Em 11 dias de represália, Exército de Israel deslocou à força milhares de pessoas em Hebron, e causou danos à economia palestina

Redação - SJSP

HEBRON, Cisjordânia ocupada — Baher Sultan retornou para sua casa no bairro de Khallet al-Maghariba, em Hebron, na segunda-feira, nove dias depois de soldados israelenses chegarem à sua porta e ordenarem que sua família deixasse o local. Sultan, sua esposa e seus quatro filhos estavam entre as milhares de famílias deslocadas à força durante uma grande operação militar israelense na cidade.

A casa para a qual retornaram havia sido saqueada. Sultan disse que soldados ocuparam a residência por vários dias, revirando armários, quebrando janelas e fechaduras, e danificando móveis e outros pertences da casa.

Apesar dos danos e da perturbação em suas vidas, Sultan, de 47 anos, disse que sua família estava radiante por simplesmente estar de volta ao seu bairro. “Voltamos no mesmo dia em que o Exército se retirou. Eu não via a hora de voltar”, disse ele a Drop Site News.

A investida de 11 dias do Exército israelense em Hebron ocorreu após uma ação realizada em 23 de outubro por dois homens armados palestinos, que atacaram um posto de controle militar na cidade, matando dois soldados israelenses, e depois foram mortos a tiros. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, visitou a cidade logo em seguida e anunciou uma grande operação militar.

“As Forças de Defesa de Israel entrarão nos bairros de onde os terroristas surgiram, evacuarão os moradores, farão buscas casa por casa e desmantelarão a infraestrutura terrorista. Estamos preparados para uma ampla operação na Judeia e Samaria”, declarou Netanyahu, usando o nome que Israel dá à Cisjordânia.

Sultan disse que o pesadelo começou em 24 de outubro, quando soldados israelenses invadiram seu bairro e começaram a bater nas portas dos moradores. “Estávamos com medo desde o momento em que o governo de ocupação fez o anúncio. Estávamos observando o que acontecia e, quando o Exército se espalhou pelo bairro e os alto-falantes começaram a soar, ficamos assustados e confusos”, disse ele.

“Os soldados saíram dos veículos e começaram a bater nas portas. Quando abri a porta, perguntaram quem morava ali e pegaram meu documento de identidade. Eu disse quem era e, então, me informaram que eu tinha que sair de casa e levar apenas alguns pertences essenciais. Alguns deles gritavam [em hebraico] e não conseguíamos entender o que diziam, mas estávamos com medo”.

Antes de invadir a cidade, o Exército israelense lacrou todas as entradas, desalojando quase 5 mil palestinos, demolindo prédios e interrompendo as aulas de cerca de 80 mil estudantes. As famílias dos bairros de Al-Jalda e Deir Bahha receberam ordens para fugir, enquanto os moradores de outros bairros foram submetidos a um rígido cordão militar.

Enquanto o ataque estava em curso, a agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA) alertou, em 27 de outubro, que a operação militar israelense trazia ecos alarmantes do ataque israelense de 2025 a três campos de refugiados no norte da Cisjordânia, que deslocou mais de 32 mil palestinos, em atos que a Human Rights Watch considerou crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Os soldados deixaram Sultan e sua família à própria sorte pelas ruas, após ordenarem que fugissem do bairro. Passaram os dois primeiros dias se mudando de casa em casa de parentes, até que um primo lhes ofereceu seu apartamento no bairro de Sheikh, perto de Bab al-Zawiya, no centro de Hebron, onde permaneceram pelos cinco dias seguintes, sem saber quanto tempo duraria o deslocamento.

Seus filhos, fora da escola desde o primeiro dia da operação militar, tiveram dificuldades para se adaptar ao ambiente desconhecido. “Eles não se sentem à vontade para se movimentar e ficam tímidos e envergonhados sempre que fazem algo, como pedir comida ou ir ao banheiro. Eles não falam sobre isso para não constranger nossos primos”, contou Sultan a Drop Site enquanto a família ainda estava desabrigada.

“As necessidades deles vão além de comida e abrigo. Eles precisam de um espaço para se movimentar, livros e cadernos, e uma educação que lhes permita levar uma vida normal”.

