Relatório da ONU sobre infanticídio cometido por Israel confirma relevância da luta heroica dos jornalistas palestinos contra o genocídio

Sérgio Kalili*

Quem olha para as notas de rodapé do mais novo relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado, intitulado “A essência da infância tem sido destruída: os ataques deliberados de Israel contra crianças palestinas no Território Palestino Ocupado, desde 7 de outubro de 2023”, repara que entre links de organizações humanitárias e agências das Nações Unidas estão outros referentes a reportagens jornalísticas ou a estudos que se apoiam em trabalhos de mídias. O documento da ONU, mais um a chegar, após precisa investigação, à chocante mas não surpreendente conclusão de que o Estado israelense assassina crianças palestinas, deliberadamente, e comete genocídio, é mais um exemplo da importância da imprensa livre e corajosa.

Na parte que descreve a metodologia utilizada para a pesquisa do relatório, outra confirmação do uso e da importância do jornalismo para a investigação da ONU na documentação do genocídio. Os coordenadores do relatório escrevem que a Comissão Internacional Independente “recebeu informações de profissionais de saúde, membros da comunidade acadêmica, jornalistas e advogados que haviam mantido contato com vítimas e seus familiares”.

Os dados obtidos por meio de mídias jornalísticas e de outras fontes foram confirmados por relatórios médicos — incluindo exames de raios-X —, fotografias, vídeos e depoimentos em áudio de pacientes. Os pesquisadores do dossiê sobre a execução das crianças palestinas contaram ainda com “patologistas forenses independentes, que realizaram análises das provas — incluindo tomografias computadorizadas (TC) — referentes às crianças que foram baleadas e, consequentemente, mortas ou mutiladas”.

Notícias postadas em redes sociais ou veículos de mídia por repórteres independentes, que tornaram o genocídio em Gaza o primeiro documentado online, em tempo real, da história, serviram de ponto de partida para os investigadores da ONU: “materiais de fontes abertas foram coletados mediante procedimentos forenses, em conformidade com normas internacionais de preservação de conteúdo da web e regras de admissibilidade de provas digitais”. A Comissão Internacional Independente explica que, “quando necessário, tais materiais foram verificados por meio de um cruzamento de dados abrangente e detalhado com uma vasta e variada gama de fontes confiáveis, sendo complementados por exames avançados, incluindo autenticação de mídia visual, análise de geolocalização e cronolocalização, extração de metadados e reconhecimento facial”.

Para a ONU, “criança” é “todo ser humano com menos de 18 anos de idade”, como determina o artigo 1º da Convenção sobre os Direitos da Criança (CRC), tratado internacional de direitos humanos que estabelece os direitos civis, políticos, econômicos, sociais, de saúde e culturais das crianças. Adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1989, a Convenção é o tratado de direitos humanos mais amplamente ratificado da história. Importante destacar que Israel assinou o tratado e o ratificou formalmente em 3 de outubro de 1991.

Desde 7 de outubro de 2023, a Comissão Internacional Independente enviou ao governo de Israel treze (13!) solicitações de informações e/ou de acesso a dados sobre a violência em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Não houve qualquer resposta.

A ausência dos nomes das crianças palestinas nos casos emblemáticos citados no relatório da Comissão Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado não é sinal de negligência ou despersonalização das vítimas. Trata-se de um protocolo rigoroso fundamentado em critérios jurídicos e de segurança. A razão mais imediata é o princípio da não maledicência (do no harm). Expor o nome completo de crianças mortas ou feridas pode colocar as famílias sobreviventes e as testemunhas locais em grave risco de retaliação, assédio ou vigilância.

Em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, territórios sob violento controle e ocupação militar ilegal israelense, preservar o anonimato é uma medida essencial para proteger a integridade física e psicológica dos parentes que permanecem na região. Quando o relatório é tornado público globalmente, a ocultação de dados de identificação pessoal previne a superexposição, a exploração midiática da imagem e da memória e atos de retaliação militar.

A exceção se faz em casos que ganharam repercussão internacional prévia tão massiva que a identidade já se tornou pública, ou quando há autorização expressa e inequívoca da família para que o nome seja utilizado como símbolo de denúncia. Um caso icônico, amplamente documentado, é o da menina Hind Rajab Hamada, de cinco anos e 6 meses de idade, assassinada, com parte da família, por soldados israelenses.

Em 29 de janeiro de 2024, as forças de segurança de Israel ordenaram que parte da população deixasse a cidade de Gaza. Hind Rajab foi embarcada às pressas, por volta de oito da manhã, no banco de trás do carro do tio, que tentava partir do bairro de Tal al-Hawa, vizinhança nobre, no sul do município, que antes do genocídio abrigava prédios coloridos, o Ministério do Interior e a Universidade Islâmica de Gaza. No automóvel, estavam com ela sua tia e quatro filhos do casal.

Ao meio dia, quatro horas mais tarde, a prima mais velha, Layan Hamada, de 15 anos, liga do carro para a mãe de Hind e fala que soldados israelenses dispararam contra o veículo e mataram quase toda a família. Avisa que ela e Hind estão feridas. Liga para o Crescente Vermelho e pede ajuda. Às 14h45, quase três horas mais tarde, a prima fala ao operador socorrista que um tanque do Exército de Israel encontra-se perto do carro. Pouco tempo depois, mais tiros e Layan para de falar, provavelmente morre nesse momento.

