Na 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, os trabalhos vencedores nas categorias Arte, Áudio, Vídeo, Texto, Fotografia, Multimídia e Livro-Reportagem revelam realidades que muitas vezes permanecem invisíveis. Do trabalho análogo à escravidão à violência contra as mulheres — física, obstétrica ou expressa na negação de direitos, como o acesso ao aborto legal nos casos previstos em lei —, passando pela violência policial, pela atuação de facções criminosas em terras indígenas e pela expulsão de famílias da Favela do Moinho, no centro de São Paulo, as produções expõem diferentes formas de violência e desigualdade.
A premiação homenageia o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura militar em 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. Sua morte se tornou um marco da resistência à ditadura e da luta pela liberdade de imprensa.
Desde 2023, quando chegou à 45ª edição, a premiação é organizada pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, associação civil de direito privado, sem fins lucrativos ou político-partidários, fundada em novembro de 2022, em São Paulo. A entidade reúne 18 instituições da sociedade civil, além da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), Artigo 19, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Conectas Direitos Humanos, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Geledés, Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Nacional), Instituto Vladimir Herzog, Instituto Socioambiental (ISA), Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo, Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, Periferia em Movimento, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e União Brasileira de Escritores (UBE).
A cerimônia de entrega dos prêmios aconteceu em 20 de outubro, no Tucarena, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e foi antecedida pela 15ª Roda de Conversa com Ganhadores. O encontro reuniu jornalistas premiados e estudantes de comunicação para discutir os bastidores das reportagens e os desafios atuais da profissão.
Memória e reconhecimento
A programação da 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog começou pela manhã, na Praça Memorial Vladimir Herzog, no centro de São Paulo. O encontro foi marcado por homenagens ao cartunista Paulo Caruso, falecido em 2023, e ao jornalista e escritor Jamil Chade. Ambos receberam o Prêmio Especial de 2026.
As atividades incluíram a reinauguração da Escadaria da Liberdade, com trechos do Hino da República, e do Calçadão do Reconhecimento, espaço destinado a reunir os nomes dos homenageados pelo prêmio ao longo de sua história. Nesta primeira etapa, o painel apresenta 54 nomes, incluindo os vencedores do Prêmio Especial, e será ampliado para incorporar os demais premiados. A celebração contou ainda com comida árabe preparada por refugiados palestinos.
Jornalismo em defesa da democracia
A solenidade foi marcada por discursos em defesa da democracia, da imprensa livre e do papel do jornalismo na proteção dos direitos humanos.
Na abertura da cerimônia, Thiago Tanji, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), resgatou a história do prêmio e a luta que se seguiu ao assassinato de Vladimir Herzog. “O Prêmio Vladimir Herzog nasceu de uma tragédia, mas não celebra a tragédia. Ele nasceu da morte de um jornalista, mas celebra a vida, a coragem e a capacidade de resistir”, afirmou.
Tanji também alertou para os ataques sistemáticos contra profissionais de imprensa, especialmente mulheres jornalistas, além do assédio, das agressões físicas e virtuais e das ameaças de censura. Ressaltou que o jornalismo tem a responsabilidade de investigar quem exerce o poder, revelar contradições e garantir à população acesso às informações necessárias para formar sua própria opinião.
Outro ponto central do discurso foi a independência editorial. Para o presidente do SJSP, a defesa da liberdade de imprensa exige transparência também das empresas de comunicação. “Não podemos pedir transparência ao poder público e aceitar opacidade na imprensa. Não podemos exigir independência política e esquecer que a independência editorial é um pilar da ética jornalística”, afirmou.
Tanji defendeu que a investigação jornalística alcance governos, instituições, empresários e os próprios meios de comunicação. O compromisso com o interesse público, destacou, não pode deixar de lado os interesses econômicos e políticos que influenciam a produção e a circulação de informações.
O jornalismo como ferramenta de denúncia
Quatro das reportagens premiadas abordam uma realidade que atravessa a vida de milhões de brasileiras: a violência de gênero. Os trabalhos mostram como a violência pode se manifestar de diferentes maneiras, inclusive em relações nas quais o abuso é naturalizado e demora a ser reconhecido.
