Israel atacou com bombas incendiárias uma casa onde crianças dormiam; enquanto mundo se concentra na guerra EUA-Irã, Exército israelense assassina 57 palestinos em Gaza em apenas uma semana

Abdel Qader Sabbah (Drop Site News)*

CIDADE DE GAZA — Os restos carbonizados da casa da família Al-Masri, no bairro de Sabra, na Cidade de Gaza, ainda fumegavam na tarde de terça-feira, horas depois de o Exército israelense a ter bombardeado, matando Firas e Salsabeel al-Masri e seus quatro filhos — Faryal, Salma, Amira e Naim — enquanto dormiam.

O ataque aéreo ocorreu sem aviso prévio no meio da noite, destruindo o andar superior da simples estrutura de dois andares e incendiando-a. “Estávamos dormindo no meio da noite, por volta das 2h da manhã, quando ouvimos uma enorme explosão”, disse Abu Youssef Al-Masri, avô das crianças, a Drop Site enquanto estava em frente à casa parcialmente desabada. “Percebemos que a casa havia sido atingida. A casa desabou e pegou fogo”.

O fogo não poupou nada no interior: os pertences da família, reduzidos a cinzas, jaziam entre os blocos de concreto quebrados, e as paredes que restaram estavam enegrecidas pela fuligem.

“A casa queimou completamente. Era a casa do meu irmão — ele, a esposa e os quatro filhos. Queimou até virar cinzas. Toda a família do meu irmão foi dizimada”, disse Mohammed Al-Masri, irmão de Firas. “Eles queimaram diante dos nossos olhos e não pudemos fazer nada”. Ele falou em pé no cemitério onde a família de seis pessoas foi enterrada na tarde de terça-feira.

Os corpos envoltos em mortalhas brancas foram carregados por parentes através do cemitério repleto de escombros para serem sepultados. Abu Youssef ficou no meio das covas rasas e colocou o pequeno corpo de sua neta, Amira, ao lado do de sua mãe, enquanto drones israelenses zumbiam incessantemente sobre o local. “O mundo inteiro está nos observando”, disse Mohammed. “Não há cessar-fogo em vigor, a guerra não parou e ninguém se importa conosco”.

O ataque de terça-feira ocorreu em meio a uma ofensiva israelense particularmente brutal e intensificada em Gaza nos últimos dias, enquanto a atenção mundial estava voltada para a retomada da guerra entre EUA e Irã. Ataques aéreos diários, bombardeios, ataques com drones e tiroteios atingiram prédios residenciais, acampamentos de tendas, veículos civis, um cortejo fúnebre, uma delegacia de polícia e um hospital transformado em abrigo, matando dezenas de palestinos em todo o enclave somente na última semana.

Ao mesmo tempo, as tropas terrestres israelenses têm avançado cada vez mais em Gaza, estendendo constantemente a “linha amarela” para oeste, tomando mais território e empurrando a população palestina para uma área cada vez menor.

“Não se trata apenas de a retomada da guerra no Irã servir de pretexto, mas também do fato de que a guerra tem sido, em grande parte, um fracasso da perspectiva israelense, e o Estado de Israel buscará compensar esse fracasso em outros lugares antes que um novo equilíbrio regional se estabeleça”, disse Nasser Abourahme, professor de Estudos do Oriente Médio e Norte da África no Bowdoin College, a Drop Site.

“É fundamental lembrar que o genocídio em si estagnou, mas nunca cessou. Apesar de toda a destruição e morte horríveis e sem precedentes, Israel ainda não alcançou nenhum de seus objetivos principais: a limpeza étnica da Faixa de Gaza, o desarmamento das facções da resistência ou o reassentamento da Faixa”.

A mais recente onda de violência elevou o número de mortos palestinos em Gaza desde o chamado cessar-fogo, em outubro de 2025, para 1.180 — incluindo mais de 250 crianças —, com 127 mortes registradas nas três primeiras semanas de julho. Mais de 3.800 pessoas ficaram feridas. O número total de mortos desde que Israel iniciou seu ataque genocida, em outubro de 2023, ultrapassa 73.300, com quase 174.000 feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

Na segunda-feira, um ataque aéreo israelense atingiu o prédio do Hospital Al-Yemen Al-Saeed, no campo de refugiados de Jabaliya, matando pelo menos quatro pessoas e ferindo várias outras. Como muitos hospitais em Gaza, a unidade parou completamente de funcionar durante a guerra e está sendo usada principalmente como abrigo para palestinos deslocados.

“Saí para visitar um amigo perto de Al-Yemen Al-Saeed e, de repente, houve uma explosão muito grande, duas explosões consecutivas”, disse Youssef Akasha, uma testemunha ocular que estava a poucos metros do ataque, enquanto estava em frente ao Hospital Shifa, na Cidade de Gaza, para onde os mortos e feridos estavam sendo levados. Crianças ensanguentadas eram retiradas das ambulâncias, enquanto corpos envoltos em cobertores eram colocados em macas.

“As crianças estavam se divertindo, jogando futebol, e de repente começaram a gritar. Fomos direto para Al-Yemen Al-Saeed… encontramos o local destruído e crianças caídas no chão, mulheres gritando e homens correndo para resgatar os feridos”.

Um dos piores ataques ocorreu na sexta-feira, quando Israel bombardeou um cortejo fúnebre em frente à Mesquita Ahmed Yassin, no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, matando pelo menos oito pessoas que se reuniam para enterrar um homem morto poucas horas antes. Corpos jaziam espalhados pelo chão ensanguentado. Um homem foi partido ao meio pela explosão, com as pernas arrancadas, enquanto multidões de pessoas gritando nas ruas tentavam socorrer os feridos.

