Para discutir uma realidade cada dia mais presente no ambiente de trabalho da categoria, o Sindicato dos Jornalistas (SJSP) realizou, na noite de quarta-feira (6), o debate “Jornalistas sofrem assédio. Por quê?” com as pesquisadoras Maria Maeno e Daniela Sanches. Organizado pelo Grupo de Trabalho de combate ao assédio do SJSP, o evento é o primeiro de uma série que fornecerá subsídios para a construção de uma cartilha especifica da categoria.
Foi uma hora e meia de muita informação e reflexão. Solange Santana, secretária das Regionais e da coordenação do GT de combate ao assédio do SJSP, mediou o debate e iniciou justificando o tema: “Vinculado às condições de trabalho, cada dia mais precarizadas em decorrência do modelo econômico neoliberal, para o qual, no Brasil, colaborou a famigerada Reforma Trabalhista, o assédio virou rotina para a classe trabalhadora, incluindo a nossa categoria”.
Exploração pelas big techs
O presidente do SJSP, Thiago Tanji, inseriu o tema no contexto global afirmando que, no mundo todo, o modelo empresarial do jornalismo vive transformações profundas, que se reverbera na nossa profissão. Ele explicou o impacto direto da ascensão das plataformas digitais e da drenagem das verbas publicitárias das empresas para as chamadas big techs: “As plataformas utilizam o conteúdo jornalístico sem remunerar o jornalista trazendo, como consequência, demissões em massa, precarização, salários reduzidos e crescente de pressão no nosso trabalho”.
Adoecimento
Maria Maeno, pesquisadora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), mestra e doutora pela Faculdade de Saúde Pública da USP, acha que o que o público, em geral, vê a profissão de jornalista envolvida em glamour, sem saber o real dia a dia das(os) profissionais e ressalta que a multifuncionalidade exigida pelas empresas, impondo produção para diferentes plataformas, leva profissionais “a uma grande sobrecarga física, emocional, cognitiva. Isso faz com que as pessoas entrem em exaustão, que às vezes se expressa no adoecimento”.
Dores generalizadas, Burnout, distúrbios digestivos, cardíacos e neurológicos, depressão, síndrome do pânico, suicídio. É longa a lista de danos à saúde e à vida decorrentes do assédio no ambiente de trabalho, muitas vezes praticadas utilizando de machismo, racismo, etarismo, preconceito de gênero, etc
Na tela do debate foi colocado do QR Code de pesquisa da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por meio da Secretaria de Saúde e Segurança, em parceria com a Fundacentro e Ministério do Trabalho e Emprego, com apoio do Ministério Público do Trabalho. Veja aqui.
Assédio é ferramenta de gestão
Daniela Sanches, tecnologista da Fundacentro, mestra e doutora em Saúde Pública da USP, afirmou que o assédio é uma ferramenta de gestão: “Quando se fala de assédio moral, de forma geral focamos no modo de organizar o trabalho, pelo império da gestão, a partir de indicadores financeiros, que despreza todo o resto”.
Daniela associa o assédio especificamente no ambiente jornalístico à ascensão do fascismo das relações autoritárias na nossa sociedade. “Acho que esse debate ele é fundamental para os jornalistas, mas também é importante para toda a sociedade porque diz respeito a ameaças à democracia e às nossas instituições”.
Formas de combate
O debate – cuja íntegra está disponível no Youtube– abordou diversos recursos e ações que podem contribuir para a luta contra o assédio no ambiente de trabalho, com a inclusão, em acordos e convenções coletivas, de cláusulas que sejam mecanismos de prevenção e enfrentamento nas empresas.
Outra forma direta é a utilização do Canal de Denúncias do SJSP, no site sjsp.org.br. Totalmente seguro e sigiloso, é um apoio importante para as/os jornalistas, que não devem aceitar ou naturalizar o assédio. Acesse o formulário aqui.
Outras medidas foram discutidas para fortalecer a luta em âmbito jurídico e institucional, como ampliar diálogo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o engajamento pela ratificação, no Brasil, da Convenção OIT 190.
Convenção OIT 190
A Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) define a violência e o assédio no mundo do trabalho como um “conjunto de comportamentos e práticas inaceitáveis” e prevê uma série de medidas a serem implementadas pelos países signatários.
Em 8 de março de 2023, o presidente Lula encaminhou o pedido ao Congresso para que o País ratifique a convenção.
Passados quase dois anos e meio, a C190, que tramita como Proposta de Emenda à Constituição (PEC), ainda aguarda apreciação na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, cuja relatoria é do deputado André Fernandes (PL-CE)… Certamente um dos desafios para o movimento sindical é pressionar para que seja aprovada logo.
Veja o debate na íntegra:


