“A verdade sob os escombros: a mídia em tempos de genocídio”

Francesca Albanese*

Os autores e os facilitadores de genocídios costumam tentar influir na forma como se percebe e se recorda a destruição. Entre os meios utilizados para isso figuram a eliminação de quem é testemunha, a incitação da violência por meio de meios de comunicação “afins” e o uso de sistemas de informação para proteger aos autores. Na Palestina, esses elementos aparecem como aspectos interrelacionados de um prolongado projeto colonial, cuja atual fase genocida intensificou a guerra tanto contra os meios de comunicação, como por intermédio deles.

Ao não poder aceder ao território palestino ocupado, a Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967, Francesca Albanese, baseou-se neste informe em fontes primárias e públicas, consultas con sobreviventes e especialistas, e em 89 comunicações escritas recebidas em resposta a seu chamamento a contribuições. Dessas, 62 examinam padrões recorrentes nos ecossistemas midiáticos de Europa, América do Norte e Austrália.

Em vez de focar em meios declaradamente partidários ou propagandísticos, o  presente informe analisa uma seleção de organizações de meios de comunicação amplamente consideradas autorizadas e influentes para moldar a opinião pública e a formulação de políticas. Foram as que com maior frequência se assinalaram nas contribuições recibidas e foram objeto de críticas por parte do público e de jornalistas devido à sua cobertura da Palestina. Somente 3 das 12 organizações contatadas responderam às solicitações de comentários.

Francesca Albanese, relatora especial da ONU para a Palestina (foto: OCHA)
Francesca Albanese, relatora especial da ONU para a Palestina (foto: OCHA)

O informe examina três padrões que se reforçam mutuamente, a saber:

a) Os ataques sistemáticos contra os trabalhadores dos meios de comunicação palestinos e contra a infraestrutura dos meios de comunicação e das telecomunicações, no conflito mais letal jamais registrado para os jornalistas. Centenas de jornalistas, [inclusive] repórteres-fotográficos, repórteres-cinematográficos, bem como editores de imagens e outros trabalhadores foram assassinados, feridos, detidos arbitrariamente, torturados, intimidados e difamados como ‘terroristas’ enquanto documentavam a destruição de sua própria sociedade. Sua eliminação privou o mundo, progressivamente, de seus principais testemunhas. Nas palavras de um soldado israelense: “Quem escreve um artigo ou trabalha com um computador portátil é como alguém que carrega um fuzil Kalashnikov e nos ataca”.

b) A arquitetura israelense mais ampla de controle da informação, composta pela censura, as restrições de acesso, as campanhas coordenadas de meios de comunicação e publicidade, e o papel que desempenham determinados setores dos meios de comunicação israelenses na normalização e promoção do ódio, da incitação ao genocídio e do negacionismo;

c) O papel de influentes meios de comunicação internacionais e plataformas digitais no sentido de reproduzir as narrativas israelenses, marginalizar as vozes palestinas, desumanizar os palestinos, silenciar las críticas legítimas a Israel e ignorar as realidades jurídicas com a finalidade de ocultar ou legitimar condutas que constituem genocídio.

Consideradas conjuntamente, estas práticas constituem um ataque à verdade que está intrínsecamente ligado à violência genocidaLeia aqui a íntegra do relatório que pretendem ocultar. A eliminação de testemunhas, a supressão da liberdade de expressão e o abandono de princípios fundamentais da ética jornalística podem constituir, en muitos sentidos, un “midiacídio”, isto é: a destruição sistemática da função pública dos meios de comunicação.

A Relatora Especial assinala que os jornalistas palestinos suportaram os mesmos bombardeios, deslocamentos, fome e esgotamento que a população cuja experiência documentam. Muitos deles transmitem agora seus relatos a partir de tendas de campanha; alguns desmaiaram “ao vivo” durante suas transmissões, devido à fome e ao estresse. Não obstante, continuam dando testemunho. Na medida em que o jornalismo profissional foi sendo progressivamente aniquilado, palestinos comuns assumiram essa responsabilidade, decididos a não permitir que seu povo desapareça. Cada imagem, cada fragmento de vídeo e cada testemunho saído de Gaza constitui um ato de resistência frente à opressão colonial.

*Francesca Albanese é a Relatora Especial da ONU sobre a situação dos Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados e este texto é a introdução de seu relatório sobre a atuação da mídia frente ao genocídio em Gaza, divulgado em 9 de outubro de 2026. Leia aqui a íntegra do relatório no site da ONU. Há versões disponíveis em árabe, espanhol, chinês, inglês, francês e russo.


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