O genocídio perpetrado por Israel em Gaza completa três anos neste mês de outubro. Apesar de todas as atrocidades, apesar dos incontáveis crimes contra a humanidade e crimes de guerra que Tel Aviv e o Exército israelense cometeram e continuam a cometer diariamente contra a população palestina, a céu aberto, “perante os olhos do mundo”, os governos ocidentais que poderiam impedir a continuação do massacre continuam agindo em total cumplicidade com Israel.
A maior parte da mídia internacional, por sua vez, comporta-se hipocritamente, como se não houvesse um genocídio em andamento. A mídia empresarial brasileira age de modo semelhante.
Governos ocidentais e mídia também se omitem em relação à escalada de crimes cometidos por Israel nesse mesmo período na Cisjordânia, onde Exército israelense e colonos aterrorizam moradores, cometem assassinatos, roubam terras e rebanhos da população palestina, criam novos assentamentos ilegais e expulsam milhares de famílias, afrontando abertamente as decisões da Corte Internacional de Justiça (ICJ).

Neste momento, é de 74.250 o número oficial de palestinos e palestinas que Israel assassinou em Gaza, na sua grande maioria civis (estima-se que, na realidade, sejam mais de 100 mil), e o total de pessoas feridas excede 175 mil. O “cessar-fogo” imposto pelos EUA em outubro de 2025 somente reduziu o ritmo da matança. Desde então Israel já eliminou 1.467 pessoas em Gaza, retomou os ataques ao Líbano, assassinou mais de 4.300 libaneses e libanesas desde março de 2026 e vem demolindo milhares de residências no sul do país, onde enfrenta a resistência armada do movimento Hezbollah.
A criação do Estado de Israel, que implicou a conquista e o desmembramento da Palestina histórica por forças sionistas, a partir de 1948, foi um dos experimentos políticos mais perversos do colonialismo europeu e certamente o mais duradouro. Pontuada por massacres cometidos pelo Exército israelense, a Nakba, expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas terras ancestrais, foi apenas o início de um interminável calvário. Já são oito décadas de ocupação, opressão e extermínio do povo palestino, expulso de suas casas e de suas terras e desde então submetido a violências, perseguições e humilhações diárias.
A criatura que surgiu desse experimento colonial é sui generis. Um estado delinquente, terrorista, racista, expansionista, que não acata as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU), que mata impunemente funcionários da ONU e socorristas de organizações humanitárias, que se acha no direito de sequestrar pessoas em território estrangeiro ou em águas internacionais, que não respeita acordos e que pratica sistematicamente torturas e abusos no seu sistema carcerário.
Esse estado criminoso vinha agindo, até agora, com quase total impunidade, graças ao generoso financiamento e ao apoio diplomático e comercial que recebe tanto dos EUA como das antigas potências europeias, em especial Alemanha (que mantém com Israel intenso intercâmbio de compra e venda de armamentos), Inglaterra е França. O historiador israelense Ilan Pappe observou que os países centrais europeus enxergam Israel como um enclave da Europa no Oriente Médio.
O jornalista israelense Gideon Levy, que esteve recentemente em São Paulo, destacou que Israel não cometeria tamanhos crimes sem o beneplácito dos EUA. O governo Trump sancionou a relatora especial da ONU para a Palestina, a italiana Francesca Albanese, por sua corajosa defesa dos palestinos, e agora persegue igualmente os juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI) que emitiram mandado de prisão contra Benjamin Netanyahu em razão dos crimes de guerra cometidos pelo primeiro-ministro israelense.
O regime sionista que dirige Israel compartilha a mesma matriz ideológica dos fascismos de ontem e de hoje. O estado que surgiu em 1948 já praticava “limpeza étnica” contra os palestinos. O jornal israelense Haaretz publicou ampla reportagem sobre documentação daquela época, mas só encontrada em 2024, que registra depoimentos contundentes de altos oficiais do Exército de Israel perante tribunais militares israelenses. São relatos cristalinos de massacres, fuzilamentos de civis e demolições de aldeias palestinas em 1948 e 1949. A Nakba narrada, portanto, por seus próprios perpetradores.
Um dos componentes essenciais da ocupação é o encarceramento massivo de palestinos e palestinas. Relatórios elaborados, separadamente, pela Anistia Internacional e pela organização israelense de direitos humanos B’Tselem trazem denúncias contundentes contra o sistema prisional israelense, verdadeiro “inferno na terra”, onde há atualmente cerca de 9 mil prisioneiros palestinos, inclusive 350 crianças e 48 mulheres.
Não há limites para os horrores praticados por Tel Aviv desde que iniciou sua retaliação ao ataque realizado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. A devastação de Gaza, o bombardeio e assassinato de famílias inteiras, o massacre de crianças, a aniquilação seletiva de jornalistas, de médicos, de pessoal de resgate, de trabalhadores humanitários. O bloqueio de ajuda humanitária, a execução de palestinos famintos nas filas de retirada de alimentos, a demolição de bairros e cidades inteiras, a destruição da rede de abastecimento de água potável.

O assassinato sistemático de jornalistas se iniciou em Gaza e se estendeu ao Líbano. Israel assassinou 263 jornalistas palestinos e palestinas em Gaza desde outubro de 2023! Nesse mesmo período, Israel matou deliberadamente 14 jornalistas libaneses e libanesas, além de 30 jornalistas e trabalhadores de mídia no lêmen. São números estarrecedores, sem precedente na história mundial.
Dois jornalistas palestinos morreram sob custódia! Cerca de quarenta jornalistas palestinos estão presos em cárceres israelenses, atualmente, e repórteres estrangeiros estão proibidos de entrar e reportar nos territórios ocupados da Palestina.
Graças aos seus lobbies e à cumplicidade da mídia hegemônica, alinhada aos interesses do imperialismo, Israel enganou muita gente por muito tempo. Mas essa situação está mudando. Milhões de pessoas em todo o mundo passaram a se mobilizar contra o genocídio iniciado em outubro de 2023 em Gaza. Milhões de pessoas se deram conta dos crimes contra a humanidade cometidos por Israel e, corajosamente, saem às ruas das principais cidades do planeta para se solidarizar com o povo palestino, apesar da brutal e covarde repressão policial, como na Alemanha, e da criminalização dos protestos, como na Inglaterra e nos EUA.
É verdade que Israel continua a encaminhar impunemente seu projeto pervertido e expansionista do “Grande Israel”, que inclui até mesmo territórios do sul da Síria. É verdade que EUA e Israel acalentam o sonho trumpiano de transformar Gaza numa “Riviera”, um paraíso imobiliário livre da presença de palestinos. É verdade que a cada dia que passa o heroico povo palestino continua sendo esmagado pela poderosa máquina de guerra israelense.
Mas é verdade também que, apesar de suas demonstrações de força, Israel não controla mais a narrativa. Não consegue mais esconder o fato de que é um estado genocida e liberticida, fascista, contumaz violador do direito internacional, capaz dos piores crimes. Ademais, não conseguiu liquidar nem o Hamas, nem o Hezbollah (e menos ainda o Irã), apesar das fanfarronices de Netanyahu. Caiu a máscara de Israel. Palestina livre, do rio ao mar!


