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Protestos no mundo todo depois que Marinha de Israel interceptou barcos da Flotilha “Global Sumud” e sequestrou mais de 400 ativistas; pelo menos 12 brasileiros capturados

Redação - SJSP

Israel anunciou que interceptou todos, exceto um, dos mais de 40 barcos da Flotilha Global Sumud (GSF), que tentavam romper o cerco israelense e entregar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. O Ministério das Relações Exteriores de Israel afirmou: “Um último navio desta provocação [sic] permanece à distância. Se se aproximar, sua tentativa de entrar em uma zona de combate ativa e romper o bloqueio também será impedida”.

Mais de 400 tripulantes da GSF foram detidos pela Marinha de Israel e sequestrados, nas próprias embarcações, para o porto israelense de Ashdod. “Todos os passageiros estão seguros e com boa saúde. Eles estão em segurança a caminho de Israel, de onde serão deportados para a Europa”, disse Tel Aviv.

A GSF, por sua vez, declarou que a interceptação da Flotilha por parte da Marinha de Israel, em águas internacionais, constitui crime de guerra e pirataria, e reclamou uma intervenção de governos e organizações internacionais, para garantir a integridade física dos ativistas sequestrados e “exigir sua imediata libertação”.

Os organizadores da Flotilha disseram que o barco “Marinette” ainda navegava na manhã desta quinta-feira, 2 de outubro, e que o barco “Mikeno” havia ingressado em águas territoriais palestinas, segundo dados de rastreamento, mas que havia perdido contato com a embarcação — onde se encontrava João Aguiar, coordenador da delegação brasileira na GSF.

“Sirius-Haifa”, o barco que transportava o jornalista Alex Colston, do Drop Site News, foi um dos primeiros a ser interceptado. O Drop Site posteriormente perdeu contato com Colston. Também foi desviado para Ashdod o barco “Capitão Nikos”, que levava a bordo o jornalista Carlos de Barrón, do jornal espanhol El País.

Os organizadores da flotilha disseram que a Marinha tentou pulverizar um navio que transportava principalmente veteranos americanos com a chamada “água de skunk” em águas internacionais, uma ação descrita pelos participantes como assédio a ativistas humanitários não violentos. O organizador Thiago Ávila declarou que o bloqueio naval israelense é ilegal segundo a Corte Internacional de Justiça (ICJ), e designou como genocício o cerco de Gaza por Israel.

O grupo de direitos humanos palestino Adalah, em Israel, afirmou em comunicado que as autoridades israelenses inicialmente negaram acesso de advogados aos ativistas da GSF aprisionados, e iniciaram procedimentos legais contra eles. Posteriormente, porém, a equipe jurídica do Adalah conseguiu entrar no porto. De acordo com a coordenação da GSF, o Adalah lhe informou que foram sequestrados por Israel, e conduzidos a Ashdod, 443 tripulantes da flotilha.

De acordo com a GSF, em nota emitida nesta quinta, “foram confirmadas as interceptações e sequestro de 12 membros da delegação brasileira”, sendo eles: Thiago Ávila, a bordo do barco “Alma”; Bruno Gilga, Lisiane Proença, Magno Costa, a vereadora Mariana Conti (PSOL-SP) e Nicolas Calabrese a bordo do barco “Sirius”; Ariadne Telles e Mansur Peixoto a bordo do barco “Adara”; Gabriele Tolotti e Mohamad El Kadri a bordo do barco “The Spectre”; Lucas Gusmão a bordo do barco “Yulara”; e a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) a bordo do barco “Grand Blue”.

Além destes, “João Aguiar estava a bordo do veleiro Mikeno. Nossa delegação acompanhava a embarcação até que, às 19h35 [CEST, horário europeu de verão], perdemos contato e acesso às câmeras, logo após um ataque israelense no qual foram registrados jatos de água (de odor fétido) sendo lançados diretamente contra os participantes. As câmeras da embarcação foram atingidas, o que impossibilitou qualquer nova comunicação desde então”, informa a GSF. “Embora o rastreador indique que o barco tenha alcançado as águas territoriais de Gaza, não houve mais sinais de navegação e, até o momento, não sabemos seu paradeiro”.

A equipe de apoio da GSF também perdeu contato com o brasileiro Miguel de Castro, que estava a bordo do barco “Catalina”. “Presume-se que a embarcação tenha sido interceptada, diante do bloqueio de comunicações provocado pelas forças sionistas. A Embaixada do Brasil em Israel havia informado que, devido ao feriado de Yom Kippur, o atendimento consular só estaria autorizado a partir do dia 3 de outubro. No entanto, o grupo de advogados da Adalah relatou ter recebido ligações de participantes informando que as autoridades de imigração israelenses já iniciaram audiências preliminares de deportação e emissão de ordens de prisão no porto de Ashdod”.

