Por que isso não está estampado nas primeiras páginas dos jornais?
Por que isso não é manchete nos noticiários de televisão? Por que os políticos ocidentais não estão emitindo declarações condenando essa maldade depravada?
A resposta é brutalmente simples.
Porque não estamos falando de um ativista sem poder nem influência, que denuncia o genocídio de Israel com palavras consideradas inflamatórias ou extremistas.
Não: isso é um compromisso genocida de um importante político israelense que está, na verdade, supervisionando um genocídio.
Israel Katz é o ministro da Defesa de Benjamin Netanyahu. Em uma publicação comemorando a morte do comandante militar do Hamas, ele concluiu com estas palavras:
Nos comprometemos a eliminar todos os responsáveis pelo massacre de 7 de outubro, e assim será: todos estão condenados à morte, onde quer que estejam.
Nos comprometemos a que o Hamas não governasse Gaza nem civilmente nem militarmente, e assim será, e o plano de emigração voluntária de Gaza também será implementado — tudo no momento certo e da maneira certa.
Vamos deixar claro o que isso significa.
“Emigração voluntária” é um eufemismo óbvio. A política oficial de Israel é a remoção da população palestina remanescente de suas casas em Gaza. E a própria formulação de Katz deixa isso claro: matar os envolvidos em 7 de outubro; remover o Hamas do poder; remover a população de Gaza. Um pacote. Um projeto. Todos são objetivos militares – incluindo transformar Gaza em uma terra sem palestinos.
Isso é inerentemente um compromisso genocida. De fato, Israel tornou deliberadamente as condições de vida em Gaza insuportáveis. Israel destruiu casas, hospitais, escolas, bibliotecas, universidades, locais de trabalho, mesquitas, igrejas e edifícios cívicos: o tecido social, a arquitetura básica de uma civilização.
Destruiu a agricultura, a pecuária e o abastecimento de água potável. Privou Gaza dos recursos essenciais à vida. Obrigou os palestinos a viverem sob o terror constante de massacres, deslocamentos, doenças e fome.
Nessas circunstâncias, não existe “emigração voluntária”. Se você reduz um lugar a ruínas apocalípticas e depois diz que seus habitantes são livres para partir, isso não é consentimento. Isso é coerção violenta.
No ano passado, o Estado israelense chegou a criar o que chamou de escritório para “migração voluntária”, ao mesmo tempo em que, segundo relatos, flexibilizou as restrições de viagem para palestinos que concordassem em fazer uma viagem só de ida para fora de Gaza.
A intenção é óbvia: remover a população de Gaza lentamente, em etapas, sob o manto da indiferença e da cumplicidade ativa do Ocidente. Não com um anúncio dramático que possa provocar manchetes e indignação, mas por meio de linguagem burocrática, terror militar e a suposição de que a maioria dos meios de comunicação ocidentais simplesmente fará vista grossa.
A linguagem do genocídio
Assim como a maioria dos políticos israelenses, Katz tem um histórico de declarações genocidas. Em outubro de 2023, ele publicou:
Ajuda humanitária para Gaza? Nenhum interruptor de energia será acionado, nenhuma bomba d’água será ligada e nenhum caminhão-tanque de combustível entrará até que os sequestrados israelenses sejam devolvidos para casa.
Em março de 2025, ele disse aos cidadãos de Gaza que este era o seu “último aviso”, ameaçando-os com “destruição e devastação totais”.
Katz e seus pares não são figuras marginais. São as pessoas que comandam Israel e suas forças armadas. Elas não se preocupam em disfarçar suas intenções, porque sabem que o Ocidente lhes garante impunidade. No entanto, essas declarações recebem pouca ou nenhuma cobertura consistente na mídia ocidental. Em vez disso, vemos inúmeras denúncias da linguagem supostamente inflamatória daqueles que se opõem ao genocídio. A indignação não é dirigida às pessoas que matam, bombardeiam e deslocam palestinos, mas sim àqueles que se opõem a isso.
Por quê? Porque dar a essas declarações a cobertura que merecem forçaria uma admissão. Significaria ter que explicitar quais são as reais intenções de Israel. E isso exporia o papel que a mídia ocidental desempenhou: não como testemunha neutra, mas como facilitadora dos crimes de Israel.
A “migração voluntária” sempre foi o plano
Isso não começou com a última publicação de Katz.
Em dezembro de 2023, a mídia israelense noticiou que Netanyahu havia declarado em uma reunião do partido Likud que estava comprometido com a chamada migração voluntária de Gaza:
“O nosso problema são os países que estão preparados para os absorver e estamos trabalhando nisso”.