Sozinha, Hind Rajab, de 5 anos, assume o celular. Fala com sua mãe e o Crescente Vermelho por mais quatro horas à espera de uma ambulância:

Hind: “Estou com medo. Estão atirando. Venha me buscar, por favor”.

Operador socorrista: “Qual o seu nome?”.

Hind: “Hind Rajab Hamada. Por favor não me abandone. Estou sozinha. Tem um tanque aqui. Estão atirando contra mim. Por favor, venha”.

Durante a ligação, ouvem-se tiros.

Hind: “Salve-me”.

Operador socorrista: “Você está na pré-escola?” (o operador parece tentar evitar que a criança entre em pânico).

Hind: “Estou na creche Butterfly”.

Em uma das ligações, Hind Rajab explica para sua mãe que levou um tiro em um dos braços, nas costas e em um dos pés.

O comando do Exército israelense autoriza a operação de resgate.

Operador socorrista: “Hind, estamos indo te buscar”.

Hind: “Por favor não me deixe. Tenho medo de escuro”.

Anoitece em Gaza.


(Confira aqui o áudio original de Hind Rajab apresentado na ONU pelo embaixador da Palestina.)

A conexão entre o Crescente Vermelho e a equipe da ambulância enviada para salvar Hind foi perdida às 18h.

Central de controle: “Você consegue ver o carro [da família]?”.

Ambulância: “Não consigo ver nada aqui”.

Central de controle: “Você está com a sirene e as luzes de emergência ligadas?”.

Ambulância: “Só as luzes, a sirene não. Ah, lá está ele!”.

Neste momento ouve-se uma explosão e depois há silêncio. A ambulância foi atacada e destruída, e dois socorristas do Crescente Vermelho Palestino (PRCS) que a conduziam foram assassinados pelo Exército de Israel, apesar de o comando israelense haver autorizado previamente o resgate de Hind Rajab. 

A ligação entre Hind e sua mãe continuou por mais uma hora, até por volta das 19h, quando a criança parou de falar. É provável que ela tenha morrido nesse horário.

O corpo de Hind e dos seus seis parentes, além dos restos carbonizados dos dois socorristas do PRCS que estavam na ambulância, foram recuperados 12 dias depois. A ambulância foi encontrada a cerca de 50 metros do automóvel.

Uma análise balística do áudio dos disparos ouvidos na ligação de Layan, prima de Hind, constatou que o carro foi alvejado por uma metralhadora Fabrique Nationale (FN) modelo MAG, de calibre 7,62×51 mm, montada em um tanque blindado israelense Merkava. A Comissão da ONU avaliou que, a essa distância, os soldados israelenses dentro do tanque tinham uma visão clara das crianças no interior do automóvel.

Uma investigação da Forensic Architecture, agência britânica multidisciplinar, formada por jornalistas investigativos, cineastas, cientistas e advogados, baseada em Goldsmiths, Universidade de Londres, constatou que 335 tiros foram disparados contra o veículo da família e que os militares do tanque conseguiam ver bem as duas crianças ainda vivas. Essa investigação também revelou que o tanque de Israel estava distante do carro entre 13 e 23 metros e que, em apenas 6 segundos, 64 tiros foram disparados contra a prima de Hind, enquanto ela estava em contato telefônico com o PRCS.

Wesam Hamada, a mãe de Hind Rajab, conta que enquanto a filha estava no carro, era ela que tentava lhe dar força e coragem, dizendo: “Mãe, não chore”. E que apesar de ferida, com fome, frio e cercada de corpos, Hind não chorou. “Estava sozinha, sem ninguém para segurar as mãos dela. Espero que as pessoas se lembrem que Hind tinha um sonho. Sonhava em ser médica para tratar de todas as crianças de Gaza”.

Hind Rajab Hamada tornou-se símbolo das atrocidades perpetradas pela humanidade e da luta contra o genocídio. Incontáveis reportagens foram e continuam sendo escritas sobre essa tragédia. E em maio de 2024, também virou música. O rapper americano Macklemore lançou “Hind’s Hall”. A canção de protesto homenageou Hind e serviu de apoio às manifestações estudantis que se espalharam por universidades de costa a costa dos Estados Unidos naquele ano.

Macklemore acusou a indústria fonográfica de ignorar o genocídio. Declarou que toda a receita gerada pelas reproduções (streams) seria destinada à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), organização que sofre com campanhas de desinformação, com o assassinato em massa de seus trabalhadores humanitários pelas forças armadas de Israel e com a destruição de suas instalações.

Em setembro de 2024, o rapper americano lançou “Hind’s Hall 2”, cuja renda também foi revertida à UNRWA. A nova faixa contou com a participação do rapper palestino MC Abdul, do cantor palestino-americano Anees, do escritor e ativista Amer Zahr, além do coral L.A. Palestinian Kids.

O cinema retratou a história do assassinato da criança palestina de 5 anos em pelo menos três produções. Em 2025, o cineasta sírio-holandês Amir Zaza lançou Close Your Eyes Hind no Festival de Cinema dos Países Baixos. A obra ganhou o prêmio Golden Calf de Melhor Curta-Metragem. O docudrama tunisiano The Voice of Hind Rajab, da cineasta Kaouther Ben Hania, conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e disputou a final do Oscar. O longa, que sofreu sabotagem por parte do lobby sionista nos EUA, usa a voz da própria Hind nos diálogos. A terceira obra é o curta-metragem do cineasta jordaniano Naji Salameh “Hind Under Siege”.

