TUBAS, Cisjordânia — Muad Abdelreziq caminhava lentamente por suas terras na fazenda Al-Forat, serpenteando entre fileiras de bananeiras, verificando cada árvore em busca de sinais de vida. As folhas secas estalavam sob seus pés a cada passo lento e desanimado. Não havia água nessas bananeiras há cinco dias. “Essas bananeiras estão sedentas”, disse ele. “Estão murchando no chão. Tudo na terra vive um dia de cada vez”.
Israel não permitiu que a água chegasse a 400 dunams (aproximadamente 100 acres) da fazenda por cinco dias, disse Abdelreziq a Drop Site, e a pouca infraestrutura que resta está sendo destruída. As forças israelenses têm rompido os canos de irrigação que abastecem os campos. “Não consigo irrigar as ervas, não consigo irrigar os melões”, disse ele. “Não consigo substituir os canos de água. Todas essas famílias ficarão sem nada. Teremos que parar”.
Abdelreziq apertou o volante com mais força enquanto se afastava do bosque em direção ao escritório na propriedade, lançando um olhar para a escavadeira militar israelense a poucos metros de distância, que abria uma vala profunda em seu terreno. Um caminhão militar preto de vigilância, equipado com câmeras, antenas e sensores instalados no teto, patrulhava o local. Ao entrar na sala dos trabalhadores, viu cadeiras vazias alinhadas às paredes, onde os funcionários costumavam fazer suas pausas.
Abdelreziq sentou-se e ficou olhando para uma tela instalada no canto, que exibia uma transmissão ao vivo da construção militar do lado de fora. Os militares israelenses haviam abatido a última câmera que ele havia instalado para filmar o local. Ele a substituiu no dia seguinte.
A fazenda Al-Forat, de 2.000 dunams, fica na vila de Khirbet Atouf, a leste de Tubas, no norte do Vale do Jordão, na Cisjordânia ocupada. A fazenda cultiva bananas, ervas, batatas, cebolas e melões e emprega cerca de 250 famílias, abastecendo mercados em toda a Cisjordânia — terras que agora estão no caminho de um novo muro de separação de 22 quilômetros e uma estrada militar que o exército começou a construir em março. Colonos israelenses também estabeleceram presença nas terras circundantes.
O muro de separação de 22 quilômetros e a estrada fazem parte de um projeto militar israelense muito maior, apelidado de “Fio Carmesim” — uma barreira de 500 quilômetros planejada para percorrer toda a fronteira leste da Cisjordânia ocupada, desde a extremidade sul das Colinas de Golã ocupadas, ao norte, até o Mar Vermelho, ao sul, isolando efetivamente o Vale do Jordão do restante da Palestina, de acordo com um documento militar israelense vazado, assinado em agosto de 2025 e divulgado inicialmente pelo jornal Haaretz em dezembro.
A primeira fase do projeto está localizada na província de Tubas. A distância entre o muro e uma estrada militar adjacente é de 50 metros — uma faixa larga que atravessa algumas das terras agrícolas mais férteis da Palestina. Um porta-voz do exército israelense disse ao +972 que o projeto foi baseado em “uma clara necessidade de segurança, para moldar o terreno e controlar e monitorar o movimento de veículos”.

Rasheed Khudeiri, agricultor e ativista da Campanha de Solidariedade do Vale do Jordão, que passou anos documentando a expansão dos assentamentos na região, apontou a hipocrisia do argumento de Israel, que cita preocupações de segurança para deslocar palestinos, mas permite que colonos israelenses vivam na mesma área. “Como uma zona de tiro militar fechada pode ser perigosa se permitem a presença de colonos vindos da Rússia, dos Estados Unidos ou do Oriente Médio?”, disse Khudeiri a Drop Site. “O dono da terra não tem permissão, mas o colono tem”.
Khudeiri assinala que o projeto irá cortar uma faixa de terra desde Ain Shibley, no vale central, até o posto de controle militar de Tayasir, ao norte, passando pelas comunidades de Hatu, Ras Al-Ahmar, Anun e Khirbet Yarza, colocando cerca de 180.000 dunams (aproximadamente 44.000 acres) fora do alcance dos palestinos.
