Troféu Audálio Dantas 2026 homenageia equipe do Brasil: Nunca Mais e reafirma compromisso do jornalismo com a democracia

Juliana Almeida

Mais uma vez, o auditório Vladimir Herzog esteve lotado para a edição de 2026 do Troféu Audálio Dantas – Indignação, Coragem, Esperança que foi realizada na noite desta segunda-feira, 8 de junho. A homenagem deste ano reconheceu a equipe responsável pela investigação dos arquivos da Justiça Militar que deu origem ao livro-reportagem Brasil: Nunca Mais, obra que denúncia a prática sistemática de tortura durante a ditadura militar (1964-1985) brasileira.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) foi representado por José Eduardo de Souza, secretário-geral da entidade. O dirigente saudou os presentes e iniciou os trabalhos relembrando os jornalistas mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, e enalteceu a coragem dos presentes na construção de um dos mais importantes documentos contra as arbitrariedades do regime militar brasileiro.

A solenidade foi conduzida pela jornalista Vanira Kunc Dantas, companheira de Audálio Dantas, e pelo diretor da OBORÉ, Sérgio Gomes, que ressaltaram a importância de preservar a memória e de valorizar quem ajudou a revelar ao país os crimes praticados pelo regime militar.

O trabalho, desenvolvido entre 1979 e 1985, reuniu jornalistas, religiosos, advogados e militantes de direitos humanos numa operação sigilosa que copiou e analisou processos da Justiça Militar para documentar as violações cometidas pelo regime. O acervo completo do projeto está disponível ao público na plataforma Brasil: Nunca Mais Digital.

Os troféus foram entregues aos jornalistas e integrantes da equipe do projeto — Dom Paulo Evaristo Arns (in memoriam), recebido pelo advogado e ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, Frei Betto, Paulo Vannuchi e Ricardo Kotscho —, além dos outros 30 jornalistas e colaboradores da publicação. Também foi homenageado o jornalista Camilo Vannuchi, autor do livro-reportagem e do podcast Nunca Mais, que revelou os bastidores da operação e recuperou a trajetória dos profissionais que atuaram na iniciativa.

Reafirmação do compromisso com a democracia

Na cerimônia, os homenageados destacaram a importância histórica do projeto Brasil: Nunca Mais e reforçaram a necessidade de manter viva a defesa da democracia, da memória e dos direitos humanos.

Ao receber a homenagem, Paulo Vannuchi foi direto: o trabalho iniciado há quatro décadas ainda não está concluído. Para ele, o legado da iniciativa está atado aos desafios do presente. “Nós temos 15 semanas para não deixar o fascismo retornar ao Brasil pelo voto, para que não volte em hipótese alguma nenhum tipo de tortura”, declarou. Vannuchi defendeu ainda a continuidade das ações de memória e justiça e a transmissão desse legado às novas gerações.

Um dos idealizadores do projeto, Luís Eduardo Greenhalgh definiu o Brasil: Nunca Mais como iniciativa pioneira na busca pela verdade histórica. “Eu acho que o Brasil Nunca Mais foi a primeira Comissão Nacional da Verdade, e foi feita durante a ditadura militar”, afirmou. Ao recordar a origem da iniciativa, lembrou a urgência que a motivou: “Nós precisamos fazer alguma coisa. Vai vir a anistia, vai vir a democracia, e os processos das auditorias vão ser incinerados.” E concluiu com a dimensão coletiva da façanha: “Nós provamos que era possível fazer uma organização de 20, 30 pessoas durante seis anos na maior clandestinidade, nas barbas da ditadura militar, sem sermos detectados.”

Representando seu avô e a nova geração de jornalistas, Laura Kotscho reafirmou o compromisso com a profissão. “É muito importante que a gente continue firme na nossa profissão e continue denunciando tudo o que tem acontecido”, disse. Ela reconheceu, com preocupação, o risco real do retrocesso: “É muito triste ver que, depois de tudo o que vocês fizeram para que a gente pudesse sair desses tempos sombrios, a gente corre risco de voltar a qualquer momento.”

