Os ataques israelenses em Gaza atingiram o nível mais alto desde o acordo de outubro de 2025, de acordo com relatório de 15 de julho de autoria da Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED). A ACLED, que é parcialmente financiada pelos EUA e baseada naquele país, registrou em junho último o maior número mensal de ataques aéreos e com drones israelenses desde o “cessar-fogo”.
Nasser Khdour, autor do relatório do ACLED, acredita que a escalada israelense deverá se intensificar. “Os ataques aéreos e com drones israelenses contra o Hamas e outros alvos militantes na Faixa de Gaza têm aumentado desde maio, como parte da crescente pressão militar de Israel sobre o Hamas. A ACLED registrou mais de 40 desses ataques em junho, o maior total mensal desde o início do cessar-fogo em outubro de 2025”, diz.
“A proporção de ataques aéreos e com drones israelenses que atingiram militantes subiu de quase 36% em junho para cerca de 40% nos primeiros 10 dias de julho, indicando um foco maior em alvos militantes específicos”.
Enquanto isso, “outros ataques aéreos e com drones continuaram a atingir pessoas em locais próximos à Linha Amarela, matando e ferindo civis, incluindo mulheres e crianças”, prossegue Khdour.
“O aumento da violência foi parcialmente impulsionado pela desescalada do conflito no Líbano, o que deu a Israel mais espaço para redirecionar seu foco militar para Gaza. E, às vésperas das eleições nacionais em outubro de 2026 — com as pesquisas mostrando a oposição na liderança —, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enfrenta crescente pressão interna para adotar uma postura de segurança mais dura contra o Hamas”. Ainda segundo o autor, “antecipando este período pré-eleitoral perigoso, o Hamas dissolveu seu governo em Gaza para transferir o controle ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, na esperança de que essa mudança administrativa levasse os mediadores e o Conselho de Paz a bloquear uma grande ofensiva israelense”.
Porém, dada a “diminuição das operações militares no Líbano e a ausência de troca direta de tiros entre o Irã e Israel, é provável que os ataques israelenses contra militantes e grupos em Gaza aumentem ainda mais antes das eleições”, adverte. “A probabilidade de qualquer grande operação terrestre israelense ou campanha aérea em larga escala dependerá em grande parte da intensidade da pressão exercida pelos EUA sobre Israel para evitar uma escalada ainda maior em Gaza”.
No período posterior à entrada em vigor do “cessar-fogo”, o governo de Gaza registrou mais de 1.600 ataques israelenses aéreos e de artilharia e mais de 1.400 ataques a bala. O número total de palestinas e palestinos assassinados por Israel desde 7 de outubro de 2023 subiu para 73.283, com 173.864 feridos. Desde 11 de outubro de 2025, o primeiro dia completo do chamado “cessar-fogo”, Israel matou pelo menos 1.158 palestinos em Gaza e feriu 3.756, enquanto 802 corpos foram recuperados dos escombros.
Na última quinta-feira, 16 de julho, as forças armadas israelenses assassinaram cinco pessoas em Gaza. Na sexta-feira, 17, Israel matou 14 palestinos e feriu pelo menos 37 em ataques separados em Gaza, informou a Al Jazeera.
Pelo menos oito palestinos foram mortos e outros 20 ficaram feridos depois que um drone israelense atingiu um grupo de palestinos no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, segundo a agência de notícias Safa, sediada em Gaza. O ataque teve como alvo o grupo enquanto o cortejo fúnebre de um palestino morto anteriormente passava pela área.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) informou que suas equipes trataram 12 pessoas feridas no massacre em Nuseirat, incluindo sete crianças, e que três delas ficaram gravemente feridas, entre elas um adolescente de 14 anos.
“Desde o meio-dia de quinta-feira, pelo menos oito ataques aéreos das forças israelenses foram relatados em Gaza – todos com vítimas. Também houve relatos de intensos tiroteios e bombardeios de artilharia. Para as pessoas em Gaza, não há alívio da violência. Isso não é um cessar-fogo”, registrou a MSF.
Israel atacou um prédio de apartamentos na Cidade de Gaza, matando uma pessoa e ferindo outras. No norte da Faixa de Gaza, um ataque de drone israelense em Beit Lahia matou uma mulher de 52 anos. Uma pessoa morreu e outras três ficaram feridas depois que um ataque israelense atingiu um abrigo improvisado que abrigava pessoas deslocadas, a oeste do campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza.
As forças israelenses entraram no bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza, matando um palestino, ferindo outros três, destruindo casas e lojas e forçando famílias a fugir. Pela manhã, tropas israelenses haviam avançado a “linha amarela”, a fronteira que marca o limite do controle militar israelense, em violação do acordo de outubro de 2025, até a estrada Salah al-Din — a via expressa de 45 quilômetros que liga o norte e o sul de Gaza e atravessa todas as províncias. Uma testemunha descreveu drones e bombardeios cercando famílias deslocadas durante a noite, forçando mulheres a dormir na rua. “Não sabemos para onde fugir”, disse.
