância aérea persistente, projéteis guiados com precisão e análise de dados em larga escala durante o genocídio na Faixa de Gaza, bem como nas guerras no Líbano, Irã, Síria e Iêmen.Essas operações utilizam tecnologias originárias dos mesmos campos de pesquisa que o governo israelense e os fabricantes de armas financiaram para desenvolvimento por acadêmicos americanos: vigilância por vídeo, reconhecimento de atividades humanas, voo autônomo, análise de redes, identificação de alvos, sensores magnéticos e modelagem de impacto de projéteis.
Na Universidade da Flórida Central, pesquisadores receberam financiamento da Elbit Systems para desenvolver algoritmos capazes de reconhecer atividades humanas e detectar objetos em vídeos. Registros da Universidade do Tennessee mostram que uma subsidiária americana da Elbit também fez pagamentos à instituição no valor de US$ 514.500 entre 2023, 2024 e 2025. A documentação pública disponível não identifica quais programas ou pesquisadores as contribuições se destinam a apoiar, com a descrição listando a finalidade do financiamento como “pagamento de mensalidades para diversos alunos”, simplesmente.
“Por quantias relativamente pequenas — como o custo de financiar um único doutorado — Israel adquiriu novas e importantes habilidades que reforçaram sua capacidade de cometer genocídio em Gaza, realizar uma ocupação brutal do Líbano e desencadear uma guerra com o Irã que se transformou em um conflito em toda a região”, disse William Hartung, cientista político e especialista na indústria armamentista dos EUA e nas práticas orçamentárias do Pentágono.
Embora muitas verbas do MOD sejam classificadas como despesas do Pentágono — ex-Departamento da Defesa e atual Departamento de Guerra dos EUA —, o ministério israelense é identificado nos registros como a entidade intermediária gestora dos recursos. O MIT, por exemplo, declarou que o dinheiro para seus projetos financiados pelo MOD teve origem no Pentágono. Os EUA fornecem cerca de US$ 3,8 bilhões em ajuda militar anual a Israel, além de outras formas de assistência.
Alguns registros de auditoria identificam a Agência de Cooperação de Segurança de Defesa dos EUA — pertencente ao Departamento de Guerra e gestora dos programas de assistência de segurança e transferência de armas dos EUA — como a principal agência fornecedora do financiamento que, em última instância, foi direcionado pelo Ministério da Defesa de Israel. Os documentos públicos não esclarecem se cada dólar destinado a apoio específico à pesquisa em uma instituição de ensino veio do tesouro de Israel, da assistência militar dos EUA alocada sob a autoridade de aquisição israelense ou de alguma combinação de ambos.
Registros de auditoria atestam envolvimento de várias instituições
No verão de 2025, o professor Markus Buehler, do MIT, retirou-se de uma bolsa do MOD após uma campanha liderada por estudantes ter tornado o projeto público. A decisão ocorreu após mais de um ano de protestos contra as relações de defesa do MIT com Israel, que, segundo a universidade, totalizaram US$ 4 milhões em projetos individuais ligados ao ministério entre os anos fiscais de 2015 e 2024, além de US$ 290 mil no ano fiscal de 2025.
Um rastro de registros de código aberto traça relações financeiras e de pesquisa semelhantes entre o aparato de defesa israelense e escolas em Connecticut, Nova York, Maryland, Flórida, Nova Jersey, Texas, Califórnia e Virgínia.
Na Universidade de Columbia, as auditorias anuais mencionam dois projetos vinculados a ministérios e registram US$ 799.190 em subsídios. Um projeto intitulado “Impressão 3D Direta de Sistemas Eletromecânicos Integrados” recebeu US$ 469.999 entre 2016 e 2021, enquanto outro, para “Otimização de Sensores Baseados em Microrressonadores”, recebeu outros US$ 329.191 entre 2021 e 2024. A auditoria do ano fiscal de 2024 da Columbia lista este último projeto sob a responsabilidade do Pentágono, com o Ministério da Defesa de Israel designado como “entidade intermediária”, e registra um financiamento de US$ 25.327.