Hind Rajab transformou-se ainda no nome de uma fundação de direitos humanos de luta contra o genocídio, pelos direitos das crianças e responsabilização dos perpetradores das atrocidades nos territórios palestinos ocupados. Recentemente, as pressões exercidas pela Fundação Hind Rajab obrigaram o ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, a cancelar a visita que planejava fazer a Nova York.

A decisão ocorreu depois que a fundação e outras organizações humanitárias apresentaram uma queixa contra o ministro de extrema-direita ao Departamento de Justiça dos EUA e enviaram uma carta instando a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, a abrir uma investigação e estabelecer uma força-tarefa para investigar todos os crimes e atrocidades perpetrados por ou contra residentes de Nova York no Território Palestino Ocupado, independentemente da identidade ou nacionalidade dos responsáveis.

A cruel morte do jovem brasileiro-palestino Walid na prisão de Megiddo

O episódio a seguir foi citado no relatório da Comissão Internacional Independente de maneira anônima, mas identificado nesta reportagem por ter sido publicado anteriormente, de maneira ampla, no Brasil e porque sua divulgação foi autorizada pela família. É a história do jovem brasileiro-palestino Walid Khalid Abdalla Ahmad.

Na madrugada de 30 de setembro de 2024, por volta das três e meia da manhã, soldados israelenses invadiram a casa da família do então estudante de 17 anos, em Ramallah, na Cisjordânia. O pai apresentou o passaporte brasileiro do filho na tentativa de impedir que o levassem. O jovem foi jogado na prisão de Megiddo, conhecida por casos de maus-tratos, torturas, choques elétricos, ataques de cães, espancamentos, nudez forçada, violência sexual e negligência médica.

A família nunca mais viu ou se comunicou com Walid. Até que no dia 22 de março de 2025, seis meses após a prisão e um mês antes de completar 18 anos, militares israelenses disseram que ele havia morrido na prisão. 

A perícia, à qual a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) teve acesso, constatou perda extrema de massa muscular e gordura corporal, evidenciadas pelo abdômen afundado. A causa teria sido “fome” e “desidratação” prolongadas, além de falta de cuidados médicos. O corpo apresentava erupções cutâneas nas pernas e nas virilhas, escoriações no nariz, tórax e quadril e sinais de inflamação, talvez causada por infecção. O estudante tinha um corte no pescoço cuja origem permanece um mistério.

“A autópsia de Walid indica que os guardas da prisão israelense sistematicamente o deixaram passar fome e abusaram dele por meses até que ele finalmente desmaiou, bateu a cabeça e morreu”, declarou Ayed Abu Eqtaish, diretor do programa de responsabilização da organização não governamental Defesa Internacional da Criança Palestina (DCI-Palestine). Eqtaish completou: “A fome é uma ferramenta de genocídio, buscando enfraquecer e, finalmente, destruir tanto o corpo quanto o espírito de crianças palestinas detidas em prisões israelenses. A morte de Walid não foi um acidente”.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) entrou em contato com parentes de Walid Ahmad. Mais de um ano depois de sua morte, o corpo do estudante brasileiro-palestino não foi devolvido à família. Uma autópsia independente nunca foi feita.

Segundo o relatório da ONU, com base nos levantamentos da DCI-Palestine, em 17 de fevereiro de 2025 Israel retinha os corpos de 40 crianças. A Comissão Internacional Independente afirma ainda, com dados da Autoridade Palestina, que 1.655 crianças foram presas na Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental) desde 7 de outubro de 2023, sendo que 600 delas em 2025. Algumas por períodos curtos, dias, outras indefinidamente.

Em 31 de dezembro de 2025, 351 crianças estavam sob custódia do Serviço Prisional de Israel (IPS). Dessas, mais da metade — 51% — estavam em regime de “detenção administrativa”, situação em que palestinos são mantidas presos por tempo indeterminado, sem qualquer acusação formal. Esse número representa um recorde de crianças em detenção administrativa.

Os outros 49% das crianças detidas aguardavam trâmites legais e estavam presas com base na Lei de Combatentes Ilegais ou cumpriam pena após condenação. Os dados do IPS não incluem crianças palestinas mantidas em centros de detenção ou de interrogatório militares, que operam fora do sistema prisional.

Com base nas evidências analisadas e em consonância com relatórios anteriores, a Comissão da ONU concluiu que as autoridades e forças de segurança israelenses cometem crime de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Faixa de Gaza, além de crimes de guerra na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, matando e causando graves danos físicos ou mentais a membros do povo, incluindo crianças palestinas.

O assassinato e os graves danos físicos e mentais infligidos a crianças fazem parte de uma estratégia para destruir a continuidade biológica e a existência futura dos palestinos quanto povo. Autoridades e as forças de segurança israelenses cometeram e continuam a cometer quatro categorias de condutas específicas que compõem o crime de genocídio na Faixa de Gaza com a intenção específica de destruir, total ou parcialmente, o grupo palestino enquanto tal. Três dessas quatro categorias são especialmente relevantes para crianças, a saber: (i) matar membros do grupo; (ii) causar graves danos físicos ou mentais a membros do grupo; e (iii) infligir deliberadamente ao grupo condições de vida calculadas para provocar sua destruição física, total ou parcial.