O Exército israelense retirou-se dos bairros ocupados ao amanhecer de 2 de novembro, alegando ter concluído suas operações após confiscar um total de quatro armas. As famílias começaram a retornar para suas casas danificadas em Al-Jalda e Deir Bahha naquele mesmo dia, e escolas, universidades e comércios começaram a reabrir, relatou o prefeito Yousef al-Jabari à Al Jazeera.

A maioria das casas em Khallet al-Maghariba sofreu danos leves a moderados, disse Sultan, sendo as janelas quebradas os sinais mais visíveis da operação, acrescentando que alguns moradores acreditam que parte dos danos foi causada pelo destacamento de atiradores israelenses na área.

Os filhos dele também voltaram para a escola. “Eles estão felizes agora”, disse ele.

Uma cidade devastada pela ocupação israelense

Localizada no sul da Cisjordânia, Hebron é a maior cidade do território, com cerca de 200 mil habitantes, e há décadas é uma das mais rigidamente controladas pela ocupação israelense.

Diferentemente de outras cidades da Cisjordânia, que são cercadas por assentamentos israelenses, geralmente nos morros ao redor, em Hebron os assentamentos israelenses existem no coração da cidade, com colonos israelenses armados vivendo em meio a residentes palestinos. Também diferentemente de outras cidades da Cisjordânia, Hebron não recebeu o status de Área A nos termos dos Acordos de Oslo.

Em 1997, a Organização para a Libertação da Palestina e o governo israelense assinaram o Protocolo de Hebron , que dividiu a cidade em duas seções: H1, compreendendo 80% da cidade, nominalmente sob controle palestino, e H2, compreendendo 20% da cidade, sob controle militar israelense total, incluindo a Cidade Velha e a histórica Mesquita de Ibrahimi.

Cerca de 40 mil palestinos vivem em H2, juntamente com centenas de colonos, sob forte presença militar israelense. A cidade também concentra cerca de 40% dos 89 principais postos de controle da Cisjordânia e 11% de todos os 925 obstáculos à circulação no território, segundo a ONU.

O Protocolo de Hebron foi assinado na sequência do massacre da Mesquita de Ibrahimi em 1994, quando Baruch Goldstein, um colono israelense nascido nos Estados Unidos, abriu fogo contra palestinos que oravam na Mesquita de Ibrahimi, matando 29 fiéis.

Israel respondeu dividindo a mesquita e fechando a Rua Shuhada, a principal artéria comercial da Cidade Velha, aos palestinos. Em 2007, 1.829 empresas no centro da cidade haviam fechado, cerca de 440 delas por ordem militar.

“Hoje, aqueles que governam Israel são seguidores do homem que perpetrou o massacre, e estão tentando nos destituir e expulsar”, acusa Sultan, referindo-se a Itamar Ben-Gvir, ministro da segurança nacional de Israel, que manteve um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar por anos antes de entrar para o governo.

Para Sultan, que viveu o massacre de 1994, a última operação de Israel foi quase tão ruim. Ele diz que, naquela época, pelo menos, o governo israelense ainda se sentia compelido a condenar publicamente a violência, mesmo que de forma meramente protocolar. “Hoje, os responsáveis ​​pelo deslocamento, assassinato e demolição são o governo e os extremistas de direita que fazem parte dele”, destaca. Para os moradores que retornam às suas casas esta semana, o ataque e o consequente deslocamento fazem parte de uma história muito mais longa.

Expulsão em massa de moradores

Abdul Shakour Mujahid disse que sua casa foi a primeira no bairro de Al-Jalda a ser invadida pelo Exército israelense. “Disseram-me que eu tinha uma hora para levar as minhas coisas mais importantes e que só me era permitido levar coisas simples, roupas e alguns pertences”, disse ele.

As tropas também confiscaram seu carro, e o que ele conseguiu carregar a pé não foi suficiente para ele, sua esposa e seus três filhos, o mais velho dos quais tem 12 anos.

Mujahid e sua família se mudaram para a casa de seu pai, em um bairro vizinho. Além de depender do pai para se alimentar, ele recebeu um pacote de ajuda com suprimentos básicos e leite do comitê de assistência local. De longe, ele observava os soldados espalhados pelos telhados de Al-Jalda, onde usavam dezenas de casas como posições de atiradores.

