Logo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo
Logo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
Logo da Federação Internacional de Jornalistas
Logo da Central Única dos Trabalhadores
Logo da Federação Nacional de Jornalistas

Em novo ataque a Gaza, Israel mata o filho do líder do Hamas, Khalil al-Hayya, e outros oito civis; nas negociações do “Conselho de Paz”, EUA pressionam  para desarmar a resistência palestina

Abdel Qader Sabbah, Sharif Abdel Kouddous e Jawa Ahmad (Drop Site News)*

No dia 7 de maio, quinta-feira, famílias palestinas lamentavam-se em luto do lado de fora do necrotério do Hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza, em uma cena infelizmente comum, enquanto aguardavam para receber os corpos de seus entes queridos mortos em ataques israelenses na véspera. Entre os mortos estava Azzam al-Hayya, filho do líder do Hamas em Gaza, Khalil al-Hayya.

Azzam al-Hayya foi gravemente ferido em um ataque aéreo de Israel ao bairro de Al-Daraj, na zona leste da Cidade de Gaza, na noite de 6 de maio. Ele foi levado ao Hospital al-Shifa para cirurgia, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu na manhã seguinte. O corpo de Azzam saiu do necrotério do al-Shifa envolto em um sudário branco, enquanto multidões cantavam cânticos em homenagem ao seu martírio e marchavam pelas ruas.

“Ele estava na mesquita, a caminho de casa, e foi atacado”, disse Abu Sharif al-Hayya, irmão de Khalil al-Hayya, ao Drop Site News, enquanto estava em frente ao al-Shifa na quinta-feira. “Ele não é o primeiro da família, nem o último — nem o primeiro nem o último do povo palestino; todo o povo palestino se sacrificou”.

Azzam al-Hayya é o quarto filho de Khalil al-Hayya, que tem sete filhos, a ser morto por Israel. Khalil al-Hayya, principal negociador do Hamas, sobreviveu a múltiplas tentativas de assassinato cometidas por Israel. Outro filho foi morto em um ataque israelense em Doha, no Catar, no ano passado, que teve como alvo a liderança do Hamas enquanto se reuniam para negociações de cessar-fogo. Tentativas de assassinato israelenses em Gaza mataram outros dois filhos em 2008 e 2014.

Dois dos netos de Al-Hayya, de oito e dois anos de idade, também foram mortos em um ataque em abril de 2025 a uma escola que abrigava famílias deslocadas na Cidade de Gaza, que deixou mais de 35 mortos. “Esses sionistas estão nos atacando porque não há nada que os dissuada. Eles não respondem a negociações, nem a nada”, disse Abu Sharif al-Hayya, que perdeu três filhos em ataques israelenses.

Azzam al-Hayya foi um dos nove palestinos, incluindo uma criança, mortos na quarta-feira em múltiplos ataques israelenses em todo o enclave. Outros três palestinos, integrantes da força policial civil em Gaza, foram mortos na quinta-feira em ataques com drones, enquanto o Exército de Israel intensificou os ataques em Gaza nas últimas semanas, em um momento em que a atenção mundial se concentrou na guerra com o Irã e no ataque de Israel ao Líbano.

Logo após saber do ataque, mas antes do anúncio da morte de seu filho, Khalil al-Hayya disse à Al Jazeera: “Nossos filhos são filhos do povo palestino. Meu filho e os filhos dos outros são todos filhos do nosso povo, sem distinção, e nossos sentimentos por eles são os mesmos”. Mais de 840 palestinos foram mortos e mais de 2.400 ficaram feridos em Gaza desde que Israel assinou um acordo de cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, há quase sete meses.

“O inimigo sionista acostumou-se a negociar com palestinos e não palestinos através do fogo”, disse Khalil al-Hayya em declarações transmitidas na quinta-feira. “Este ataque ocorrido ontem foi uma extensão do ataque do inimigo sionista contra a delegação de negociação no Catar no ano passado, em 9 de setembro, e ocorre no mesmo contexto. Negociamos em nome do nosso povo e em nome da nossa resistência, de uma forma que alcance os objetivos do nosso povo”, prosseguiu. “Se o inimigo sionista pensa que, atacando líderes, ou atacando seus filhos e famílias, pode extrair de nós o que não queremos e alcançar, através de assassinatos e terrorismo, o que deseja, então digo que isso é uma ilusão e impossível de se alcançar nestas circunstâncias”.

Israel cria “Linha Laranja” e controla hoje 61% do território de Gaza

Os ataques ocorreram enquanto líderes do Hamas e de outras facções palestinas se reuniam nesta semana no Cairo para conversas com mediadores regionais e o Alto Representante do Conselho de Paz de Donald Trump, Nickolay Mladenov. Israel e EUA têm exigido o desarmamento total e unilateral do Hamas como suposta condição prévia para o prosseguimento das negociações de cessar-fogo, sem qualquer garantia ou cronograma para a retirada israelense.

