COJIRA-SP celebra 25 anos de luta pela igualdade racial no jornalismo

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Celebrar os 25 anos da COJIRA-SP é reafirmar que não há jornalismo verdadeiramente democrático enquanto o racismo continuar determinando quem entra nas redações, quem permanece nelas, quem ocupa espaços de decisão e quais vozes são reconhecidas como produtoras legítimas de informação.

Há 25 anos, um grupo de jornalistas negros se reunia no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) para enfrentar uma questão que permanecia pouco discutida no interior da própria categoria: de que maneira o racismo estrutural brasileiro se manifestava no mercado de trabalho e na produção cotidiana do jornalismo?

O processo havia começado em 2000, com a formação do Comitê Permanente de Jornalistas Negros. Em 11 de setembro de 2001, consolidava-se o nome Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – COJIRA-SP. Seu manifesto fundador estabelecia objetivos que permanecem atuais: mapear a situação dos jornalistas negros, ampliar sua presença nos espaços de trabalho, combater abordagens estereotipadas da população negra, qualificar jornalistas para a cobertura das relações raciais e acompanhar e divulgar o trabalho da imprensa negra.

A iniciativa paulista tornou-se uma das referências para a organização de jornalistas em torno da agenda racial no país. Ao lado de coletivos de outros estados, esse movimento ajudaria a ampliar o debate no movimento sindical e, anos mais tarde, contribuiria para a formação da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (CONAJIRA/FENAJ), criada em 2008.

Um dos jornalistas que participaram dessa construção foi Francisco Soares, o “Chico” Soares, cuja trajetória de militância antirracista no jornalismo antecede a própria criação da comissão. Ao relembrar esse percurso e a multiplicação das iniciativas de jornalistas pela igualdade racial, Chico resume o sentimento como o de “dever cumprido”, ao ver uma mobilização iniciada por um grupo de profissionais ganhar continuidade e alcançar outras gerações.

“Quando olho para o caminho percorrido e vejo a COJIRA se expandir, inspirar outras iniciativas e continuar mobilizando jornalistas contra o racismo, tenho a sensação de dever cumprido. Aquilo que começamos nasceu da experiência de jornalistas negros que já estavam no Movimento Negro e entenderam que essa luta precisava estar também dentro da nossa profissão.”

Outro fundador, Flávio Carrança, que coordenou a COJIRA-SP durante mais de duas décadas, destaca justamente a dimensão coletiva dessa construção. Em novembro de 2023, ao receber o Troféu Luiz Gama na primeira edição do prêmio +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira, promovido pelo Jornalistas&Cia, afirmou que o reconhecimento à sua trajetória só foi possível porque a COJIRA-SP adquiriu expressão e porque foi reconhecida “a importância do trabalho deste coletivo”.

“O surgimento da COJIRA ajudou a colocar dentro do jornalismo e do movimento sindical questões que até então tinham pouca visibilidade. Ao longo desses 25 anos, conseguimos ampliar esse debate e mostrar que enfrentar o racismo também exige transformar as redações, as relações de trabalho e a maneira como a sociedade negra aparece no noticiário.”

Ao longo de sua trajetória, a COJIRA-SP esteve à frente de iniciativas como o relançamento, em 2002, de “Imprensa Negra”, de Clóvis Moura e Miriam Nicolau Ferrara; a publicação, em 2004, de “Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro”, organizado por Flávio Carrança e Rosane Borges; além de cursos, seminários e ações de formação realizados com diferentes organizações ao longo dos anos. Em 2020, a comissão promoveu ainda uma série de atividades sobre a atuação jornalística de Luiz Gama.

Conhecer para transformar

Um dos compromissos anunciados no manifesto fundador ganhou novo impulso justamente no ano em que a comissão completa 25 anos. Em 2026, a COJIRA-SP lançou uma pesquisa sobre o perfil racial e o mercado de trabalho de jornalistas no Estado de São Paulo, destinada a produzir dados sobre diversidade, inclusão, oportunidades e condições de trabalho da categoria.

O levantamento retoma, em novas condições, uma tarefa assumida desde 2001: produzir conhecimento sobre as desigualdades raciais no jornalismo para transformá-las em ação política. Segundo a comissão, os dados deverão ajudar a identificar desigualdades e subsidiar tanto a atuação sindical quanto a cobrança por políticas efetivas de equidade nas organizações empregadoras.

Acesse a matéria do SJSP sobre a pesquisa e saiba como participar

Nos últimos anos, essa atuação também se ampliou para outra frente que dialoga diretamente com o manifesto original: o fortalecimento da mídia negra. A COJIRA-SP esteve entre as organizações protagonistas da Articulação pela Mídia Negra, movimento que passou a defender junto ao poder público a criação de políticas capazes de reduzir desigualdades na comunicação e fortalecer veículos liderados por jornalistas e comunicadores negros, além de iniciativas quilombolas, indígenas, periféricas e de outros grupos historicamente sub-representados.

Para Fabio Soares, atual coordenador da COJIRA-SP, essa atuação dá continuidade à missão estabelecida há 25 anos.

“Chegar aos 25 anos nos obriga a olhar para a história, mas também para aquilo que ainda precisamos transformar. Uma das contribuições que buscamos dar nos últimos anos foi fortalecer a articulação pela mídia negra, levando ao poder público a necessidade de políticas que reconheçam e deem condições de sustentabilidade a veículos liderados por jornalistas e comunicadores negros e negras. Ao mesmo tempo, seguimos atuando na defesa dos direitos desses profissionais e no enfrentamento ao racismo. A pesquisa sobre o perfil racial da imprensa paulista parte da mesma compreensão: precisamos conhecer com profundidade as desigualdades para termos mais instrumentos para enfrentá-las.”

Aos 25 anos, a COJIRA-SP reafirma seu compromisso com um jornalismo antirracista, plural e comprometido com a democracia. Seguiremos defendendo jornalistas negros e negras, cobrando políticas de equidade nas empresas de comunicação, fortalecendo a mídia negra e produzindo conhecimento capaz de revelar desigualdades e orientar transformações.

Os desafios que motivaram a criação da comissão ainda não foram superados. Por isso, celebrar essa trajetória também significa renovar compromissos e afirmar que a diversidade não pode estar apenas nas pautas: precisa estar em quem apura, escreve, edita, decide e produz informação.

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