Em fevereiro de 2024, pouco mais de três meses após o início da guerra de Israel contra Gaza, o embaixador dos EUA em Israel, Jack Lew, e sua vice, Stephanie Hallett, bloquearam um telegrama interno destinado à ampla distribuição entre altos funcionários do governo Biden. O telegrama alertava que o norte de Gaza havia se transformado em um “deserto apocalíptico”, segundo a Reuters. Lew e Hallett teriam bloqueado o telegrama, que descrevia as consequências do ataque israelense em detalhes angustiantes, por acreditarem que ele carecia de equilíbrio.
O telegrama foi redigido por funcionários da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e baseou-se em uma missão humanitária de apuração de fatos, dividida em duas partes, realizada por uma pequena equipe das Nações Unidas que visitou a região em 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2024.
Eu fiz parte dessa missão.
O norte da Faixa de Gaza esteve sob cerco total por mais de três meses, até que finalmente nos foi permitido entrar em janeiro de 2024. Passamos pela Cidade de Gaza, Beit Lahia, Jabaliya e Beit Hanoun.
O que encontramos foi um horizonte infinito de destruição. As pessoas viviam sob lonas plásticas ou nos escombros de prédios. Escolas haviam sido destruídas. Em algumas partes de Beit Hanoun, toda a área havia sido despovoada e devastada. Havia uma escassez mortal de água potável, alimentos e acesso a serviços de saúde.
A fome em massa já havia se instalado. Todos com quem conversávamos nos pediam comida. As pessoas nos faziam gestos na rua, pedindo algo para comer. As autoridades israelenses continuavam a negar a entrada de quaisquer suprimentos, apesar de nossos alertas sobre as condições mortais.
Encontramos corpos de pessoas que foram mortas por se aproximarem demais dos postos de controle israelenses. Seus restos mortais estavam sendo devorados por gatos e cachorros. Em uma parede que ainda estava de pé na casa destruída de alguém, encontramos a palavra “Vingança” pichada em hebraico, com a data de 7 de outubro de 2023 escrita abaixo.
O objetivo de uma missão de apuração de fatos como esta é relatar a situação humanitária no terreno. A meta é refletir a realidade com precisão, não buscar equilíbrio político. As imagens que capturei durante essa viagem são evidências cruas das condições no norte de Gaza naquela época. Algumas, que mostram corpos deixados para se decompor a céu aberto, são tão horríveis que não podem ser exibidas. Uma seleção delas está sendo publicada aqui pela primeira vez. Muitas dessas cenas já haviam sido registradas por jornalistas palestinos, mas também foram descartadas como tendenciosas.
Quase exatamente dois anos depois, a situação piorou consideravelmente. O ataque israelense destruiu, arrasou e esvaziou ainda mais o norte de Gaza — a ONU estima que mais de 81% de todos os edifícios na Faixa de Gaza foram destruídos ou danificados. Grande parte do pouco que é mostrado aqui já não existe mais.
*Jonathan Whittall é analista político e profissional humanitário com duas décadas de experiência em emergências com Médicos Sem Fronteiras e a ONU. Atualmente é diretor executivo da Keys Initiative.
Ele também é o autor de todas as imagens que ilustram a matéria, publicada em 2 de fevereiro último em inglês, na Drop Site News (confira aqui).