“É difícil descrever o sentimento. É uma nova Nakba para nós, ver nossa casa diante dos nossos olhos e não poder alcançá-la”, disse ele, invocando a palavra árabe para “catástrofe” que os palestinos usam para descrever sua expulsão em massa pelas forças sionistas em 1948. “É o maior crime e a maior injustiça. Não fizemos nada. O que nos ajuda a suportar é o abraço da família e dos parentes na comunidade”.

O Comitê de Apoio e Socorro da Província de Hebron registrou 537 famílias afetadas, totalizando 3.361 pessoas, incluindo 232 bebês, 1.193 crianças entre dois e 17 anos, 326 idosos, 147 gestantes ou lactantes, 32 pessoas com deficiência e 213 pessoas com doenças crônicas, segundo seu presidente, Sufian Al-Muhtaseb.

“As comunidades de Hebron recusaram-se a abrir abrigos e declararam estar prontas para acolher famílias deslocadas [em suas casas], e os convites não se limitavam a parentes”, disse Al-Muhtaseb a Drop Site.

Ele afirmou que havia uma grave escassez de suprimentos, sendo os pedidos mais urgentes recebidos pelo comitê os de alimentos e bebidas — e, sobretudo, fórmulas infantis. “A ocupação não permitiu que os moradores retirassem seu dinheiro de suas casas, e eles têm dificuldade em pedir dinheiro às famílias com quem estão hospedados, mesmo que sejam parentes, e mesmo aquelas para quem eles recorrem podem não estar em uma boa situação financeira”, disse.

Efeito cascata sobre a economia palestina

Em 29 de outubro, a Adalah, um centro jurídico para cidadãos palestinos de Israel, entrou com uma petição no Supremo Tribunal de Israel em nome do município e de sete moradores de Al-Jalda e Ein Deir Bahha.

A petição alegava que as tropas forçaram centenas de famílias a deixarem suas casas tarde da noite, com pouco aviso prévio, proibiram seu retorno por tempo indeterminado e não forneceram nenhuma justificativa concreta para uma evacuação dessa magnitude, o que configurava transferência forçada e punição coletiva nos termos da Quarta Convenção de Genebra.

O relatório também citou dados municipais que mostram que o fechamento deixou cerca de 1.200 toneladas de lixo acumuladas na cidade, já que os caminhões de coleta não conseguiam chegar às áreas isoladas.

O prefeito de Hebron, Yousef al-Jabari, disse a Drop Site que o município trabalhou com organizações parceiras para fornecer ajuda às famílias afetadas. “O município está preparando um levantamento para identificar as necessidades e prioridades dos moradores, para que a ajuda possa ser direcionada de acordo com as circunstâncias reais de cada família”, disse al-Jabari antes da retirada israelense.

Durante a operação, as forças israelenses demoliram 15 casas e outras estruturas e forçaram o fechamento de 327 lojas, causando um grave impacto na economia da cidade, uma das mais importantes da Cisjordânia. A cidade responde por cerca de 40% da produção industrial palestina na Cisjordânia e por 30% das exportações, e o fechamento de áreas inteiras e as restrições à circulação de trabalhadores e mercadorias paralisaram fábricas, mercados e cadeias de suprimentos, enquanto empresas e lojas lutavam para se manter em funcionamento.

Adnan al-Natsheh, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Hebron, afirmou que as perdas diretas decorrentes dos fechamentos “chegam a entre 10 e 12 milhões de shekels por dia”, ou cerca de US$ 3,2 milhões a US$ 3,8 milhões, incluindo cerca de 1 milhão de shekels somente no setor de laticínios.

Ele alertou que centenas de empresas industriais e comerciais foram afetadas e afirmou que 13 instalações na área de Farsh al-Hawa sofreram vandalismo, demolição e arrasamento por tratores. “As restrições impostas a trabalhadores e mercadorias ameaçam cadeias inteiras de produção e abastecimento na Cisjordânia”.

*Reportagem produzida em colaboração com Egab e publicada na edição de 4 de novembro de Drop Site News (confira aqui o original em inglês).



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