Os ataques israelenses prosseguiram no final de semana. Israel matou 10 palestinos, incluindo 3 crianças, em ataques contra Gaza durante a madrugada de sábado. Um ataque israelense matou uma família de cinco pessoas no bairro de Al-Nasr, na Cidade de Gaza, enquanto outras três pessoas foram mortas em ataques no bairro de Al-Zeitoun.
No domingo, um ataque aéreo israelense em Khan Younis matou pelo menos uma pessoa e feriu outras 10, todas deslocadas e abrigadas na área de Al-Mawasi, na cidade, segundo o jornalista local Osama Abu Rabee. Mais tarde, as forças israelenses mataram a tiros uma criança de 6 anos na mesma área.
O compositor palestino Qassem al-Khawaja, de 28 anos, foi encontrado morto em seu apartamento na Cidade de Gaza no sábado. Sua família acredita que ele foi alvo de colaboradores do Exército israelense e que o assassinato foi premeditado. Al-Khawaja conquistou seguidores rearranjando canções usando panelas e lenha da cozinha de sua família. “A música também é o som da vida cotidiana, mesmo nas circunstâncias mais difíceis”, escreveu ele anteriormente.
Surto de varicela em Gaza mata criança de dois anos
Equipes médicas em Gaza documentaram mais de 9.300 casos de varicela nas últimas duas semanas, segundo um correspondente da Al Araby, e uma criança de 2 anos morreu no domingo devido a complicações relacionadas à doença.
Fontes médicas atribuíram o surto a uma “combinação de deslocamento em massa, superlotação severa, acesso extremamente limitado à água potável, esgoto, vazamentos, acúmulo de lixo” e colapso total das condições de higiene em Gaza.
O médico Bassam Zaqout, diretor da organização Palestinian Medical Relief, alertou no domingo que o sistema de saúde de Gaza está à beira do colapso total, enquanto Israel continua destruindo instalações médicas e restringindo a entrada de medicamentos, equipamentos e suprimentos.
Ele citou como exemplo a recusa de Israel em permitir a entrada de bicarbonato de sódio na Faixa de Gaza, substância essencial para o tratamento de diálise renal, e observou que os índices de anemia em Gaza subiram de 20% antes da guerra para 50-60% atualmente.
Hamas nomeia Khalil Al-Hayya como principal dirigente
O Hamas anunciou na segunda-feira que elegeu Khalil Al-Hayya como o novo chefe do seu gabinete político, sucedendo a Yahya Sinwar, que foi assassinado pelo Exército israelense em outubro de 2024. Al-Hayya foi eleito por meio de uma votação interna, derrotando o ex-chefe do gabinete político do Hamas, Khaled Meshaal, no segundo turno.
Membro fundador do Hamas desde a sua criação em 1987, Al-Hayya fez parte do conselho de liderança do movimento, composto por cinco membros, e liderou as negociações com Israel em seu nome.
Nascido na Faixa de Gaza em 1960, Al-Hayya perdeu três filhos em ataques israelenses ao longo dos anos, incluindo um em um bombardeio que teve como alvo Al-Hayya e outros líderes do Hamas em Doha, em setembro de 2025, e outro morto em um ataque aéreo israelense na Cidade de Gaza, em maio.
Relatório: Israel mantém 16 médicos palestinos no cárcere
No sábado, o Centro Palestino para Defesa de Prisioneiros divulgou relatório segundo o qual Israel mantém pelo menos 16 médicos palestinos em suas prisões, onde eles são submetidos a tortura, fome, isolamento e negligência médica.
O grupo afirmou que a detenção é uma retaliação contra a equipe médica que permaneceu em seus postos durante o genocídio em Gaza. Destacou os casos de Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, que sofreu abusos, negligência médica e represálias, e Marwan Al-Hams, que também teve negado o acesso a medicamentos e o contato com sua família durante o período de detenção. O paradeiro de alguns médicos é deliberadamente ocultado do público.
Abu Safiya relatou a seus advogados, em 14 de julho, que guardas prisionais israelenses o espancaram novamente após uma visita anterior de seus advogados, em 2 de julho. Ele acrescentou que permanece em confinamento solitário em uma prisão subterrânea e que lhe foi negado atendimento médico para uma lesão no olho direito, segundo a organização Médicos pelos Direitos Humanos de Israel.
“Façam tudo o que for possível para me tirar deste lugar”, disse Abu Safiya a seus advogados, mencionando a suspensão de sua medicação para dor e a recusa da direção da prisão a lhe fornecer os resultados de uma radiografia realizada recentemente.
Durante a visita, Abu Safiya foi mantido longe de seus advogados atrás de uma divisória opaca e forçado a se comunicar por telefone, enquanto guardas prisionais mascarados permaneciam próximos o suficiente para ouvir a conversa. Ex-diretor do Hospital Kamal Adwan, o pediatra está preso sem acusação formal ou julgamento desde dezembro de 2024, após se recusar a abandonar seus pacientes.