Soldados são incentivados por autoridades e pela maior parte da mídia israelense a mirar diretamente em crianças palestinas. Em 25 de março de 2026, o parlamentar de extrema-direita Yitzhak Kroizer, do partido Otzma Yehudit, o mesmo do ministro Itamar Ben-Gvir, disse: “Apoiamos nossos soldados a qualquer custo, independentemente do resultado. Em Jenin, não há crianças inocentes. Não tenho, nem por um instante, qualquer sentimento de compaixão pelos meus inimigos”.

Em dezembro de 2024, o jornal israelense Haaretz publicou depoimentos de militares que admitiram transformar o ato de matar em campeonato, na qual cada soldado competia para ver quem conseguir executar mais civis. Todos — inclusive crianças — eram rotulados pelos militares israelenses como “terroristas”. A matéria reproduz o que disseram soldados das divisões 252 e 99, unidades do Exército de Israel que, segundo relatos, têm atuado em operações terrestres em Gaza.

No documentário de jornalismo investigativo Breaking Ranks: Inside Israel’s War (“Quebrando Fileiras: Por Dentro da Guerra de Israel”), do serviço de streaming britânico ITVX, lembrado pela comissão das Nações Unidas, vários soldados israelenses que serviram em Gaza confirmaram ter atirado em palestinos desarmados — inclusive crianças — sem qualquer restrição. Um dos soldados diz no filme: “O primeiro tiro é direto na cabeça”. Outro afirma: “Soldados não precisam se preocupar com o direito internacional, somente com o espírito das IDF (Forças de Defesa de Israel)”. Ainda: “Pessoas cometem atos extremos. Não tem ninguém para colocar limites”. E ainda: “Certamente, há soldados e oficiais que querem matar todos os árabes, todos. Essa é a razão pela qual vestem seus uniformes”. 

A Comissão da ONU reproduziu no seu relatório o depoimento de um médico que visitou Gaza em uma missão de ajuda. “Com base no agrupamento dos ferimentos e nas partes do corpo visadas, avalio que os soldados israelenses têm atirado deliberadamente em adolescentes do sexo masculino como se fosse um jogo de tiro ao alvo — com uma parte diferente do corpo sendo o objetivo a se atingir escolhido em dias diferentes… Há um padrão muito claro que sugere uma mira deliberada em diferentes partes do corpo [das crianças]”.

A cada relatório foi ficando mais claro para os pesquisadores que as autoridades israelenses objetivam aniquilar a capacidade reprodutiva dos palestinos em Gaza por meio da destruição sistemática dos serviços de saúde sexual e reprodutiva. Um exemplo é a destruição do Centro de Fertilização In Vitro (FIV) Al-Basma — a maior clínica de fertilidade de Gaza — já em dezembro de 2023.

A um jornalista palestino do serviço em árabe da BBC, o diretor do FIV, Baha Ghalayini, relatou que o local foi atingido por disparos de artilharia. Ele não consegue precisar a data ou o horário exato. Ghalayini informou que a parte mais importante da clínica abrigava dois tanques contendo cerca de 4.000 embriões congelados e mais de 1.000 amostras de esperma e óvulos.

Uma reportagem do jornal egípcio Ahram, publicada em 21 de junho de 2026, intitulada “Genocídio reprodutivo: aumento acentuado de abortos espontâneos revela outra face da guerra de Israel contra Gaza”, denuncia a severa queda na capacidade reprodutiva da população. “A combinação de desnutrição em níveis extremos, deslocamentos forçados, escassez crítica de medicamentos, traumas psicológicos e medo constante provocaram um acentuado aumento nos abortos espontâneos e uma queda drástica nas taxas de natalidade ao longo de 2025 e 2026”, descreve a repórter Yasmine Osama Farag, com base em matérias publicadas pelo diário Felesteen (“Palestino”), de Gaza.

O Ministério da Saúde de Gaza estima que ocorram, em média, entre 500 e 600 abortos espontâneos por mês em 2026, “sob o peso da guerra genocida israelense em curso e das condições de bloqueio que criaram um ambiente devastador para a gravidez e o parto”, relata o Felesteen. Somente em abril, foram registrados 921 abortos espontâneos. No ano passado, foram cerca de 6.000 casos. O número de nascimentos também caiu drasticamente: de 6.076 em novembro para apenas 2.004 em abril de 2026 (queda de cerca de 67%), o que indica um esgotamento reprodutivo sem precedentes e um colapso demográfico em rápida aceleração desde o início do genocídio.

Crianças alvejadas deliberadamente por militares israelenses, um padrão

Por meio da descrição, data e local, é possível encontrar nas notícias de jornais, de veículos de mídia e em postagens na Internet muitos dos casos que no relatório da ONU são mantidos anônimos em razão de segurança e protocolo. Pela mesma razão, o SJSP optou por manter sem identificação, nesta reportagem, os exemplos selecionados do relatório e dos quais se falará agora. São casos que foram divulgados, mas não ficaram tão conhecidos ou caíram no esquecimento. Foram escolhidos em razão do impacto e demonstração do grau de violência, atrocidade, maldade e desumanidade de que seus algozes israelenses são capazes.

