Reino Unido, França e Canadá anunciam sanções aos assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia, mas medida é “para inglês ver”

Quds News Network, Monitor do Oriente Médio e Anadolu*

O Reino Unido, a França e o Canadá anunciaram nesta terça-feira, 8 de setembro, uma proibição conjunta da importação de mercadorias dos assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia ocupada, numa medida apresentada como um marco contra a colonização israelense de terras palestinas. Mas, nos bastidores, diplomatas britânicos contavam discretamente aos Estados Unidos uma história bem diferente: que as sanções eram em grande parte simbólicas e não teriam impacto material nas relações comerciais ou de segurança entre Reino Unido e Israel.

De acordo com uma reportagem da Bloomberg publicada horas antes do anúncio, autoridades britânicas, receosas de que as medidas pudessem prejudicar a relação do primeiro-ministro Andy Burnham com o presidente dos EUA, Donald Trump, asseguraram em privado ao governo Trump que as sanções não teriam peso real.

Burnham chegou a telefonar para Trump no dia anterior para avisá-lo com antecedência, com Downing Street apresentando a ligação como uma discussão sobre a solução de dois Estados. A mensagem para Washington era inequívoca: tratava-se de uma demonstração interna, não de uma ruptura genuína com Israel.

Os números comprovam a versão dos diplomatas. A proibição visa apenas bens produzidos nos assentamentos da Cisjordânia, uma fração minúscula dos cerca de 8 bilhões de dólares em comércio anual entre a Grã-Bretanha e Israel, e as autoridades admitem que ainda não está claro como o Reino Unido irá distinguir os produtos dos assentamentos dos produtos fabricados em Israel. As principais exportações britânicas para Israel são produtos farmacêuticos, e as principais importações são frutas e verduras, itens que não são afetados pela proibição dos assentamentos. Segundo o próprio governo britânico, a medida não altera nada de substancial nas relações econômicas ou militares entre os dois países.

Essa é a questão central. Sanções contra assentamentos e colonos israelenses não são novidade. A Grã-Bretanha, a União Europeia e os Estados Unidos impuseram diversas sanções relacionadas aos assentamentos ao longo dos anos, congelando os bens de colonos individuais e alertando empresas para que não façam negócios nos assentamentos, e nada disso dissuadiu Israel minimamente.

Ao longo desse período, os assentamentos só se expandiram, a violência dos colonos atingiu níveis recordes e Israel prosseguiu com o projeto E1, que dividiria a Cisjordânia ocupada em duas. Uma proibição que a própria Grã-Bretanha descreve em privado como simbólica junta-se a uma longa lista de gestos que permitem aos governos ocidentais aparentar estar a agir enquanto a colonização que afirmam combater se acelera sem qualquer controle.

O anúncio, no entanto, foi feito em termos fortes. Ed Miliband ministro das Relações Exteriores, disse à Câmara dos Comuns que a Grã-Bretanha não poderia mais ser mera espectadora do sofrimento e da destruição da solução de dois Estados, afirmou que Londres agora considera a ocupação ilegal e declarou que está ocorrendo uma limpeza étnica de palestinos na Cisjordânia. Ele disse que o pacote também sancionaria indivíduos e empresas que facilitam a expansão dos assentamentos e negaria licenças para exportações que apoiam materialmente a ocupação, com a França e o Canadá impondo suas próprias proibições de importação e um grupo maior de países prometendo seguir o exemplo.

Israel, por sua vez, reagiu com uma fúria desproporcional ao que a Grã-Bretanha chama, em privado, de um passo simbólico. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, exigiu a expulsão do embaixador britânico, enquanto o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, pediu a Netanyahu que fechasse o Consulado Britânico em Jerusalém ocupada, que atende palestinos. A indignação teatral israelense, respondida com uma medida que a Grã-Bretanha insiste que não mudará nada, agrada a ambos os governos.

Na mesma data em que foram anunciadas as novas sanções, o Exército de Israel matou pelo menos dois palestinos na Cisjordânia ocupada. Numa incursão militar no norte da Cisjordânia, o Exército assassinou a tiros Abdulkarim Suleiman, de 28 anos, em Aqraba, ao sul de Nablus. Em Tulkarem, o Crescente Vermelho Palestino recuperou o corpo de Assad Maliha, palestino oriundo da Faixa de Gaza, dentro de um prédio, após uma investida das forças israelenses.

O prefeito de Aqraba, Salah Abu Shahada, disse à agência Anadolu que as forças israelenses invadiram a área de Al-Dayriya ao amanhecer e cercaram uma casa onde estava toda a família, incluindo o pai, os filhos e a mãe. O Exército retirou os membros da família, enquanto o pai se recusou a sair.

A casa foi cercada. Sons de tiros e explosões foram ouvidos na área durante o cerco que durou horas, acrescentou ele. Depois, o Exército se retirou da área e informou à Prefeitura que Suleiman estava morto e seu corpo retido.

Em Tulkarem, Maliha morreu depois que forças israelenses invadiram um prédio no subúrbio de Irtah, expulsaram palestinos de Gaza que estavam lá desde outubro de 2023, prenderam vários moradores e danificaram o edifício. Durante a incursão, soldados israelenses dispararam granadas de efeito moral e gás lacrimogêneo contra jornalistas que cobriam o incidente e os perseguiram pela área.

Colonos israelenses são “terroristas”, admite Mike Huckabee

O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, visitou a Cisjordânia ocupada no sábado, 5 de setembro, e chamou de “terroristas” os ocupantes que realizam ataques contra palestinos, informa a Anadolu.

“Sei que essa é uma palavra desconfortável para algumas pessoas, mas quando se tenta criar uma atmosfera na qual as pessoas se sintam desconfortáveis vivendo em suas próprias casas, com seus filhos brincando em seus próprios gramados e quintais, e sintam que não estão seguras nem protegidas devido ao comportamento, às ações e à intimidação de outras pessoas, isso é terrorismo, por qualquer definição”, afirmou Huckabee durante uma visita a Turmus Ayya, ao norte de Ramallah, na região central da Cisjordânia.

Durante a visita, o diplomata se reuniu com palestino-americanos e ouviu seus relatos sobre os desafios que enfrentam em seu cotidiano, em suas casas e propriedades, em meio à violência dos ocupantes.

Huckabee afirmou que Washington continuará transmitindo a mensagem de que “as pessoas dessas comunidades têm o direito de viver com um nível de segurança e proteção”. “O governo (israelense) tem a responsabilidade de garantir que isso aconteça”, enfatizou Huckabee.

Apesar de suas críticas à violência dos ocupantes, Huckabee é conhecido por adotar posições sionistas cristãs e já afirmou anteriormente que Israel tem “o direito de controlar grandes partes” do território que se estende do Nilo ao Eufrates, além de grandes áreas do Oriente Médio.

A ONU afirmou em agosto que a violência dos colonos havia atingido “níveis sem precedentes”, com mais de 1.430 ataques que resultaram em vítimas ou danos materiais documentados em 2026 até o início de agosto.

*Resumo das edições de 8 de setembro de 2026 de QNN (acesse aqui), MEMO (disponível aqui) e Anadolu (acesse aqui).

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