Vencedora na categoria Livro-Reportagem, a jornalista Ana Paula Araújo contou que a ideia de sua obra surgiu da rotina de noticiar casos de mulheres agredidas por seus companheiros. O livro reúne histórias que ajudam a compreender as diferentes formas de violência e as dificuldades que muitas vítimas enfrentam para identificar e romper o ciclo de abusos.
A dimensão do problema também aparece nos dados. Pesquisa DataSenado de 2025 apontou que 3,7 milhões de brasileiras, cerca de 4% das mulheres, sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento.
Ao falar sobre a produção do livro, Ana Paula ressaltou a importância de oferecer tempo e espaço para que as fontes contem suas experiências. Em muitos casos, aquela é a primeira oportunidade de falar abertamente sobre a violência sofrida.
Entre as entrevistadas, a jornalista ouviu uma médica psiquiatra que, apesar de conhecer as diferentes formas de violência de gênero, demorou a reconhecer que também era vítima. Ela sofria violência sexual por coerção dentro do casamento: quando se recusava a manter relações sexuais com o marido, ele acendia as luzes da casa, fazia escândalo e acordava os filhos, ameaçando não deixar ninguém dormir.
O relato evidencia que a violência sexual também ocorre dentro de relações conjugais e que o conhecimento sobre o tema nem sempre impede uma mulher de ter dificuldade para reconhecer a própria situação. A naturalização de comportamentos abusivos pode tornar ainda mais difícil identificar a violência e buscar ajuda.
A série Sala de Espera, da Rádio Novelo, vencedora na categoria Texto, aborda outra violação de direitos: os obstáculos e as ameaças enfrentados por mulheres que buscam o aborto legal. No Brasil, a interrupção da gravidez é permitida nos casos previstos em lei, incluindo gravidez decorrente de estupro e risco de vida para a gestante. O Supremo Tribunal Federal também afastou a punição para a interrupção da gestação de fetos anencéfalos.
Ao compartilhar os bastidores da apuração, a jornalista Natália Silva contou que as entrevistas exigiram, sobretudo, escuta e cuidado. Em um dos relatos, a conversa se estendeu por horas, sem que fosse necessário pressionar a entrevistada a falar. A equipe procurou respeitar o tempo de cada mulher e estabelecer acordos claros sobre o uso das informações, inclusive para proteger suas identidades.
Natália também explicou que a checagem dos fatos precisava ser conduzida com transparência. A equipe confirmou datas, detalhes dos atendimentos e informações sobre os hospitais envolvidos, explicando às fontes que as perguntas não tinham o objetivo de desacreditá-las, mas de cumprir a responsabilidade jornalística de verificar as informações.
A necessidade de contextualizar as violações de direitos humanos também apareceu na fala da jornalista Julia Dolce, vencedora na categoria Produção Jornalística em Áudio com a reportagem Palestina, da abundância à fome, do podcast Prato Cheio, do site O Joio e O Trigo. A produção aborda a fome na Palestina e a destruição de seu sistema alimentar no contexto histórico da colonização.
Durante a roda de conversa, Julia ressaltou que o jornalismo precisa recuperar histórias que vão além do noticiário imediato e explicar as estruturas que sustentam as violações. “Eu acredito muito na importância de você contextualizar algo, mesmo que isso envolva você contar uma história que venha lá do começo, lá do final do século XIX, mesmo que isso não seja um furo jornalístico […] eu acho que isso ainda tem muito poder”, afirmou.
A jornalista também chamou a atenção para a dificuldade de acompanhar, em tempo real, a violência contra a população palestina e para a importância de continuar falando sobre o tema, mesmo à distância. Sua reflexão reforça que informar não significa apenas relatar acontecimentos, mas também oferecer elementos para que o público compreenda suas causas e consequências.