Era uma hora da tarde do dia 12 de abril de 2024. Uma mãe estava sozinha na barraca, no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, amamentando o filho de dez meses de idade, quando um único projétil disparado por um quadricóptero atingiu a cabeça do bebê e saiu pela parte posterior do crânio, acertando o travesseiro atrás dela. O bebê sobreviveu, mas agora tem problemas no desenvolvimento e sofre convulsões causadas pelas lesões no cérebro.

Em 24 de agosto de 2024, por volta das oito da manhã, uma menina de quatro anos foi atingida por uma bala na cabeça enquanto fazia uma refeição com a família em sua barraca, em Khan Younis, no sul de Gaza. Ninguém mais da família ficou ferido; apenas a criança. Os pais levaram a filha para o Complexo Médico Nasser, onde foi intubada e, posteriormente, submetida a uma craniotomia. A criança sobreviveu, mas ficou com o lado esquerdo do corpo paralisado e provavelmente sofrerá com as sequelas para sempre. A Comissão Internacional Independente concluiu, com base em fundamentos razoáveis, que a pequena foi alvo de um quadricóptero equipado com um fuzil de assalto, e cuidadosamente atingida na cabeça.

Uma reportagem do Canal 14 de Israel exibiu, em 22 de julho de 2025, entrevistas com militares sobre as capacidades dos drones utilizados por uma unidade secreta de veículos aéreos não tripulados das forças de segurança israelenses. Segundo os depoimentos, esses aparelhos dispõem de sistema de disparo avançado que permite realizar ataques precisos além do alcance visual, com um nível de exatidão inalcançável para qualquer atirador de elite humano, por mais habilidoso que seja.

A Comissão Internacional Independente entrevistou 17 médicos e profissionais de saúde enviados, entre 7 de outubro de 2023 e julho de 2025, para diferentes hospitais de Gaza. Eles relataram um padrão nas lesões das crianças atendidas que tinham ferimentos, somente, por um único disparo de arma de fogo, proveniente de quadricópteros ou de franco-atiradores. “A morte de uma criança causada por um único disparo indica um alto grau de precisão no uso da força, sugerindo que o tiro foi cuidadosamente calculado, em vez de acidental ou resultante de disparos indiscriminados”, explica o documento da ONU.

Médicos descreveram um número significativo de crianças com ferimentos de bala na parte superior do corpo. Um deles, que trabalhou no Hospital Europeu de Gaza, fez uma distinção entre dois tipos de ferimentos que encontrou: balas pequenas, com orifícios de entrada e saída muito reduzidos, o que dificultou sua localização nos corpos das crianças, sendo que as vítimas frequentemente apresentaram colapso pulmonar e rompimento de vasos sanguíneos e nervos; e balas de fuzil de alta velocidade, que deixaram orifícios de entrada pequenos e de saída grandes.

Em um exemplo fornecido pelo médico, um menino chegou ao hospital com um ferimento por arma de fogo na cabeça. A bala entrou perto da orelha e saiu pela mandíbula, que ficou completamente destruída. A criança estava com o pai, que não estava ferido, indicando que a vítima provavelmente fora alvo de um franco-atirador.

Os profissionais de saúde forneceram à Comissão fotos, vídeos, tomografias computadorizadas e radiografias de 17 crianças baleadas, com idades entre três e 16 anos: oito meninos, oito meninas e uma criança de sexo não determinado. Os investigadores realizaram análises forenses independentes em 15 dos 17 casos. Em 12 desses 15, os ferimentos eram compatíveis com um único disparo de arma de fogo.

Um dos casos é de duas primas de 16 anos, cada uma com um único disparo na cabeça. Um familiar que as acompanhava informou ao médico responsável pelo atendimento que as jovens haviam sido atingidas por disparos de um quadricóptero enquanto participavam de uma cerimônia de casamento em uma tenda em Khan Younis, em agosto de 2024. Elas morreram pouco depois de chegarem ao hospital.

Segundo os autores do documento da ONU, o profissional de saúde que as atendeu disse que as duas adolescentes apresentavam acentuado inchaço nos olhos decorrente de graves lesões cerebrais causadas pelos projéteis, o que levou à necessidade da realização de uma evisceração orbital. Dois médicos legistas independentes confirmaram a causa da morte.

Em outro exemplo, um adolescente de 14 anos chegou sem vida ao Complexo Médico Nasser em agosto de 2024, com pequenos projéteis alojados no tórax e na pelve. Segundo o médico que o recebeu, os pequenos projéteis em formato de cubo criaram túneis profundos no corpo da criança, atingindo múltiplos órgãos internos e causando “tamponamento cardíaco”, que é o enchimento de sangue em torno desses órgãos e do coração, impedindo-o de bater. O sangue, praticamente, jorrava pelas cavidades. Médicos legistas independentes confirmaram que o jovem sofreu pelo menos dez lesões de aproximadamente 0,5 cm de diâmetro, com marcas de formato quadrado ou feridas de entrada triangulares.

“Esse tipo de ferimento”, registra o relatório, “é atípico para projéteis não esféricos com bordas lineares ou cortantes, mas consistente com projéteis de armas de fogo de pequeno calibre”. Diz o documento que “o jovem provavelmente morreu em decorrência de choque hipovolêmico [falta de sangue], hemorragia e lesões pulmonares e vasculares, causadas pelo impacto dos projéteis em grandes artérias do corpo”.