Após o acordo de outubro de 2025, as tropas israelenses recuaram para a “Linha Amarela”, ocupando mais de 50% de Gaza. Além da gradual expansão das tropas israelenses para leste da Linha Amarela, o Exército israelense divulgou discretamente novos mapas de Gaza em março, segundo a Reuters. Os novos mapas israelenses indicam uma “Linha Laranja” adicional, demarcando uma área restrita ampliada que corresponde a cerca de 11% do território de Gaza além da Linha Amarela, mostrando Israel controlando efetivamente quase dois terços de Gaza.

Apesar de Israel violar o cessar-fogo diariamente desde o acordo de outubro de 2025 — com ataques quase diários; severas restrições à ajuda humanitária, materiais de reconstrução e itens essenciais à vida; e a abertura extremamente limitada da passagem de fronteira de Rafah — o Conselho de Paz informou ao Hamas que não pretende exigir que Israel cumpra os termos do chamado cessar-fogo se o Hamas não aceitar sua proposta de desarmamento.

“O não cumprimento do acordo proposto pelo Hamas dentro de um prazo razoável, conforme determinado pelo Conselho de Paz e após consulta às partes, tornará tais compromissos nulos e sem efeito”, dizia uma carta enviada em abril por Mladenov e Aryeh Lightstone, um funcionário do Departamento de Estado nomeado como conselheiro sênior do Conselho de Paz, a Ali Shaath, chefe do comitê tecnocrático palestino, segundo o jornal Times of Israel.

Lightstone foi uma figura chave nos Acordos de Abraão de 2020, que normalizaram as relações diplomáticas, econômicas e de segurança entre Israel e vários países árabes, principalmente os Emirados Árabes Unidos. Lightstone também desempenhou um papel central no avanço da Fundação Humanitária de Gaza (GHF), o grupo apoiado pelos EUA e por Israel que supervisionou a chamada distribuição de ajuda humanitária em Gaza no ano passado, quando mais de 2.600 palestinos foram mortos enquanto tentavam obter alimentos nos pontos de distribuição da GHF.

O Hamas tem afirmado consistentemente que qualquer discussão sobre as armas em poder da resistência palestina só poderá começar após a implementação da primeira fase do acordo. Embora o Hamas tenha rejeitado os apelos ao desarmamento, a menos que uma força armada palestina capaz de defender a população seja estabelecida, também afirmou que respeitará a autoridade de um órgão governamental palestino e concordará que nenhuma arma deve estar nas ruas, exceto aquelas autorizadas por essa autoridade.

“O que impede a transição para a segunda fase é a falha do inimigo sionista em cumprir os detalhes da primeira fase”, disse Khalil al-Hayya em entrevista à Al-Jazeera. “Informamos os mediadores e informamos Mladenov diretamente — reunimo-nos com ele repetidamente — e dissemos-lhes: ‘Implementem a primeira fase e estaremos prontos para prosseguir para a segunda fase em todos os sentidos’”.

Além dos contínuos ataques israelenses, Gaza enfrenta um “apocalipse ambiental e biológico” iminente, impulsionado pelo colapso sistêmico da infraestrutura como resultado do bloqueio israelense em curso, segundo Eyad Amawi, integrante do Comitê de Ajuda a Gaza. Um relatório recente, baseado em dados da ONU e de outras organizações humanitárias, compartilhado por Amawi, constatou que 97% da água subterrânea em Gaza é imprópria para consumo, enquanto o acesso à água caiu para apenas 3 a 5 litros por pessoa por dia, alimentando quase meio milhão de casos de diarreia aguda, muitos deles entre crianças. Cerca de 500 mil toneladas de lixo agora cobrem os locais de deslocamento, 80% dos quais estão infestados por ratos transmissores de doenças; 71% das usinas de dessalinização e 80% da infraestrutura hídrica foram destruídas.

Nesta quinta-feira, 7 de maio, o Ministério da Saúde alertou para uma grave escassez de suprimentos médicos em Gaza, com os estoques de alguns medicamentos essenciais e materiais de laboratório zerados, enquanto Israel continua a restringir severamente a entrada de suprimentos. Segundo o Ministério, 47% dos medicamentos essenciais e 87% dos materiais para testes laboratoriais estão completamente indisponíveis.

Ao se preparar para o enterro de seu sobrinho na quinta-feira, Abu Sharif al-Hayya adotou um tom desafiador. “Somos firmes em nossa terra. Ou a morte — o martírio — ou nossa pátria”, disse ele. “Não entregaremos nossa pátria. Nem a abandonaremos.”

*Publicado em inglês na edição de 7 de maio da Drop Site News (disponível aqui).

veja também

relacionadas

mais lidas

Acessar o conteúdo