Essa perspectiva também é fundamental na cobertura da violência policial no Brasil. Mortes em operações, especialmente de pessoas negras e moradores das periferias, não podem ser tratadas apenas como episódios isolados. Investigar as circunstâncias, ouvir familiares e comunidades e contextualizar a atuação do Estado são caminhos para dar visibilidade às vítimas e às estruturas que perpetuam essas violações.
Respeito e sensibilidade com as fontes
O trabalho análogo à escravidão continua sendo uma grave violação de direitos humanos no Brasil. Em 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, 2.772 trabalhadores foram resgatados dessas condições. No mesmo período, os resgates em áreas urbanas ganharam destaque, representando 68% do total registrado, com ocorrências especialmente nos setores de construção civil e alvenaria.
A jornalista Marieta Cazarré, da TV Brasil, e sua equipe produziram uma reportagem sobre cinco mulheres resgatadas dessa situação. Além de contar as histórias das trabalhadoras, a produção abordou as dificuldades para obter reparação pelos direitos violados. Mesmo depois do resgate, muitas enfrentam longos processos judiciais e passam anos aguardando o reconhecimento de seus direitos.
Na roda de conversa, Marieta chamou a atenção para a vergonha que algumas mulheres sentem depois de terem sido escravizadas. Segundo ela, pode ser difícil reconhecer a exploração sofrida e compreender que a responsabilidade pela violência não é da vítima.
“É estranha a sensação, assim, é quase como se elas tivessem vergonha por estarem naquele lugar, né? É tipo assim, depois de algum tempo, quando você consegue entender que você foi escravizada, você tem vergonha”, relatou.
A jornalista ressaltou que a sensibilidade durante as entrevistas é fundamental para conquistar a confiança das fontes. Também contou que algumas mulheres, mesmo depois do resgate, desejam voltar às casas onde viveram por décadas, muitas vezes porque aquele é o único ambiente que conhecem.
A saída da situação de exploração, portanto, não encerra necessariamente o sofrimento. Marieta relatou que algumas trabalhadoras conseguem o reconhecimento de direitos, como aposentadoria ou indenização, mas ainda enfrentam recursos e processos demorados. Enquanto aguardam uma decisão, permanecem em condições de vulnerabilidade econômica e social.
Investigação revela conexões na cadeia produtiva
A investigação sobre o trabalho análogo à escravidão também esteve no centro da reportagem de Daniel Camargos, da Repórter Brasil, vencedor na categoria Texto. A apuração partiu de documentos de fiscalização trabalhista e revelou uma cadeia produtiva que conectava uma carvoaria no sul do Maranhão, a indústria siderúrgica e o mercado internacional.
O ponto de partida foi uma fotografia encontrada por acaso pelo jornalista enquanto analisava relatórios de fiscalização. A imagem mostrava um trabalhador com as mãos amarradas e a cabeça baixa. Segundo o documento, ele havia sido espancado e amarrado pelo gerente de uma carvoaria. A fotografia teria sido mostrada a outros funcionários como forma de intimidação, para impedir que contestassem as condições de trabalho.
A partir daquele registro, Camargos decidiu investigar o destino do carvão produzido no local. Com informações de auditores fiscais do trabalho e de um procurador, identificou a ligação entre a carvoaria e a Viena Siderúrgica, empresa do Maranhão. A apuração avançou até o ferro-gusa produzido com aquele carvão e identificou compradores no exterior, entre eles a Toyota, nos Estados Unidos.
Para reconstruir essa cadeia, o jornalista cruzou relatórios de fiscalização trabalhista, documentos judiciais e dados de comércio exterior. Também utilizou o Cruzagrafos, ferramenta da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que permite visualizar relações entre empresas e seus proprietários. Camargos ressaltou, porém, que as conexões encontradas em bancos de dados precisam ser confirmadas nas fontes originais.