Os peritos nomeados pela ONU concluíram que a munição utilizada parece ter sido projetada para causar danos internos graves e sofrimento desnecessário. O uso de tal armamento “é proibido pelo direito internacional consuetudinário e pode constituir crime de guerra”.

Os números deixam claro que crianças são executadas sumariamente. A Comissão recebeu relatos sobre 168 crianças — 98 meninos, 53 meninas e 17 de sexo não identificado, com idades entre 10 semanas e 16 anos — que sofreram ferimentos por arma de fogo, de 9 de novembro de 2023 a 16 de julho de 2025. 73 dessas crianças foram atingidas com tiros mortais na cabeça e 22 delas baleadas no peito, enquanto as demais em outras partes do corpo. Oitenta e oito delas morreram em decorrência dos ferimentos.

Até 7 de outubro de 2023, quando Gaza contava com cerca de 2 milhões e 100.000 habitantes, mais de metade da população — 1 milhão e 200.000 pessoas —  tinha menos de 18 anos. Entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, de acordo com os registros oficiais do Ministério da Saúde de Gaza, as forças armadas de Israel assassinaram 20.179 crianças e feriram mais 44.143, o que equivale a 30% das pessoas mortas e 26% das pessoas feridas durante esse período. Das crianças mortas, 5.031, ou 25%, tinham menos de cinco anos; 1.029, menos de um ano de idade; e cerca de 420 eram recém-nascidas.

A Comissão Internacional Independente ressalta que o número de crianças mortas e feridas em decorrência das hostilidades em Gaza é certamente superior ao registrado. A organização Save the Children estima que cerca de 5.160 estejam soterradas sob os escombros, e outras, em número desconhecido, enterradas em valas não identificadas, sem que suas mortes tenham sido registradas, ou, ainda, muitas simplesmente permanecem desaparecidas.

Nos primeiros três meses dos ataques israelenses (outubro a dezembro de 2023), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) relatou que mais de mil crianças tiveram um ou mais membros amputados. Em dezembro de 2024, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que Gaza apresentava “o maior número de crianças amputadas per capita em todo o mundo”. Em junho de 2025, 10 mil crianças sofriam de perda auditiva em razão das bombas.

De acordo com os pesquisadores da ONU, ao sustentar que as crianças mortas ou feridas eram “suspeitas”, retratando-as como “terroristas”, o regime sionista de Tel Aviv transfere para as próprias vítimas a responsabilidade pelas atrocidades que ele comete. Tais táticas servem para distorcer a narrativa dos fatos e marginalizar ainda mais as crianças afetadas e suas famílias.

Israel também mata crianças de fome e frio. Um médico informou à Comissão que, em fevereiro de 2025, o hospital da Patient’s Friends Benevolent Society (PFBS) em Gaza internou nove recém-nascidos com hipotermia; cinco deles — duas meninas e três meninos — morreram. A mais jovem a perder a vida foi uma menina de um dia de existência. Todos eram bebês prematuros com menos de dois quilos, nascidos com idade gestacional entre 31 e 34 semanas.

Além desse estudo específico sobre o assassinato das crianças palestinas, o trabalho de reportagem local serviu de fonte para outros cinco relatórios anteriores da Comissão Internacional Independente, que passaram a usar a palavra “genocídio” ou variações, como atos genocidas ou processo de genocídio, para descrever a totalidade dos inúmeros crimes contra a Humanidade e crimes de guerra perpetrados por Israel.

O primeiro documento da ONU a usar variações da palavra genocídio é de 11 de setembro de 2024. O estudo examina o tratamento dispensado a detidos e reféns, bem como os ataques a instalações e profissionais de saúde, no período de 7 de outubro de 2023 a agosto de 2024.

Importante citar outros dois dossiês da Comissão: “Mais do que um ser humano pode suportar: o uso sistemático, por parte de Israel, de violência sexual, reprodutiva e outras formas de violência baseada em gênero”, divulgado em 13 de março de 2025; e “Análise jurídica da conduta de Israel em Gaza à luz da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio”, de 16 de setembro de 2025.

Implacável perseguição de Israel a jornalistas de Gaza e à mídia pró-Palestina

Agências da ONU também denunciam o genocídio cometido por Israel. Aliás, Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados, prepara um estudo sobre genocídio e mídia em Gaza. Ela solicitou contribuições e tem investigado os assassinatos de jornalistas palestinos e suas famílias por Israel, e outros ataques israelenses a esses profissionais, bem como as narrativas veiculadas na mídia sobre as políticas e ações de Israel em relação ao povo palestino.

O estudo destaca que jornalistas em Gaza vêm sendo mortos em uma escala sem precedentes desde outubro de 2023. Aponta que a mídia estrangeira tem sido impedida por Israel de entrar na Faixa de Gaza. “Silenciar jornalistas matando-os é a forma mais flagrante de censura”, declara.

Albanese já coordenou a elaboração de outros relatórios: “Anatomia de um Genocídio”, de março de 2024; “Genocídio como apagamento colonial”, de outubro de 2024; “Genocídio em Gaza: um crime coletivo”, de outubro de 2025; “Da economia de ocupação à economia de genocídio”, que investiga a maquinaria corporativa que sustenta o projeto israelense de colonialismo de povoamento, voltado ao deslocamento e à substituição dos palestinos no território ocupado, de julho de 2025; e “Tortura e Genocídio”, de março de 2026.