No hospital Al-Awda, crianças feridas permaneciam em silêncio, com os olhos arregalados, em leitos hospitalares, enquanto médicos se apressavam para tratá-las. Um homem ajoelhou-se e abraçou um cadáver ensanguentado deitado em uma maca, incapaz de soltá-lo.

“Foi um ataque de grandes proporções e houve um grande número de mártires”, disse Medhat Saleh, uma testemunha ocular que foi ferido no braço direito, a Drop Site. “Não imaginávamos que bombardeariam um funeral desse tamanho. Muitas crianças, mulheres e homens… Um massacre em todos os sentidos da palavra. As pessoas foram amontoadas umas sobre as outras, dilaceradas”. Ele continuou: “A situação piorou muito. Nos últimos dias, isso se tornou algo cotidiano”.

Thameen Al-Kheetan, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, destacou a escalada dos ataques israelenses em declaração na terça-feira. “O Exército israelense intensificou seus ataques em Gaza nos últimos dias, matando e ferindo dezenas de palestinos — crianças, mulheres e homens… Nove meses após o anúncio de um cessar-fogo, ainda não há lugar seguro para os palestinos em Gaza”, disse Kheetan, observando que a ONU documentou 57 palestinos mortos somente entre 13 e 20 de julho.

“Enquanto isso, a população palestina em Gaza permanece presa em uma área cada vez menor, com a ‘linha amarela’ sendo constantemente movida para oeste pela potência ocupante israelense, representando uma ameaça contínua à vida, já que o Exército israelense parece atirar rotineiramente em palestinos por sua mera presença nas proximidades dessa linha… As violações, o sofrimento e a miséria que continuam sendo impostos aos palestinos em Gaza não podem ser ignorados”.

Como parte do acordo de outubro de 2025, as tropas israelenses se retiraram para a “linha amarela”, uma fronteira aproximadamente paralela à costa que isola grandes faixas do norte e do sul de Gaza, dando a Israel o controle de 53% do enclave. A medida deveria marcar o início de uma retirada gradual para uma “zona tampão” na fronteira com Israel. No entanto, nos últimos nove meses, o Exército israelense avançou progressivamente para oeste em áreas ao longo da linha amarela, tomando mais terras palestinas e colocando blocos de concreto amarelos em alguns locais para indicar sua nova linha de controle, que agora, segundo autoridades militares israelenses, abrange cerca de 70% de Gaza.

“A escalada dos assassinatos, a expansão da chamada linha amarela com novas apropriações de terras e a agitação de políticos e do movimento de colonos pela retomada dos assentamentos judaicos em Gaza apontam para o fato de que o objetivo final de Israel continua sendo a limpeza étnica de Gaza e sua conquista completa, de uma forma ou de outra”, disse Abourahme. “No fim das contas, o chamado cessar-fogo não impediu o genocídio, apenas modulou seu ritmo e intensidade”.

Nos últimos dias, as tropas terrestres israelenses lançaram um ataque contínuo contra áreas próximas ao bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza, incluindo bombardeios aéreos, tiroteios e ataques com artilharia, arrasando terrenos com tratores e emitindo ordens de deslocamento para forçar os moradores a fugir de suas casas e abrigos, deslocando-os para o leste.

“Hoje, eles moveram a linha amarela para cá. Anteontem, bombardearam a área, então fomos embora. Passamos mais uma noite em casa e depois tivemos que partir”, disse Umm Salem Dawla, uma moradora deslocada da região, a Drop Site. “Juntamos nossos pertences e os deixamos no acampamento. Continuo dizendo que vou me sentar perto do cemitério. O que posso dizer? Que tipo de vida é essa?”.

Na quarta-feira, as tropas recuaram e os moradores da área encontraram blocos de concreto amarelos colocados no cruzamento de Dawlah, na rua Salah al-Din — a principal via norte-sul que percorre toda a extensão do enclave.

“Os israelenses começaram a bombardear a área, os tanques começaram a atirar em nós e em nossa casa, então fugimos porque a situação era extremamente difícil… os tanques estão sempre visíveis na rua, atirando em nossas casas, e os drones estão constantemente sobrevoando. Eles não nos deixam em paz. Há bombardeios e tiroteios 24 horas por dia”, disse Assem Dawla, outro morador deslocado de Zeitoun. “Como vocês podem ver, estamos retirando nossos pertences e indo embora porque a ocupação avançou a linha amarela até a rua Salah al-Din. Não há mais nenhuma possibilidade de vida aqui. A vida em Zeitoun foi dizimada. Não há mais esperança e não há mais como viver aqui”.

A aproximação militar israelense ao cruzamento de Dawlah impede, na prática, que os palestinos dessa área da Cidade de Gaza acessem a estrada Salah al-Din e o restante do enclave mais ao sul. “Meu medo é que toda Gaza acabe dentro das novas fronteiras da ocupação. Netanyahu agora fala em tomar de 67% a 70% da Faixa de Gaza, mas acredito que ele queira controlar tudo. Não sobrará lugar para nós. Viveremos todos sob o controle e domínio do Exército israelense”, disse Dawla. “A guerra não acabou. Ainda vivemos em um estado de medo, ainda maior do que quando a guerra estava em curso”.

*Matéria publicada na edição de 22 de julho de Drop Site News. Também contribuíram Mohamed Ahmed, Sharif Abdel Kouddous e Jawa Ahmad (confira aqui o texto original em inglês).

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