A investigação exigiu tempo e persistência para verificar cada etapa. Ao explicar como esse método se desenvolveu na Repórter Brasil, organização que há 25 anos investiga violações de direitos trabalhistas e socioambientais, o jornalista destacou a experiência acumulada pela equipe:
“Esse método só é possível fazer, eu acredito assim, porque eu trabalho numa organização igual a Repórter Brasil, que tá há 25 anos e que veio muita gente antes amassando barro pra gente construir esse método.”
O trabalho evidencia como uma denúncia pode levar à descoberta de conexões econômicas que ultrapassam o local onde a exploração acontece. Para revelar essas relações, o jornalismo precisa reconstruir caminhos, confrontar documentos e verificar informações antes de publicar, sem perder de vista as pessoas submetidas às condições denunciadas.
A violência policial e as vidas por trás das estatísticas
A violência policial também está entre os temas abordados pelos trabalhos reconhecidos na 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog. Na categoria Fotografia, Tomaz Silva, da Agência Brasil, venceu com o registro Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro. A imagem foi feita durante a Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Segundo o balanço oficial citado pela Agência Brasil, a operação deixou 122 mortos.
Na fotografia, Fernanda da Silva Martins aparece abraçada ao corpo do companheiro. Em vez de se concentrar apenas na dimensão numérica da operação, o registro revela a dor de quem perdeu alguém. Tomaz contou que decidiu se abaixar para dar visibilidade às pessoas que sofriam, e não apenas à quantidade de corpos.
“Quando eu fiz a foto, eu decidi me abaixar por entender que seria mais importante dar visibilidade às pessoas que estavam sofrendo, e não à massa de corpos”, afirmou à Agência Brasil.
A mesma operação foi registrada por Eduardo Anizelli, da Folha de S.Paulo, que recebeu menção honrosa pela série fotográfica Aqueles que carregam os mortos. Durante a roda de conversa, o fotógrafo descreveu a experiência como perturbadora e disse que nunca imaginou presenciar cenas daquela dimensão fora de uma cobertura de guerra. Ele relatou que o número de mortos crescia rapidamente durante a operação e que precisou acompanhar tanto a ação policial quanto o sofrimento das famílias.
A série amplia o registro da tragédia ao mostrar como os moradores lidaram com suas consequências. São imagens que ajudam a compreender que, para além dos números, cada morte deixa familiares, amigos e uma comunidade que precisa conviver com a perda.
A violência de Estado também é o tema de Outro jovem negro assassinado, trabalho de Antonio Junião, da Ponte Jornalismo, que recebeu menção honrosa na categoria Arte. Na roda de conversa, o jornalista explicou que a charge dialoga com a cobertura de casos de pessoas mortas pela polícia e com a repetição de justificativas de erro após os assassinatos.
Ao falar sobre o trabalho da Ponte, Junião destacou o compromisso do veículo com a denúncia da violência estrutural e com a cobertura de direitos humanos, justiça e segurança pública. “Desde 2014 a gente traz denúncias, traz reportagens sobre esse assunto”, afirmou, ao explicar que o veículo escolheu concentrar parte de sua atuação na violência cometida pelo Estado.
Os três trabalhos revelam diferentes dimensões da violência policial: as mortes, o luto das famílias e a repetição de casos que correm o risco de ser tratados como ocorrências isoladas. Ao colocar as vítimas no centro da narrativa, as produções questionam a naturalização dessas mortes e mostram por que o jornalismo precisa ir além dos números oficiais, investigar as circunstâncias e dar espaço às pessoas diretamente afetadas.
Ao reunir histórias de violência de gênero, exploração do trabalho e violência policial, entre outras violações, os trabalhos premiados pelo Prêmio Vladimir Herzog reafirmam a importância de um jornalismo comprometido com a escuta, a investigação rigorosa e a defesa dos direitos humanos.
Dar visibilidade a essas histórias significa reconhecer a dignidade das pessoas afetadas, questionar estruturas que perpetuam desigualdades e cobrar respostas de quem tem responsabilidade sobre essas violações. É também defender o direito da sociedade à informação e o exercício de um jornalismo livre, independente e comprometido com o interesse público.
Conheça os trabalhos vencedores da 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog.