Ele teria dito isso. E acrescentou: “O mundo já está discutindo as possibilidades da imigração voluntária”. E afirmou que era necessário criar uma equipe para garantir que aqueles que desejassem deixar Gaza rumo a um terceiro país pudessem fazê-lo. Ele classificou a medida como de “importância estratégica” para o período pós-guerra.
Reportei sobre isso na época. A maior parte da mídia ocidental ignorou.
Em seguida, veio Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Israel. Em novembro de 2024, ele declarou:
“É possível criar uma situação em que a população de Gaza seja reduzida à metade do seu tamanho atual em dois anos”.
Ele foi além:
“Podemos ocupar Gaza e reduzir a população pela metade em dois anos” (por meio de uma estratégia de incentivo à “emigração voluntária”).
“Reduzir” a população. Essa é a linguagem dos monstros genocidas. O deslocamento forçado — ou limpeza étnica, como é comumente chamado — é um crime de guerra. Essa prática também tem intenção genocida, pois busca apagar a existência de um povo de sua terra. Nesse caso, o povo palestino de Gaza.
Não sabemos quantos palestinos ainda permanecem em Gaza. Não sabemos exatamente quantos foram mortos diretamente por bombas e balas, ou indiretamente por doenças, fome, destruição de serviços médicos e colapso da vida básica. Estudos acadêmicos confiáveis sugerem que o número real de vítimas é muito maior do que os números oficiais – bem mais de 100 mil pessoas. Não sabemos quantos já foram forçados a sair.
Mas nós sabemos qual é a intenção, porque os líderes de Israel continuam a afirmá-la.
Dentro da própria Faixa de Gaza, a área diretamente controlada por Israel continua a expandir-se. O chamado acordo de “cessar-fogo” permitiu-lhes controlar 53% da região, mas apenas como uma linha de retirada temporária da primeira fase. Em vez disso, expandiram esse controle, violando o suposto acordo. Em um evento, Netanyahu se vangloria de que Israel conquistou 60%. Quando ele começa dizendo “minha diretriz é avançar para”, a plateia grita “100! 100!”.
Netanyahu responde: “Espere, vamos por partes. Primeiro os 70%. Vamos começar por aí.”
A fantasia distópica de Trump
Pouco depois de Donald Trump se tornar presidente pela segunda vez, ele se comprometeu a remover a população palestina de Gaza e transformá-la em um resort de luxo distópico, enriquecendo a si mesmo e a seus associados.
Ele parou de falar sobre o assunto após a reação negativa dos estados árabes do Golfo, cujos governantes temiam a fúria que tal plano provocaria em seus próprios povos. Trump, por sua vez, temia que essa reação negativa pudesse prejudicar seus negócios com esses estados.
Mas o fato de ele ter parado de dizer isso em voz alta não significa que a política tenha acabado.
Os massacres continuam
Entretanto, os massacres continuam, independentemente de os meios de comunicação optarem ou não por noticiá-los.
Um ataque israelense a um prédio residencial em Gaza matou dez palestinos, incluindo cinco crianças. Seus nomes eram: Israa Emad Salim, 17.
Sidra Iyad Azzam, 12.
Sarah Sameh Rajab, 9.
Nour Ahmad Abu Halima, 12.
Yamen Ahmad Abu Halima, 13.
Crianças com esperanças, piadas, medos, sonhos, comidas e canções favoritas. Crianças que suportaram o que nenhuma criança deveria ser forçada a suportar. Cada vida um universo, como a Torá nos ensina corretamente.
As imagens mostram corpos de crianças reduzidos a pedaços carbonizados. Um homem adulto segura o que restou de uma menina, dilacerada e queimada a ponto de ser irreconhecível. Uma das crianças foi decapitada.
Lembre-se da enorme indignação causada pela decapitação fictícia de bebês israelenses em 7 de outubro. Compare isso com o silêncio que se segue à decapitação real de crianças palestinas por armas israelenses.
Esta era a família de Ahmad Abu Halima, diretor de Assuntos Estudantis da Universidade de Gaza. A vítima mais velha foi Ihsan Matar Balbul, de 81 anos, que presumo ser o avô.
Imagine sobreviver a 964 dias de genocídio: os bombardeios, a fome, o deslocamento, o terror, o sofrimento somado ao terror. Imagine sobreviver a tudo isso, apenas para ser explodido e queimado vivo no Eid.
O genocídio nunca terminou — e é nossa responsabilidade continuar a denunciá-lo.
*Publicado em inglês na edição de 28 de maio de Owen Jones Battlelines (confira aqui).


