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Luiz Gama: luta por um Brasil sem reis ou escravos

Obra de Luiz Gama revela a luta por um Brasil sem reis ou escravos

Busto de Luiz Gama no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Foto: RAOOS/Brasil de FatoSe há um intelectual brasileiro que tem conteúdo político e acadêmico para constar das bibliografias obrigatórias nos cursos de Direito, Letras e Jornalismo, é Luiz Gama. Seu nome, contudo, foi apagado da história oficial, marginalizado, como tantos outros abolicionistas, e esquecido como as inúmeras insurreições e levantes negros que levaram também à abolição da escravatura.

Incluí-lo nos currículos das universidades é a próxima batalha de Lígia Ferreira, docente do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora responsável por um minucioso trabalho “de garimpo e arqueologia” para promover o resgate da figura do abolicionista. “Luiz Gama é o único intelectual, a única personalidade negra brasileira do século 19, a ter vivido a experiência da escravidão. Isso já é um fato que o singulariza dentro do panorama do Brasil do século 19”, afirma. 

Tardias, porém necessárias, as homenagens a Gama no século 21 somam-se a sua biografia. Em 2015, a Ordem dos Advogados do Brasil o homenageou e o reconheceu como advogado, embora ele nunca tenha conseguido se formar oficialmente, já que foi impedido de frequentar a Escola de Direito do Largo São Francisco por ser negro.

Nesta quinta, às 19h, a Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial (Cojira), órgão do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, promoveu outra reparação histórica: o reconhecimento oficial do abolicionista como jornalista.

Obra única

Luiz Gama foi pioneiro ao introduzir a subjetividade negra na literatura. Ao lado do caricaturista  Angelo Agostini, fundou o primeiro jornal ilustrado da cidade de São Paulo, intitulado Diabo Coxo, em 1864.

Charge de Angelo Agostini para o jornal Diabo Coxo, fundado por Luiz Gama. Foto: Reprodução/Brasil de Fato

Como advogado, foi responsável pela libertação judicial de mais de 500 pessoas escravizadas, como revela em 1880 em carta autobiográfica a Lúcio de Mendonça.

“A atuação dele no jornalismo foi um ato de coragem que há muito a gente já não vê”. Essa é a opinião do jornalista e escritor Oswaldo Faustino, que também esteve presente no Seminário. Faustino considera como corajosa a batalha de Gama contra o Império, suas oligarquias e sistema judicial.

Em seu livro A luz de Luiz: por uma terra sem reis e sem escravos publicado pela editora Córrego, em 2015, Faustino promove o encontro da narrativa de Luiz Gama com jovens do século 21.

O Seminário Luiz Gama Jornalista teve como principal painelista Lígia Ferreira, organizadora dos livros Luiz Gama em Primeiras Trovas Burlescas e outros poemas, publicado pela editora Martins Fontes, no ano 2000; e Com a palavra, Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas, publicado em 2011 pela Imprensa Oficial. A mediação foi da jornalista e radialista Cinthia Gomes, que é integrante da Cojira-SP e desenvolve pesquisa de mestrado sobre a autoria negra nos textos jornalísticos de Luiz Gama dentro do Programa de Ciência da Comunicação (ECA-USP).

Racismo institucional

A pesquisa refinada de Lígia segue lançando luz sobre a trajetória de Gama. Por exemplo, ele era muito popular entre os advogados e os intelectuais da sua época. Por isso, a pesquisadora rebate a afirmação de que Gama foi marginalizado desde sempre. “Ele foi lido e apreciado no seu tempo”, explica. 

Uma prova desse prestígio, inclusive entre os republicados, é o fato de sua primeira biografia ter sido publicada no Almanaque Literário de São Paulo com Gama ainda vivo. O texto foi assinado por Lúcio de Mendonça, jornalista e escritor que mais tarde idealizaria a Academia Brasileira de Letras. “Por isso que eu digo, Luiz Gama fazia notícia, mas ele também era noticia”, pontua a pesquisadora.