A Fundação de Pesquisa da Universidade Estadual de Nova York mostra registros de auditoria para cinco projetos israelenses ligados ao MOD, totalizando US$ 949.915, de 2010 a 2021.
Auditorias estaduais da Flórida registram US$ 1.195.795 em despesas repassadas pelo MOD entre 2012 e 2021, sem identificar as escolas que receberam todo esse financiamento. Registros associam pelo menos alguns dos prêmios à Universidade da Flórida Central e à Universidade da Flórida. Uma publicação de engenharia da Universidade da Flórida menciona um projeto patrocinado pelo Ministério da Defesa de Israel, intitulado “Efeitos Acoplados de Tamanho e Taxa em Concreto de Ultra-Alto Desempenho”, com início em 2012. Embora liste o projeto na categoria “pesquisa patrocinada”, o boletim informativo não especificou o valor recebido pela universidade para o estudo.
A UC Berkeley “cumpre todas as leis e regulamentos aplicáveis a contratos e doações de fontes estrangeiras”, declarou um porta-voz da instituição em resposta a um pedido de comentário sobre outro contrato de US$ 150.000, com início em março de 2015, celebrado com o MOD. Ele acrescentou que a universidade se dedica apenas à pesquisa fundamental e que “todo governo, todo pesquisador, toda pessoa no mundo pode ler os resultados de nossas pesquisas em publicações científicas de acesso livre”.
A UC Berkeley não respondeu a perguntas adicionais sobre a finalidade do financiamento do MOD. Outras instituições contatadas por Drop Site não responderam aos pedidos de comentários ou afirmaram não poder fornecer informações sobre o financiamento em questão.
Além dos registros de auditorias, informações públicas de pesquisadores individuais fornecem mais indícios sobre o alcance do financiamento de pesquisas dos EUA para as forças armadas de Israel.
Em fevereiro, a revista The Nation noticiou que os pesquisadores de visão computacional Mubarak Shah e Abhijit Mahalanobis receberam uma bolsa de US$ 200.000 da Elbit Systems of America em 2020, para desenvolver tecnologia de “reconhecimento de atividade humana”, enquanto Mahalanobis recebeu outros US$ 60.000 para algoritmos envolvendo detecção de objetos e reconhecimento de atividade humana.
Na Universidade de Maryland, a página de pesquisa do professor de engenharia aeroespacial Inderjit Chopra lista duas bolsas de ministérios israelenses: US$ 150.000 para “Operação Autônoma de Micro-Helicópteros”, de 2011 a 2012, e US$ 300.000 para “Aeromecânica de Aeronaves de Asas Rotativas em Voo de Alta Velocidade”, de 2014 a 2016.
Um currículo apresentado por outro pesquisador em um processo separado do Escritório de Patentes e Marcas dos EUA lista o financiamento do MOD no valor de US$ 150.000 para “Direcionamento Funcional de Redes Terroristas: Uma Abordagem de Big Data”, de fevereiro de 2017 a dezembro de 2018, e US$ 153.520 para “Algoritmos Rápidos para Centralidade de Intermediação de Grupos em Redes Sociais Massivas”.
Registros da Universidade de Princeton identificam o físico Michael Romalis em um contrato de US$ 600.000 chamado “Magnetômetro Atômico Escalar Pulsado”. O relatório de contratos patrocinados do ano fiscal de 2018 da universidade nomeia o MOD e a Agência de Cooperação em Segurança da Defesa dos EUA como patrocinadores, e indica um período de vigência do contrato de julho de 2015 a junho de 2019.
