Luiz Paulo Costa, presente!

Pedro Estevam da Rocha Pomar

Morreu nesta quinta-feira (17), aos 83 anos de idade, em Caraguatatuba, o jornalista e escritor Luiz Paulo Costa, que vinha sofrendo de Alzheimer. Autor de sete livros, vereador por vinte anos em São José dos Campos, Luiz Paulo desempenhou intensa atividade política e social nessa cidade, a maior do Vale do Paraíba. Militou no antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, depois, no Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Foi preso político por duas vezes: no início da Ditadura Militar, em 1964, e em outubro de 1975, quando foi sequestrado por uma equipe do DOI-CODI do II Exército (hoje Comando Militar Sudeste) e submetido a violentíssimas torturas. Ele relata o episódio no seu último livro, autobiográfico, intitulado A Cadeira do Dragão. No entender do ex-vereador João Bosco (PCdoB), que foi seu colega na Câmara Municipal, Luiz Paulo foi um brilhante parlamentar e dedicou sua vida à democracia e aos direitos da população. “Fez resistência heroica à Ditadura Militar”, destacou. “Um homem de princípios, viveu com elevada honra e dignidade. Socialista por convicção, deixa um legado de luta e de esperança às gerações futuras”.

Durante a Ditadura Militar, foi um dos fundadores da representação local do MDB, fato que desencadeou as primeiras perseguições de órgãos de repressão. Luiz Paulo era na época servidor do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), e São José dos Campos era considerada área de segurança nacional, tendo um prefeito nomeado, o coronel-aviador reformado Sérgio Sobral.

A primeira prisão se dividiu em três períodos. Luiz Paulo passou meses detido na Base Aérea de Itapema, em Santos, depois no navio-prisão “Raul Soares” e por fim numa cela da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo, até sua libertação.

A segunda prisão, em 1975, quando trabalhava como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, o levou ao principal centro de torturas da Ditadura Militar, o DOI-CODI de São Paulo, sigla para Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna, sediado na rua Tutoia, na capital paulista. Ela ocorreu no contexto da “Operação Jacarta”, uma investida do DOI-CODI contra o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e um grupo de jornalistas a ele ligados, entre os quais Vladimir Herzog, George Duque Estrada, Sérgio Gomes da Silva e Frederico Pessoa. A “Operação Jacarta” resultaria no assassinato de Herzog em 25 de outubro de 1975.

Preso em casa no dia 19 de outubro, um domingo, Luiz Paulo chegou encapuzado ao DOI-CODI e depois de algumas horas já passou a ser torturado com pancadas e choques elétricos. Os torturadores acreditavam que Luiz Paulo fazia parte do PCB e lhe pediram informações sobre o partido. Ele relata o episódio em detalhes no livro A Cadeira do Dragão.

“A luz era forte, mas não conseguia distinguir nada através da máscara de borracha e do capuz preto. Logo entraram algumas pessoas e pediram que eu tirasse toda a roupa. Só deixasse o capuz. Fui tirando até ficar pelado. Aí ouvi um deles dizer: ‘Ele é jovem e pode aguentar bem’. Ato contínuo, levei um murro na boca do estômago que quase me derrubou ao chão”.

Luiz Paulo tentou explicar que sofria da coluna, sendo portador de osteomielite, mas foi inútil. “Nem quiseram me ouvir. Foram logo me colocando numa cadeira alta, revestida de metal, fria e me amarrando pelos braços e pernas com tiras de pano. Logo em seguida, começaram a colocar fios descascados nas partes mais sensíveis do corpo, inclusive no pênis. E começaram novamente com as perguntas sobre minhas ligações, atuação e organização. ‘Pode contar tudo’, esbravejavam. ‘Você é o assistente político da célula comunista? Responda!’. E vieram os choques elétricos. Agora mais fortes que os que havia tomado na sala de cima e acompanhados por socos e pauladas no estômago”.

Um dos torturadores desferiu nele um soco tão forte que o desdentou: “Senti uma grande dor, o gosto de sangue na boca, e cuspi dois dentes frontais superiores”. Tomado pelas dores extremas na coluna e no corpo, perdeu os sentidos. Animado com tapas no rosto, recobrava os sentidos para voltar a desmaiar em seguida, o que aconteceu, relata, várias vezes.

“Quando me colocaram no meio dos demais presos, numa sala maior, chegou até a haver um princípio de revolta, por verem o meu estado. O jornalista Sérgio Gomes da Silva exigiu que eu fosse atendido por algum médico. E até ficou bravo comigo mesmo, por não estar reclamando por assistência. De que jeito, mal conseguia manter minha lucidez!”, conta. “Mesmo nessa situação, os interrogatórios prosseguiam. Eu era arrastado para os interrogatórios”.

Depois que, finalmente, recobrou a liberdade, após nove dias de torturas e sofrimentos, foi internado na Beneficência Portuguesa, por orientação da direção do Estadão. Lá ele tomou conhecimento de que os gritos de dor que ouviu, certa tarde, no DOI-CODI, “eram do jornalista Vladimir Herzog, que estava naquele momento sendo torturado e morto”.

Luiz Paulo dedica o livro a Herzog, que, “com sua morte sob tortura no DOI-CODI do II Exército em São Paulo, salvou minha vida que se esvaía depois de torturado na Cadeira do Dragão”. Ele se baseia em depoimento do jornalista Raul Bastos, então chefe de reportagem do Estadão, para quem “Ruy Mesquita salvou a vida do Luiz Paulo Costa, de São José dos Campos, quando ele foi preso e torturado, pois ligou para o ministro da Justiça, Armando Falcão, advertindo que, se o repórter morresse, ele seria o responsável pela morte, pois sabia da prisão”.

Em 1977, o jornalista se elegeu para seu primeiro mandato como vereador de São José dos Campos, pelo MDB. Seu último mandato encerrou-se em 1996. Em 2013, foi um dos principais integrantes da Comissão Municipal da Verdade, que investigou crimes cometidos pela Ditadura Militar. 

Além de A Cadeira do Dragão, Luiz Paulo publicou Histórias e Estórias de São José dos Campos, em dois volumes (2005 e 2017), Na Luta pelos Direitos do Povo (Hucitec, 1982), Corrupção. A Câmara no Banco dos Réus (JAC Editora, 1992) e A Sua Benção, Chico Triste (Focus Vale, 2015). Em coautoria com Juliana Costa, publicou Álbum de São José dos Campos por Sérgio Weiss (JAC Editora, 2010). Crônicas suas podem ser encontradas no site “São José dos Campos Antigamente”.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo tem em alta conta a trajetória profissional e a exemplar militância política democrática de Luiz Paulo, que por mais de vinte anos esteve entre seus filiados. E se solidariza com sua esposa, filhos e netos, bem como com amigos e colegas de profissão.

Luiz Paulo Costa, presente!

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