A província de Tubas abrange 410 quilômetros quadrados, dos quais 70% já estão sob a Área C — uma zona que está sob total controle civil e de segurança israelense, conforme os Acordos de Oslo. Atualmente, existem mais de nove assentamentos na área, sete campos de treinamento militar israelenses e mais de trinta postos avançados de assentamentos que estrangularam e tomaram terras em Tubas, quase chegando aos limites da cidade, de acordo com o prefeito, Mahmoud Daraghmeh. “De acordo com as decisões deles, não existem mais as Áreas A, B ou C”, disse Daraghmeh a Drop Site. “É tudo Área C. É para isso que os israelenses estão trabalhando agora”.
Khudeiri afirma que a perda não se limitará aos moradores que vivem ao longo da barreira, mas terá efeitos em cadeia que atingirão todos os lares palestinos na Cisjordânia. O solo fértil e o clima ameno do Vale do Jordão permitem que os agricultores cultivem vegetais de novembro a março — meses de inverno, quando o restante da Cisjordânia fica mais frio e produz pouco ou nada. Quando fazendas como a de Al-Forat param de produzir, os preços sobem em todos os setores. Um quilo de pepinos ou tomates que custa um shekel para produzir localmente custará cinco ou seis shekels para importar. “Tubas costumava ser chamada de celeiro da Palestina”, disse Daraghmeh. “Hoje, não é mais”.
Em janeiro, mais de 100 moradores de Tubas entraram com uma petição na Suprema Corte de Israel, estimando os danos econômicos diretos causados pela barreira em US$ 200 milhões por ano. Em fevereiro, o tribunal emitiu uma liminar suspendendo a construção. Mas em 3 de março, três dias depois de os EUA e Israel terem declarado guerra ao Irã, os militares solicitaram a revogação da liminar — o tribunal concordou, alegando “necessidades de segurança” não divulgadas. A construção começou no dia seguinte.
Ataques de colonos multiplicaram-se
Em paralelo, os ataques de colonos às comunidades agrícolas e beduínas ao longo da barreira planejada aumentaram consideravelmente. Pelo menos 117 comunidades predominantemente beduínas e pastoris sofreram deslocamento total ou parcial como resultado da violência dos colonos desde 2023, segundo a Anistia Internacional, sendo o norte do Vale do Jordão a região mais afetada.
“A violência dos colonos não é uma aberração, mas parte integrante de uma política estatal organizada”, afirmou a Anistia. As autoridades israelenses forneceram a 68 postos avançados de pastoreio de colonos 28 milhões de shekels em equipamentos: veículos todo-terreno, dispositivos de visão noturna, drones e geradores, de acordo com a organização Paz Agora. “Existe uma relação direta, coordenada e organizada de apoio mútuo”, disse Khudeiri. “Os colonos têm apoio militar direto, apoio financeiro, todo tipo de apoio que desejam. Mesmo quando atacam nossas aldeias, os militares oferecem apoio direto”.
Khalid Daraghmeh tem 60 anos e sua família vive na aldeia de Khirbet Yarza, localizada a leste da cidade de Tubas, desde a época otomana. Cerca de 100 pessoas viviam na pequena comunidade, criando gado e cultivando a terra que conheciam há gerações. Agora, restam apenas alguns. Os colonos começaram a chegar depois de outubro de 2023 e, eventualmente, passaram a realizar ataques com níveis crescentes de violência. Primeiro, invadiram as pastagens e, em seguida, as casas da comunidade, levando seu próprio gado para beber água em poços palestinos e pastar nas plantações palestinas, bloqueando as saídas e impossibilitando que as famílias cultivassem suas próprias terras. As crianças pararam de dormir, disse Khalid, e toda a comunidade paralisava ao ver um trator.