Faz parte da política de Tel Aviv eliminar organizações e indivíduos que denunciam os crimes de Israel ou tentam trazer alguma forma de alívio à população palestina. Por isso determinados grupos profissionais — aqueles que cozinham para a comunidade, socorristas, médicos, trabalhadores humanitários da ONU e de outras organizações e, claro, jornalistas e outros profissionais de mídia — são alvo de perseguições, prisões e assassinatos. 

Em 28 de maio, a UNRWA denunciou a execução sumária de mais de 310 de seus membros pelas forças armadas de Israel. 

Como explicado no início desta reportagem, boa parte da documentação usada em relatórios da ONU e de outras organizações humanitárias sobre o genocídio existe e sobrevive graças ao trabalho de jornalistas palestinos, os únicos que podem relatar a partir de Gaza.

Para calar quem denuncia o genocídio, nunca um Estado matou tanto quanto Israel. Irene Khan, relatora especial da ONU sobre a promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e expressão, declarou, em 15 de setembro de 2025, que “mais jornalistas foram mortos em Gaza do que nas duas guerras mundiais, na Guerra do Vietnã, nas guerras na Iugoslávia e na guerra no Afeganistão somadas”.

Jornalistas palestinos são assassinados por seu trabalho, quando não castigados com a morte de seus filhos e filhas. A história das crianças de Wael al-Dahdouh, então chefe do escritório da Al Jazeera em Gaza, poderia estar no relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, assim como estão seus registros, mesmo que de maneira anônima.

Em 25 de outubro de 2023, Dahdouh reportava ao vivo para a emissora quando seu celular tocou com a notícia de que Tel Aviv bombardeara a casa em que estava sua família. Encontrou os corpos do filho Mahmoud, de 16 anos, da filha Sham, de 7 anos, e de sua esposa, Amina, no necrotério. Também morreram, no mesmo ataque, seu neto Adam, de um ano e meio, e os cinco netos de seu irmão, todos com menos de 10 anos. “Eles se vingam de nós por meio de nossos filhos”, desabafou.

Por contribuírem com a documentação do genocídio, muitos outros jornalistas e trabalhadores de mídia foram assassinados por Israel juntamente com parentes, esposas e filhos pequenos. As estatísticas de repórteres, cinegrafistas e fotojornalistas mortos em Gaza por ações militares israelenses variam conforme a instituição responsável pelo levantamento, algo comum em situações caóticas e de tanta destruição. Mas a escala é de centenas de mortes.

No Líbano, que também sofre brutal agressão militar por parte de Israel, o padrão se repete: jornalistas de renome — homens e mulheres — têm sido executados em ataques israelenses.

Em 25 de agosto de 2025, a Al Jazeera publicou os nomes dos trabalhadores de imprensa assassinados por Israel até então — 273 palestinos e três libaneses. Até 22 de junho de 2026, a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) havia registrado a morte de 241 jornalistas. A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) entende que, desde 2023, o Exército israelense matou mais de 220 jornalistas no enclave. Já o Sindicato de Jornalistas Palestinos (PJS) registra 265 mortes desde o início da ofensiva militar em outubro de 2023.

Em primeiro de maio, deste ano, Volker Türk, alto comissário para os Direitos Humanos da ONU, afirmou: “A guerra de Israel em Gaza tornou-se uma armadilha mortal para a imprensa. Meu escritório confirmou a morte de quase 300 jornalistas desde outubro de 2023, além de muitos outros feridos”.

Selecionamos e citamos a seguir cinco casos de jornalistas que Israel assassinou em 2025. 

Em 17 de maio, o fotojornalista freelancer Aziz Al-Hajjar foi morto, com a esposa e filhos, em Beit Al-Naaja, no norte de Gaza.

Em 22 de agosto, o fotojornalista Hossam Manal Al-Dabbaka, da Al Quds TV, foi assassinado juntamente com a esposa, filhos e outros familiares, quando o apartamento onde estavam foi atingido por um ataque ao campo de refugiados de Al-Maghazi, no centro de Gaza.

Em 31 de agosto, um ataque aéreo tirou a vida de Islam Abed, correspondente do canal Al Quds Al Youm, de seu marido e dos filhos. O apartamento da família na Cidade de Gaza foi destruído por um míssil.

Em 2 de setembro de 2025, Osama Ahmed Balousha, que trabalhava para a Siraj Media Network, foi assassinado juntamente com suas crianças, após um bombardeio israelense atingir sua casa no bairro de Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza.

Em 11 de dezembro de 2025, a jornalista e locutora Eman El-Shanti, da Rádio Voz de Al-Aqsa, foi assassinada em um bombardeio israelense que atingiu seu apartamento na Torre Al-Malash, em Sheikh Radwan, no noroeste da Cidade de Gaza. O ataque também matou o marido de El-Shanti e os três filhos do casal.

Em 2 de julho deste ano, o genocídio em Gaza completou 1.000 dias. Segundo o governo do território, 73.066 palestinos foram assassinados. Mais da metade mulheres e crianças. Quase 59 mil meninas e meninos ficaram órfãos, com um dos pais ou nenhum. Mais de 2.700 famílias foram apagadas do registro civil.

Crianças também perdem pais e mães para as prisões. Atualmente, Israel mantém entre 9.000 e 10.000 palestinos em suas masmorras, segundo a organização israelense de direitos humanos HaMoked. Mais da metade sem condenação: 3.314 estão detidos em prisão preventiva e 3.244 sem julgamento.

