Nós, jornalistas, fomos forjados na crença de que a palavra é uma ferramenta de transformação. Mas poucos de nós levaram essa máxima tão a sério, e sob condições tão adversas, quanto o nosso querido companheiro Raimundo Rodrigues Pereira (1940-2026).
Raimundo brilhou na imprensa mainstream, onde foi autor ou editor de inesquecíveis reportagens na primeira fase de Veja e em Realidade. Mas talvez tenha sido na chamada “imprensa alternativa”, atuando como diretor de redação de semanários como Opinião e Movimento, que ele deixou sua marca mais forte e indelével ao rebater e desmascarar as mentiras da Ditadura Militar (1964-1985).
Sua partida, no último dia 2 de maio, aos 85 anos, deixou o jornalismo brasileiro sem um de seus gigantes — e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) perdeu uma grande referência histórica de dignidade e combatividade no exercício de nossa profissão.
A trajetória de Raimundo atravessou seis décadas de nossa história. Ela foi, do início ao fim, marcada por uma permanente tensão com o poder e pela recusa absoluta em se enquadrar nos trilhos conformistas da chamada grande mídia. Não por acaso, sua biografia traz no título a sua essência: ContraCorrente.
Nascido em Exu (PE) e criado no interior paulista, Raimundo era o “Lourinho” que brilhava em matemática e narrava jogos de futebol no alto-falante de Pacaembu. Aos 19 anos, ingressou no prestigiado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), sediado em São José dos Campos, onde sua mente brilhante logo se voltou também para a contestação política e o teatro de rua.
O golpe militar de 1964 mudou seu destino drasticamente. Arrancado da sala de aula, detido pela Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) e mantido preso por dois meses na Base Aérea do Guarujá, da Aeronáutica, após ser libertado Raimundo foi expulso do ITA quando se encontrava no quinto ano de curso. A engenharia perdia um aluno, mas o jornalismo e a história ganhavam um militante incansável.
Graduou-se em Física na Universidade de São Paulo (USP) e, em 1968, levou seu rigor científico para as redações, destacando-se na cobertura da corrida espacial na revista Veja e comandando a histórica edição especial “Amazônia”, da revista Realidade, que lhe rendeu o Prêmio Esso em 1971.
A invenção do Jornalismo Sem Patrão
Raimundo percebeu cedo que a “grande imprensa” havia se aliado à Ditadura, contra a povo violado, e se fixara nos grandes interesses econômicos. Fiel ao princípio de que o jornalismo deve servir à sociedade e, fundamentalmente, à classe trabalhadora, ele decidiu criar seus próprios instrumentos de trabalho. Sua assinatura está na espinha dorsal de importantes publicações da nossa imprensa alternativa:
- Opinião (1972) – Semanário que uniu intelectuais e grandes repórteres, vendendo quase 40 mil exemplares e desafiando a censura prévia militar.
- Movimento (1975) – O autêntico “jornal dos jornalistas”. Financiado por cotas, sem patrão, e apoiado por uma rede que ia de Chico Mendes a Luiz Inácio Lula da Silva. Nas páginas do Movimento, Raimundo cobriu as históricas greves do ABC de dentro das fábricas, bem como as crises internas do regime militar.
- Retratos do Brasil e Reportagem – Projetos de fôlego que mantiveram viva a chama do jornalismo independente mesmo após a (mal chamada) redemocratização.
Raimundo foi um chefe rigoroso e teimoso, qualidades que, vistas de perto, traduziam sua obstinação inabalável para manter jornais circulando enquanto as bancas eram incendiadas pelo terrorismo dos militares. Ele nos ensinou a “buscar a verdade nos fatos”, sem medo e sem omissões, e enfrentar as disputas em sua essência. Como ele mesmo alertou ao receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog em 2013: “A ditadura que vivemos de 1964 a 1985 era simples de ver. A ditadura sob a qual nós vivemos hoje, na imprensa, que é a ditadura do grande capital, é difícil de ver”.
A história de Raimundo Pereira se confunde com a história da luta pela liberdade de expressão e pelos direitos sociais e trabalhistas no país. Por isso, o SJSP, em conjunto com a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), convoca todos os companheiros, companheiras, amigos e admiradores desse mestre do nosso ofício, para que lhe prestemos uma justa, devida e necessária homenagem.
Convidamos todas e todos a estarem presentes no nosso auditório — que carrega o nome de outro gigante do jornalismo e vítima da Ditadura Militar, Vladimir Herzog — para celebrarmos a vida, o rigor e a coragem de Raimundo.
Ato de Homenagem a Raimundo Pereira
Data: 11 de junho (quinta-feira)
Horário: 19h
Local: Auditório Vladimir Herzog (Sede do SJSP)
Endereço: Rua Rego Freitas, 530, Sobreloja
(Vila Buarque – São Paulo-SP)
Venha compartilhar memórias, abraçar a família e reafirmar o compromisso com o jornalismo independente que Raimundo defendeu até o seu último suspiro.
Raimundo Pereira, presente!