Os boletins informativos de engenharia da Texas Tech University listam mais uma concessão de US$ 400.000 do Ministério da Defesa de Israel para pesquisa de um “Sistema HPM Vircator Selado”, citando James Dickens, John Mankowski e Andreas Neuber como pesquisadores. O mesmo valor e título aparecem nos boletins de janeiro de 2014 e abril de 2015.
A tecnologia vircator tem uma clara aplicação militar: o Centro de Potência Pulsada e Eletrônica de Potência da Texas Tech descreve os vircators como fontes de micro-ondas compactas e de alta potência e afirma que seu trabalho inclui a coordenação de emissores montados em veículos com sincronização por GPS para posicionar um “ponto quente” de micro-ondas em um local desejado — uma aplicação potencialmente útil para combater enxames de drones.
O propósito de uma fonte de financiamento separada, vinculada ao MOD, na Universidade do Texas (UT) em Austin, é menos claro nos registros públicos. O relatório financeiro da UT Austin para o ano fiscal de 2013 identifica US$ 58.992 em despesas referentes a uma ordem de compra do MOD. Os registros de auditoria estadual mostram despesas com a mesma ordem de compra reaparecendo nos registros de auditoria pública de 2010 a 2014, totalizando US$ 299.952.
O arquivo contém ainda mais despesas militares israelenses, incluindo contribuições registradas para a Northwestern University e a Washington University em St. Louis, e registros repetidos do MOD em auditorias realizadas na Virgínia.
No entanto, a natureza opaca de alguns apoios que surgiram em registros públicos significa que o apoio financeiro e em espécie às universidades pode nem sequer ser registrado em qualquer auditoria.
Na Universidade do Texas em Dallas, Haoran Wei e Nasser Kehtarnavaz desenvolveram um sistema de videovigilância em um estudo que, segundo o artigo publicado, foi “financiado pela Elbit Systems of America por meio de um contrato com a Universidade do Texas em Dallas”, sem mencionar o valor do apoio financeiro. O relatório também observou que a empresa forneceu “clipes de vídeo de campo distante” para auxiliar na pesquisa sobre reconhecimento de alvos. Os pesquisadores não responderam aos pedidos de comentários sobre a natureza de seu trabalho e seus vínculos com a Elbit.
Sistema de fiscalização é frágil e insuficiente
A Seção 117 da Lei de Ensino Superior geralmente exige que uma universidade com auxílio federal relate doações e contratos abrangidos provenientes de uma fonte estrangeira quando estes atingirem ou ultrapassarem US$ 250.000, incluindo contratos plurianuais que atinjam esse limite ao longo de sua duração. No exemplo do Departamento de Educação dos EUA, um contrato de pesquisa de cinco anos no valor de US$ 50.000 por ano deve ser relatado no momento da assinatura, pois seu valor total ao longo da vida útil é de US$ 250.000.
Em fevereiro de 2025, o inspetor-geral do Departamento de Educação alertou que a supervisão do sistema era frágil, com controles insuficientes para garantir o cumprimento das exigências de relatórios. Os atuais limites de divulgação também facilitam a contribuição de países estrangeiros com valores abaixo do estipulado, evitando assim a obrigatoriedade de relatórios, o que pode representar um risco significativo para projetos de pesquisa individuais.
Essa falta de supervisão contribui para uma situação em que milhões de dólares de um exército estrangeiro, sob crescente escrutínio nos EUA por violações dos direitos humanos e enfrentando acusações de genocídio em tribunais internacionais, puderam ser gastos no financiamento de pesquisas militares em universidades americanas.
Essas relações estão agora sob maior escrutínio num momento em que a opinião pública sobre Israel se deteriorou nos EUA devido ao genocídio em Gaza e à conduta israelense em outros conflitos regionais. “Nenhuma universidade que se preze deveria aceitar financiamento de Israel, dado o uso desestabilizador, destrutivo e desumano que o país faz de armas americanas”, disse Hartung.
*Publicado em inglês na edição de 24 de agosto de Drop Site News (disponível aqui).