José Carlos Dias recebeu o troféu em nome de Dom Evaristo Arns e não deixou dúvida sobre o caráter do encontro: “Nós estamos aqui não para viver uma noite de alegria, mas uma noite de resistência.” Ao rememorar o assassinato de Vladimir Herzog, contou que recebeu a notícia diretamente de Audálio Dantas. “Quando o Audálio me telefonou para contar que o Vlado tinha sido morto, aquilo arrebentou meu coração. A notícia da morte do Vlado aumentou o meu compromisso como advogado de presos políticos de dizer: basta, isso não pode continuar.”

O autor do livro e do podcast Nunca Mais, Camilo Vannuchi, também foi homenageado e falou sobre a emoção de reunir parte da equipe. Segundo ele, muitos participantes estão se reencontrando — ou se conhecendo — apenas agora, porque o trabalho era altamente compartimentado. Para o jornalista, o papel da imprensa segue fundamental: “Nós jornalistas, trabalhemos com livros, podcasts, rádio, TV, internet ou jornal, temos a função e o compromisso de vencer o dragão da maldade, o dragão da violência de Estado, o dragão do autoritarismo e o dragão da ditadura. Nunca mais.”

Histórico da premiação

A primeira edição ocorreu em plena pandemia, em 2020, quando foi homenageada a jornalista Patrícia Campos Mello. Em 2021, o Troféu foi entregue a Jamil Chade, Luis Nassif e Mara Régia Di Perna. Em 2022, os homenageados foram Julian Assange, Eliane Brum e os jornalistas do Consórcio de Veículos de Imprensa que cobriram a pandemia. Em 2023, foram contemplados Juliana Dal Piva, René Silva, Bruno Paes Manso, Gregório Duvivier, Leonardo Sakamoto e Valmir Salaro, com a estatueta do São Jorge e o Dragão. Em 2024, o homenageado foi o jornalista e escritor Ricardo Kotscho. Em 2025, a honraria foi para Caco Barcellos, Mino Carta e a equipe do Profissão Repórter.

Audálio Dantas, o patrono

Conhecido por revelar ao país a escritora Carolina Maria de Jesus e sua obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Audálio Dantas teve papel fundamental na defesa da democracia e da liberdade de imprensa. Em 1975, quando presidia o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, ajudou a organizar o histórico ato ecumênico realizado na Catedral da Sé em memória de Vladimir Herzog, assassinado sob tortura por agentes da ditadura militar. Ao longo de sua trajetória, atuou em importantes veículos de comunicação, construindo uma reconhecida carreira como repórter e escritor.

A premiação, que também celebra o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, 7 de junho, conta com um conselho curador formado pela Família Audálio Dantas, União Brasileira de Escritores, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Associação Brasileira de Imprensa, Centro de Estudos da Mídia Alternativa “Barão de Itararé”, Agência Sindical, OBORÉ, Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo / Presidenta Luna Zarattini, Mandato Vereador Eliseu Gabriel, Instituto Premier, Grupos de Oração São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, Sindicato dos Professores de São Paulo, Instituto Vladimir Herzog, Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo, Fotos Públicas, Coro Luther King, Projeto Repórter do Futuro, Instituto Equipe Educação, Cultura e Cidadania, Centro Acadêmico Vladimir Herzog – Fundação Cásper Líbero, Coletivo “Café Sem Pauta”, CÉU – Museu de Arte a Céu Aberto, Ponto de Cultura “Associação Amigos da Praça Memorial Vladimir Herzog”. Entidades associadas: Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, Associação dos Cartunistas do Brasil, Associação dos Correspondentes Estrangeiros, Associação Profissão Jornalista, AQC – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo, Centro Acadêmico “Benevides Paixão” da PUC-SP, Colibri & Associados Comunicações, Federação Nacional dos Jornalistas, Federação dos Professores do Estado de São Paulo, Jornalistas & Cia, Instituto Elifas Andreato, IMAG – Instituto Memorial de Artes Gráficas do Brasil, Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais, Observatório da Imprensa, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Alagoas, Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo.

Veja como foi:

Assista a premiação na íntegra:

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