Oito jornalistas assassinados no primeiro semestre de 2026
O Sindicato dos Jornalistas Palestinos (PJS) afirmou nesta segunda-feira, por meio da agência WAFA, que as forças israelenses e os colonos cometeram 467 violações contra jornalistas e profissionais da mídia palestinos durante o primeiro semestre de 2026. As violações incluíram restrições à liberdade de imprensa, prisões, agressões físicas diretas, uso de munição real, gás lacrimogêneo e medidas judiciais injustas.
O relatório documentou o assassinato de oito jornalistas durante os primeiros seis meses do ano, elevando o número total de mortos desde 7 de outubro de 2023 para 264.
Segundo o relatório, as forças israelenses também prenderam 27 jornalistas, abriram fogo contra equipes de mídia em 29 incidentes e usaram gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral contra jornalistas em 78 casos durante o período analisado.
Participante da Sumud Flotilha processa guardas por estupro
Anna Liedtke, uma ativista de 25 anos que foi capturada pela Marinha de Israel quando se encontrava a bordo de uma embarcação da Global Sumud Flotilha (GSF), apresentou uma queixa-crime em Israel acusando guardas femininas da prisão de Givon de estuprá-la durante uma revista íntima forçada, segundo relatou o The Guardian.
Na ação judicial, a jovem ativista da GSF denuncia que as guardas a forçaram a se ajoelhar, a imobilizaram e taparam sua boca para que não gritasse, enquanto guardas homens assistiam e riam. As forças israelenses detiveram Liedtke em águas internacionais em 8 de outubro de 2025, e a mantiveram presa por cinco dias.
Anna Liedtke afirmou que o abuso tinha como objetivo intimidar ativistas para que abandonassem a solidariedade com os palestinos, acrescentando que a agressão que sofreu foi “muito, muito menor do que o que os prisioneiros palestinos sofrem”. Mais de uma dúzia de outros ativistas da flotilha também relataram agressão sexual.
Em maio, Drop Site publicou o relato em primeira pessoa de Liedtke, escrito em parceria com a jornalista Noa Avishag Schnall, detalhando seu sequestro e abuso. Leia aqui.
Canal 14 mostra líderes israelenses elogiando destruição de Gaza
Uma nova reportagem do Canal 14 de Israel mostra altos funcionários do governo e das forças armadas israelenses comemorando abertamente a destruição de grandes áreas de Gaza e o massacre e deslocamento de palestinos.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, disse sentir-se “bem” ao ver bairros como Jabaliya e Shuja’iyya “destruído” e “em ruínas”, descrevendo a devastação como resultado de uma política deliberada. Ele acrescentou que as forças israelenses não se retirarão da chamada “linha amarela” a menos que o Hamas se desarme, afirmando: “E mesmo depois disso, permaneceremos em Gaza!”.
O major-general Tamir Yadai, vice-chefe militar israelense, descreveu a situação como uma “vitória”, citando o controle de Israel sobre 65% de Gaza e afirmando que “70.000 terroristas” foram mortos.
Altos funcionários militares teriam informado ao Gabinete de Segurança de Israel que o país controla atualmente entre 67% e 70% da Faixa de Gaza, de acordo com o Jerusalem Post.
Reino Unido e Canadá financiam assentamentos israelenses?
Uma investigação secreta da Al-Jazeera descobriu evidências de que instituições de caridade e doadores do Reino Unido e do Canadá estão ajudando a canalizar doações dedutíveis de impostos para organizações de colonos israelenses na Cisjordânia ocupada, apesar das leis que proíbem o uso de fundos de caridade para apoiar assentamentos ilegais.
Fazendo-se passar por potenciais doadores, os repórteres infiltrados da Al Jazeera foram informados por organizações pró-colonização de que as doações poderiam ser encaminhadas por meio de instituições de caridade registradas antes de serem usadas para expandir os assentamentos, fazer campanha pela demolição de casas palestinas e fornecer equipamentos de uso militar, incluindo drones, aos colonos. Veja aqui a reportagem completa da Al Jazeera.
Ataques israelenses na Cisjordânia ocupada
Na noite de domingo, as forças israelenses mataram dois palestinos em Deir Jarir, perto de Ramallah, incluindo um jovem de 26 anos que assistia à final da Copa do Mundo. Pelo menos outras três pessoas ficaram feridas nos ataques.
Fadi Al-Naasan, de 17 anos, que foi baleado por forças israelenses há cerca de uma semana e teve um pé amputado em decorrência do ataque, morreu em Ramallah no sábado. Al-Naasan era um jogador de futebol talentoso, atuando pelo clube local Al-Mughayyir e pela seleção palestina juvenil.
*Resumo, com adaptações, de matérias publicadas nas edições de Drop Site News de 17 e 20 de julho (confira aqui e também aqui).