É neste texto sobre o abolicionista que Mendonça inclui a frase que mais tarde foi creditada a Gama: “o escravo que mata seu senhor, em qualquer circunstância, o faz sempre em legítima defesa”. Para Lígia, a falta de conhecimento sobre o autor ajudou a espalhar essa frase como sendo de Gama. “Esta frase não é do Luiz Gama, ela é desse amigo branco que escreveu sobre ele”, explica.

A pesquisadora conta que seria muito complicado pelo trânsito de Gama entre abolicionistas e republicanos sustentar essa frase desse modo, embora sua literatura seja revolucionária ao propor a ruptura do Império e a liberdade dos negros.

Com o passar dos anos, a figura de Luiz Gama foi afastada das narrativas oficiais, sendo que não há registro de estudo sobre sua obra nas grades curriculares de Jornalismo até os dias de hoje. Faustino credita esse apagamento de um personagem tão importante para a história da imprensa ao racismo institucional.

“O tempo todo Luiz Gama enfrentou o racismo, em sua parte pior que é a parte institucional do racismo. Ele nunca teve medo de encarar essa visão, pensamento e filosofia que garantia que um povo explorasse outro”, pondera o jornalista.   

História

Luiz Gama nasceu em 21 de junho de 1830, na cidade de Salvador (BA). Era filho de pai branco de origem portuguesa e Luiza Mahin, negra livre que participou de insurreições de escravizados. 

Foi vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai, aos 10 anos de idade. Mesmo permanecendo analfabeto até os 17, conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia ficando conhecido como advogado dos pobres e libertador dos negros. Aos 29 anos, já era autor consagrado.

Como citado por Faustino, Lígia acredita que a historiografia oficial deliberadamente não deu destaque à campanha contra a escravidão e fortaleceu a ideia de que a abolição aconteceu apenas no parlamento do Brasil imperial, em detrimento da memória e da visibilidade de Gama e outros abolicionistas.

“No dia seguinte à abolição houve um ocultamento não só da participação dos negros e do protagonismo dos escravos, mas isso foi apagado da memória nacional”, lamenta a pesquisadora. A figura de Luiz Gama, portanto, acaba diluída na continuada tentativa de apagar o passado escravagista do Brasil e a importância da mobilização popular naquele momento.

Segundo ela, a memória de Luiz Gama é celebrada pela imprensa negra do século 20 pelas associações negras e pela maçonaria, que garantiu que o nome Gama batizasse ruas e avenidas pelo Brasil.

Gama faleceu em 1882, sem ver a concretização do fim da abolição, que só viria seis anos depois da sua morte, e da consolidação da República, em 1889. “Ele nasceu em 1830 e faleceu 1882 lutando pela abolição, e não só, lutando também pelo republicanismo. Mas Luiz Gama não testemunhou nenhuma das reformas políticas sobre as quais teve papel muito importante”, conta Lígia. 

Um homem que tanto lutou pela liberdade talvez se entristeceria ao ver que não só a abolição para qual lutou teve caráter apenas formal, como as leis criadas pela República que tanto defendeu viriam a criminalizar os negros recém libertados, como a lei que proibia a capoeiragem, a vadiagem, a mendicância e o curandeirismo na constituição de 1890. 

É em uma carta a seu filho que, no final da vida, Gama pontua seu sonho de construção de um projeto civilizatório coerente com suas ideias republicanas e abolicionistas: “um Brasil americano, e as terras do Cruzeiro sem reis e sem escravos”. 

Na tentativa de reparar esse apagamento histórico, em janeiro de 2018, seu nome entrou para o Livro dos Heróis da Pátria, memorial cívico em homenagem às pessoas que, de algum modo, agiram pelo engrandecimento da nação brasileira, em Brasília.

Durante o Seminário no Sindicato dos Jornalistas, uma placa de honra ao mérito será inaugurada no Auditório Wladimir Herzog, com o objetivo de assinalar o reconhecimento de Luiz Gama como jornalista atuante em São Paulo.

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