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Banco de Talentos Negros favorece aumento da diversidade nas redações

Banco de Talentos Negros favorece aumento da diversidade nas redações

Quem entrar na página Cadastro Banco de Talentos Negros, hospedada no Google Drive, ficará sabendo logo de cara que não se trata de uma agência de empregos. E saberá também que o objetivo principal dessa iniciativa é disponibilizar currículos de profissionais negros para vagas de emprego na área de comunicação, com o objetivo de reunir em um único lugar esses talentos para permitir que empregadores os visualizem, aumentando assim as chances de inserção no mercado de trabalho. Vale a pena lembrar que num país em que mais da metade da população é negra, apenas 22,4% dos jornalistas que com postos formais (87.869) são negros, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com dados de 2015. O estudo aponta que em São Paulo esse percentual é ainda menor, chegando a 14,9% dos 26.178 jornalistas com carteira assinada.

A jovem jornalista Beatriz Sanz é a idealizadora do projeto Banco de Talentos Negros / Foto: Arquivo pessoal

A idealizadora do projeto Banco de Talentos Negros foi a jovem jornalista Beatriz Sanz, uma paulista de 27 anos, nascida em Diadema, mas criada na pequena cidade baiana de Malhada. Formada em jornalismo em 2017 pela Universidade São Judas Tadeu, Bia, como é conhecida, é atualmente repórter do UOL, tendo passado antes pelas redações do Portal R7 e do El País Brasil. É também integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – Cojira SP, órgão de assessoria da diretoria deste Sindicato.

Projeto foi inspirado na ação que publicitária Angel Pinheiro desenvolvia na agência em que trabalha / Foto: Arquivo pessoal

A ideia de reunir os currículos de jornalistas e outros profissionais negros de comunicação em um único lugar foi inspirada por outro projeto que a publicitária Angel Pinheiro desenvolvia na agência onde trabalha, também para indicar jovens negros. “Escolhemos o drive por ser uma ferramenta que possibilita que os possíveis empregadores tenham acesso aos CVs de forma rápida e segura.”, explica Beatriz.

Ela conta que o projeto existe desde novembro 2019, mas ganhou força e tomou corpo em janeiro deste ano. “Atualmente, temos pastas com CVs de 11 estados mais o Distrito Federal. Infelizmente, toda a nossa demanda até o momento está centralizada em São Paulo. Esperamos que veículos e empresas de comunicação de todo o país se conscientizem sobre a ausência de profissionais negros. Nosso trabalho é ligar essas empresas com profissionais qualificados.”

Ruam Oliveira é um dos jornalistas que se dedica, voluntariamente, a organizar o banco de talentos / Foto: Arquivo pessoal

A divulgação é feita via redes sociais e pelo boca a boca. O link com os currículos é aberto e pode ser acessado por qualquer pessoa. Dessa forma, os empregadores podem analisar os CVs dos cadastrados de forma rápida. O banco é gratuito para os candidatos e para os empregadores e é voluntário todo o trabalho – desenvolvido por Angel, pelo jornalista Ruam Oliveira e por Beatriz. “Nós recebemos os currículos, avaliamos se eles estão de acordo com o padrão – é necessário ser estudante ou formado na área de comunicação e o arquivo do CV precisa estar em formato PDF -, respondemos aos candidatos que nos procuram e incluímos seus CVs no link do Banco no Drive.”

Apesar de estar ainda no início, o Banco de Talentos Negros já contabiliza algumas conquistas. Em fevereiro, a equipe de Hard News do UOL anunciou a chegada de seis novos estagiários, todos advindos do Banco de Talentos Negros. Outros candidatos foram chamados para freelas e trabalhos temporários. Além disso, o projeto embrionário desenvolvido por Angel também fez com que mais dois publicitários fossem contratados na agência onde ela trabalha. “O resultado pode parecer pequeno,” – afirma Beatriz – “mas sabemos do impacto que isso terá ao longo prazo para o jornalismo e para os profissionais. Segundo dados do IBGE de 2019, 64,3% dos 12,8 milhões de desempregados são pretos ou pardos. Esse quadro se reproduz, e até mesmo se agrava, no mercado da comunicação no Brasil. O Banco de Talentos Negros é apenas mais um projeto que visa reparar essa injustiça histórica. Se somos maioria da população, temos que ser também maioria em todos os espaços”, conclui.

A iniciativa de uma empresa

Em 28 de abril de 2019, a Folha de São Paulo anunciava o início de uma editoria de Diversidade, criada, segundo o jornal, com objetivo de refletir sobre a variedade da vida social no país e o dia a dia na Redação. Quem assumiu o novo cargo foi a jornalista negra Paula Cesarino Costa que até então ocupava o cargo de ombudsman. “A intenção” – declarava ela à época – “é trabalhar de modo transversal na Redação, atuando na discussão de pautas, na diversidade de enfoques, buscando ampliar as fontes ouvidas”, afirmou.

E o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, acrescentava que a editoria iria analisar reportagens já publicadas —apontando, por exemplo, se as fontes ouvidas foram apenas heterossexuais e brancas— e olhando para a frente, ao sugerir novas fontes para pautas e artigos. “Ela participará, inclusive, do processo de contratação de jornalistas para que já nesse momento se tenha preocupação com a diversidade”, afirmou.

A atual ocupante do cargo é Alexandra Moraes, que é branca e está há 19 anos na Folha, onde foi editora da Ilustríssima (2018-2019), editora-adjunta de Especiais e da Ilustrada, além de ter atuado em outras áreas. Ela explica que o objetivo da editoria é “diversificar o conteúdo e as vozes que têm espaço no jornal para tentarmos chegar também a um leitorado mais amplo”. E lembra que o Diretor de Redação, Sérgio Dávila, já definiu a criação da editoria como um modo de “furar a bolha em que nós, jornalistas, vivemos”.

Segundo Alexandra, a diversidade que dá nome à editoria diz respeito tanto às temáticas abordadas quanto à composição étnico-racial da redação: “Tem a ver com as duas coisas. Entendemos os dois lados como fundamentais. Também levamos em conta, nessa análise da diversidade, componentes sociais, de origem e religiosos, por exemplo.” E acrescenta que a ideia é buscar cada vez mais equilíbrio na composição étnico-racial e, embora não apresente dados numéricos que comprovem a efetivação desse objetivo, afirma que já existem resultados: “Não creio” – esclarece – “que sejam só resultados atrelados à editoria. É um esforço do jornal como um todo. A editoria é um ponto de apoio, inclusive para reforçar a importância desses resultados, mas eles não dependem dela, e sim de uma disposição coletiva.”

 

*Diretor do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – Cojira-SP, trabalha com revisão e preparação de textos acadêmicos, livros e relatórios de empresas e ONGs. Foi consultor do Núcleo Étnico-Racial da Secretaria Municipal de Ensino de São Paulo, produtor de conteúdo para o site e editor chefe da revista do Consulado Geral de Angola em São Paulo de 2012 a 2018; redator, chefe de reportagem e editor chefe no Departamento de Jornalismo da Rádio Cultura de São Paulo;  subeditor do Diário Rural da TV Bandeirantes; editor de reportagens na rádio Eldorado de São Paulo; e repórter no jornal Diário Popular. Publicou pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – IMESP, e por Geledés – Instituto da Mulher Negra, a coletânea Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro – organizada em parceria com Rosane da Silva Borges. Pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – Ceert, publicou Diversidade nas Empresas & Equidade Racial, coletânea organizada em parceria com Maria Aparecida da Silva Bento

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