Quando a comunidade de Yarza pediu ajuda, soldados israelenses apareceram, mas não para defendê-los. “Eles os apoiaram. Consideravam toda a área uma zona de treinamento militar. Quando ligávamos porque os colonos estavam nos atacando, o Exército vinha proteger os colonos”, disse Daraghmeh. “[Os colonos] continuaram nos importunando, importunando, importunando, até que nos expulsaram”, continuou. “Eles começaram a roubar o gado, roubar tudo. Eles nos expulsaram e nós fomos embora”.
Daraghmeh e seus antigos vizinhos agora estão espalhados pela cidade de Tubas, a poucos quilômetros de suas casas, gastando dinheiro com gado que não podem mais pastorear e que gera pouco retorno.
Entretanto, comunidades beduínas mais ao norte, no Vale do Jordão, sofreram alguns dos piores ataques. Na aldeia de Humsa, 30 colonos mascarados chegaram à casa de uma família no meio da noite, espancaram todos os membros da família, agrediram sexualmente o pai e roubaram mais de 300 ovelhas, segundo a Rede de Notícias da Palestina. Dois voluntários do Movimento Internacional de Solidariedade (ISM) também foram espancados e tiveram seus passaportes e telefones roubados.
Um voluntário do ISM, que pediu para não ser identificado por medo de represálias das autoridades israelenses, passou meses fazendo plantões noturnos com famílias em todo o vale. As comunidades palestinas solicitam os voluntários, segundo ele, apenas para poderem dormir com alguma sensação de proteção. “Chamamos isso de presença solidária, e não presença protetora”, disse o voluntário a Drop Site, “porque estar com as famílias não muda muita coisa na situação. Servimos apenas como testemunhas da violência dos colonos ou das interações com os militares e a polícia”.
Durante uma incursão militar presenciada pelo voluntário, soldados realizaram revistas corporais violentas nos homens de uma família, enquanto uma mulher desmaiava no chão, sem conseguir respirar. Cada vez que alguém se movia para ajudá-la, uma arma era apontada para essa pessoa e a mandavam ficar em silêncio. “Nossa presença aqui realmente faz tão pouco”, disse o voluntário. “Quando chegam 30 colonos e você é só mais uma pessoa, não há muito o que se possa fazer”.
Redesenhando a Cisjordânia
Em 2025, as forças armadas israelenses lançaram um ataque massivo contra os campos de refugiados de Jenin, Tulkarm e Nur Shams, no norte da Cisjordânia. Mais de 30.000 palestinos foram deslocados pela operação militar e não puderam retornar às suas casas. Agora, o foco se voltou para o corredor oriental. Quando concluído, o projeto “Fio Carmesim” isolará completamente o lado oriental da Cisjordânia.
“A estratégia israelense é dividir as cidades no norte da Cisjordânia”, disse Khudeiri. “Tubas foi separada de Jenin. Nablus foi dividida entre Tubas, Nablus e Jenin. O mesmo aconteceu com Tulkarm e Qalqilya. É assim que eles criam o que chamam de ‘contêineres’”. Ele prosseguiu: “Tubas, Nablus, Ramallah, Belém, Silfit — todas essas cidades se tornarão enormes campos de refugiados, sem nenhum serviço, sem nenhum direito”.
Khudeiri percorreu as aldeias do vale, terminando o dia na pequena aldeia de Bardala, onde mora. Ele estava explicando a flora nativa da região quando parou o carro abruptamente. Havia um pássaro morto na estrada. Ele o moveu para o acostamento, ficou parado ali por um instante e depois voltou para o carro, dirigindo lentamente para longe.

“Nós pertencemos a esta terra”, disse Khudeiri , explicando que começou a guardar para si parte do seu conhecimento sobre a região — não o anotando nem o compartilhando publicamente, porque, segundo ele, tudo o que os palestinos nomeiam e descrevem pode ser apropriado.
“Eles estão tentando roubar tudo — o nome das nossas plantas, a canção que usamos quando nosso povo colhe o trigo. Temos muitas coisas que não compartilhamos mais porque eles continuam roubando cada vez mais”.
*Reportagem publicada na edição de 8 de julho de Drop Site News (acesse aqui a publicação original em inglês).