De acordo com o PJS, 39 jornalistas estão presos. A RSF entrevistou cinco profissionais de imprensa que ficaram meses detidos e foram libertados em 11 de outubro de 2025. Nenhum conseguiu voltar a trabalhar.

Um deles é o cinegrafista Shady Abu Sedo, do Palestine Today. Ele foi preso em 18 de março de 2024, no Hospital Al-Shifa em Gaza, por entrevistar vítimas dos bombardeios israelenses. A prisão se deu após Shady se identificar como jornalista aos soldados. Passou 572 dias encarcerado, inicialmente na base militar de Sde Teiman, localizada a 30 km da Faixa de Gaza, no deserto de Negev, e depois nas prisões de Ofer e Ketziot-Al Naqab.

Aos 36 anos, após 19 meses sob torturas, privações, interrogatórios e violência, Shady carrega traumas psicológicos e físicos que o impedem de voltar ao trabalho. Ele se recorda do que um dos torturadores israelenses lhe disse no inicio de uma das sessões de espancamentos: “Já que você deixou sua câmera no Hospital Al-Shifa, vou arrancar seu olho”. Acabou cego de um dos olhos.

Ainda hoje sofre de sarna que contraiu na prisão, convive com epilepsia, insônia e anorexia. “Depois das cenas que testemunhei, não posso mais ficar em casa dentro de quatro paredes, nem olhar para o céu sem ter um ataque. Se eu não tomar sedativos, de repente começo a gritar”, diz ele.

Alaa al-Sarraj, de 35 anos, da produtora Ain Media, ficou detido por 692 dias, de 16 de novembro de 2023 a 11 de outubro de 2025. “Perdi minha casa, meu carro e todo o meu equipamento no valor de mais de 50 mil dólares”, disse. Dois de seus colegas foram assassinados pelo Exército de Israel, outro está preso e dois estão desaparecidos desde 7 de outubro de 2023.

A FIJ, o PJS e entidades brasileiras como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), além da ONU, acusam Israel de promover campanhas de difamação para rotular profissionais de mídia como “terroristas”, criando um ambiente permissivo para assassinatos direcionados. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), sediado em Nova York, cobra o fim da impunidade das forças de Tel Aviv e aponta, assim como outras organizações, a existência de um padrão de ataques direcionados aos trabalhadores de imprensa e suas famílias.

A Al Jazeera tem denunciado as forças israelenses, sistematicamente, por assassinatos direcionados de seus correspondentes e cinegrafistas. A emissora somou-se à Hind Rajab Foundation e ao Centro Palestino de Direitos Humanos (PCHR) para ajuizar processos formais, no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, contra comandantes militares de Israel responsáveis pelo assassinato de jornalistas. A RSF também ingressou com ações judiciais no TPI. 

Em investigações detalhadas sobre ataques específicos (como o bombardeio no sul do Líbano que matou o jornalista Issam Abdallah, da Reuters, e feriu outros), tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional concluíram que as ações israelenses se configuraram como ataques deliberados contra civis e profissionais identificados, demandando investigações por crimes de guerra.

Uma frase do jornalista norte-americano John Hersey, ganhador do Prêmio Pulitzer, explica o que está acontecendo em Gaza e no Líbano: “O jornalismo permite que os leitores testemunhem a história”. Esta é a razão pela qual Israel procura calar para sempre um enorme número de jornalistas: impedir que eles relatem os infindáveis crimes de guerra e atrocidades que seu Exército comete. E, para alcançar essa finalidade macabra, Tel Aviv não hesita em cometer outros tantos crimes de guerra.

Quando o repórter e correspondente de guerra veterano José Hamilton Ribeiro diz que “sem testemunhas, a barbárie é sempre mais absurda”, ele aponta para um fato histórico: os piores abusos contra os direitos humanos e os crimes de guerra acontecem quando ninguém está olhando.

Recomendações finais do relatório da Comissão Internacional Independente

O relatório “A essência da infância tem sido destruída: os ataques deliberados de Israel contra crianças palestinas no Território Palestino Ocupado, desde 7 de outubro de 2023”, formulado pela Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU, inclui ao seu final as seguintes recomendações a todos os Estados-Membros e aos envolvidos nas negociações de cessar-fogo:

• “Prendam quaisquer autoridades israelenses contra as quais tenham sido expedidos mandados de prisão pelo TPI e extraditem-nas para a custódia do TPI”;

• “Utilizem todos os meios razoavelmente disponíveis para prevenir a prática de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade e para garantir o pleno cumprimento das Convenções de Genebra nos Territórios Palestinos Ocupados”;

• “Cessem a transferência de armas e outros equipamentos ou itens, incluindo combustível de aviação, para o Estado de Israel”;

• “Imponham sanções específicas, incluindo a proibição de transações financeiras e a revogação ou negação de vistos de ministros e autoridades israelenses e de militares israelenses”;

• “Apoiem soluções e processos políticos que visem alcançar uma paz duradoura na Palestina, com base no direito dos palestinos à autodeterminação e fundamentados no princípio da inclusão e da apropriação, envolvendo e ouvindo os palestinos, incluindo as crianças”;

• “Apoiem e facilitem o acesso à justiça para as vítimas de crimes contra crianças”.


*Diretor de Ação Sindical do SJSP.

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