A GSF frisa que tais procedimentos “são ilegais, e contrários às garantias de direitos fundamentais, já que foram iniciados sem terem sido previamente comunicados aos nossos advogados, enquanto as autoridades israelenses permanecem negando acesso dos nossos participantes à assistência jurídica e consular”. Acrescenta ser inadmissível “que as forças israelenses realizem estes procedimentos, de deportação e aprisionamento de nossos ativistas, sem permitir aos cidadãos brasileiros o contato consular prévio e com atendimento jurídico com seus advogados”.

Ainda segundo a GSF, o governo brasileiro “deve se posicionar frente às inúmeras violações dos direitos de seus cidadãos que foram levados ilegalmente para o território da Palestina ocupada”. A coordenadora da delegação brasileira, Lara Souza, está em comunicação com o Itamaraty, “para alinhar nossas preocupações e apresentar as exigências em defesa de nossos integrantes”.

Como parte central dessas demandas está a exigência de confirmação da nominata de cidadãos brasileiros sequestrados por Israel, “e que seja imediatamente informado o paradeiro de João Aguiar, a bordo do barco Mikeno, e de Miguel de Castro, a bordo do Catalina”, bem como garantir “acesso consular e jurídico imediato, a fim de assegurar que nossos participantes retornem em segurança para casa”.

Itamaraty condena ação militar de Israel, “potência ocupante” de Gaza

O Itamaraty divulgou, nesta quarta, nota intitulada “Interceptação de embarcações da ‘Flotilha Global Sumud’ por Israel”, na qual deplora e afirma ser “condenável” a operação militar israelense. “O governo brasileiro acompanha com preocupação a interceptação pela marinha israelense de embarcações da ‘Flotilha Global Sumud’, que contam com presença de cidadãs e cidadãos brasileiros, incluindo parlamentares”, diz a nota. “Diante das primeiras notícias de detenção de nacionais brasileiros a bordo de embarcações da flotilha, entre eles a deputada federal Luizianne Lins, o Brasil recorda o princípio da liberdade de navegação em águas internacionais e ressalta o caráter pacífico da flotilha”, prossegue.

“O governo brasileiro deplora a ação militar do governo de Israel, que viola direitos e põe em risco a integridade física de manifestantes em ação pacífica. No contexto dessa operação militar condenável, passa a ser de responsabilidade de Israel a segurança das pessoas detidas. Reitera, nesse contexto, exortação pelo levantamento imediato e incondicional de todas as restrições israelenses à entrada e distribuição de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, em consonância com as obrigações de Israel, como potência ocupante, à luz do direito internacional humanitário”.

Ainda segundo a nota do Itamaraty, a “Embaixada do Brasil em Tel Aviv está em contato permanente com as autoridades israelenses, de modo a prestar a assistência consular cabível aos nacionais, conforme estabelece a Convenção de Viena sobre Relações Consulares”.

Protestos eclodiram em várias grandes cidades na quarta-feira para denunciar a interceptação da flotilha por Israel, incluindo Roma, Londres, Bruxelas, Istambul, Atenas e Buenos Aires. O maior sindicato da Itália convocou uma greve geral de um dia para esta sexta-feira, 3 de outubro. O sindicato convocou trabalhadores e estudantes a bloquearem a produção, o transporte, as escolas e os serviços em protesto contra o que chamou de “crime de guerra” e a cumplicidade ocidental, incluindo a venda de armas da Itália a Israel.

Líderes mundiais condenaram Israel pela interceptação da flotilha. O Ministério das Relações Exteriores da Turquia a descreveu como “ato de terrorismo” e uma grave violação do direito internacional. O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, a considerou uma “grave ofensa” contra “a solidariedade e o sentimento global que visa aliviar o sofrimento em Gaza”. O presidente colombiano Gustavo Petro anunciou que seu governo expulsaria a delegação diplomática israelense e encerraria um acordo de livre comércio com Israel. A Espanha convocou o principal representante de Israel em Madri.

De acordo com a agência EFE, além de brasileiras e brasileiros foram sequestradas por Israel e permanecem detidas pelo menos 40 pessoas de nacionalidade espanhola, 35 italianos, 32 turcos, 31 franceses, 25 tunisianos, 21 malaios e 20 norte-americanos, além de outras de nacionalidades britânica, alemã, mexicana, colombiana etc.

Mohammed al-Hindi, secretário-geral adjunto da Jihad Islâmica Palestina, condenou a interceptação israelense da GSF, rejeitando as alegações israelenses de que a flotilha é financiada pelo Hamas. Al-Hindi afirmou ainda, em entrevista à Al Jazeera Mubasher, que a promessa israelense de repassar, a partir de Ashdod, a ajuda humanitária transportada pelas embarcações apreendidas é “uma mentira”, observando que milhares de caminhões de ajuda humanitária permanecem bloqueados em Rafah enquanto a população de Gaza enfrenta fome em massa.

(Esta matéria consolida informações publicadas por Drop Site News, El País, Agência EFE e notas emitidas pela GSF.)

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