“Tarcísio Inimigo das Mulheres”: Campanha denuncia ataques do governador contra as paulistas

Feministas querem incidir nas eleições revelando, com base em dados oficiais, que Tarcísio de Freitas desmonta políticas de proteção às mulheres enquanto favorece os empresários e os mais ricos

A campanha Tarcísio Inimigo das Mulheres, lançada neste 19 de junho, traz uma revelação assustadora: o governo de São Paulo dedica a cada uma das 23,2 milhões de paulistas apenas 18 centavos por ano. É a verba que a Secretaria de Política para as Mulheres gasta para proteger uma cidadã contra a violência, o assédio, o estupro e o feminicídio. “O que a gente faz com isso?”, perguntou ao auditório lotado da Apeoesp, na capital paulista, a jornalista e advogada Luka Franca, da Kuíra Feminista, instituto que integra a campanha com outras 50 organizações, entre movimentos feministas, LGBTQIA+, entidades sindicais e estudantis.

O descaso da gestão Tarcísio de Freitas explica a razão de o Estado responder pelo maior índice de feminicídio do país. Sua administração representa o mais sangrento período, em 10 anos. Só em 2024, foram mortas 266 mulheres, a maior parte em casa, vítima do parceiro ou ex. De janeiro a abril de 2026 ocorreram 107 feminicídios e 2 942 estupros de vulneráveis. Em vez de fortalecer a rede de proteção, Tarcísio cortou pela metade (54,4%) os recursos do orçamento da Secretaria das Mulheres. Dos R$ 38,2 milhões previstos para combater a violência, somente R$ 10 milhões foram gastos.  

O descuido e o desinvestimento têm consequências: para suprir os 645 municípios do Estado funcionam apenas 141 Delegacias de Defesa da Mulher (muitas não atendem 24 horas ou estão bem longe da periferia), 46 casas abrigo cofinanciadas e 20 unidades da Casa da Mulher Paulista.

Luka Franca cita ainda as barreiras que o governo tem imposto ao aborto legal no serviço público e o crescente número de maternidades denunciadas pela prática de violência obstétrica. “Aqui está explicado porquê ele é nosso inimigo.”

         Há, porém, muito mais a denunciar. A campanha, que pretende tomar as ruas da capital, lastrear-se pelo interior e litoral paulista, quer incidir no processo eleitoral. Para que isso aconteça, as mulheres vão dialogar com a população e apontar mais sete setores em que Tarciso se notabiliza pelo ataque às mulheres e pelo desmonte de políticas conquistadas.

  • Educação precarizada

    Tarcísio reduziu a verba da educação de 30% para 25%, fechou turmas de EJA e ensino noturno e impôs escolas cívico-militares. Segundo as feministas, esse modelo inspira a machosfera, fragiliza meninos, cooptando-os para o extremismo; além de massacrar meninas, sem um protocolo para evitar o assédio e o ódio de gênero. Soma-se a isto a precarização do trabalho dos educadores – 72% são mulheres. Há queixas de salários baixos, pressão como forma de gestão (professores são punidos por não baterem metas), de adoecimento físico, e afastamento da sala de aula por ansiedade e depressão.

    •  Trabalho duro

    Tarcísio é a favor da escala 6×1, o que sobrecarrega mais as mulheres, tirando delas oportunidades de lazer e estudo. Quando voltam do trabalho para casa, ainda precisam enfrentar o cuidado com os filhos e os idosos da família.

    Em São Paulo, o salário das mulheres é, em média 21,6% menor que o dos homens na mesma função. As mulheres negras ganham menos, 40%. Tarcísio ignora a desigualdade.

    • Transporte lotado e ajuda aos amigos

    As mulheres continuam sendo atacadas sexualmente no transporte lotado e enfrentando linhas insuficientes – o que fazem o retorno para casa demorar muito mais.

    Elas denunciam que Tarcísio repassou para as concessionárias de trem e metrô cerca de R$ 2 bilhões e para as públicas entregou R$ 460 milhões, tornando clara a prioridade aos empresários do transporte e não aos usuários.

    •  Política de morte na segurança pública

    Nenhuma mulher deve viver com medo de ser a próxima vítima ou ver seus filhos sob a mira da PM paulista, que nos últimos anos se tornou ainda mais letal. Em 2025, a corporação registrou 808 mortes nas alegadas “ações de serviço”, e os índices continuam subindo.

    As mulheres não esquecem as chacinas na Baixada Santista com mais de 80 vítimas, a maioria eram pessoas negras e jovens. Muitas execuções sumárias e torturas foram documentadas pela Ouvidoria da PM, por movimentos sociais e organizações de direitos humanos.

    •  Água e terra

    A privatização entregou ao capital privado um bem do povo, que abastece a capital e o interior. Para Tarcísio, água é mercado. Para que haja lucro, a tarifa tem subido acima da inflação, o fornecimento de água piorou – falta nas torneiras das regiões mais pobres – e o esgoto é despejado no Rio Tietê.

    O inimigo das mulheres entrega também terras: 720 mil hectares de terras devolutas públicas estão sendo disputadas por fazendeiros e grileiros. O governo tem vendido a eles com desconto de 90% do valor. Enquanto isso, sem-terra e quilombolas seguem lutando por reforma agrária e pela agricultura familiar.

    • Saúde frágil

    Segundo o levantamento das feministas, Tarcísio desmonta a saúde e anuncia números falsos. Ele afirmou ter criado 8 mil leitos SUS, quando, na verdade, os leitos sob gestão estadual caíram de 31 373 (2022) para 30 933 (2025). A Tabela SUS Paulista, apresentada como solução para filas, na prática prioriza hospitais privados e filantrópicos e retira recursos da atenção básica. É a privatização silenciosa do SUS sob a desculpa da modernidade.

    A campanha também pontua: Em jornadas exaustivas e sob a falta de equipamentos, as equipes de médicos e enfermeiros se sentem impotentes diante da demanda de pacientes. Os concursos públicos para reposição de profissionais não foram realizados nos últimos anos.

    Cuidados e déficit

    Tarcísio recusou-se a trazer para São Paulo ações importantes, como a Política de Cuidados do Governo Federal, que estabelece a corresponsabilidade pelo trabalho de cuidado entre o Estado, a família, o setor privado e a sociedade civil. Aplicou pouquíssimo do orçamento nas políticas que melhorariam a vida da população feminina, e, mesmo assim, São Paulo terminou 2025 com déficit de R$ 12,2 bilhões. Mas, como argumenta a campana das mulheres, “o governador encontrou dinheiro para pagar concessionárias e distribuir R$ 85,6 bilhões em renúncia fiscal para empresas”. Já às demandas das paulistas ele reservou “apenas descaso e propaganda”.

    Tarcísio Inimigo das Mulheres está noInstagram(@tarcisioinimigodasmulheres) e tem um site (www.tarcisioinimigodasmulheres.com.br) com mais informações sobre a campanha. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo apoia a iniciativa.

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