A conhecida organização de direitos humanos israelense B’Tselem divulgou em janeiro de 2026 o relatório “Inferno na Terra”, que define o sistema prisional israelense como “uma rede de campos de tortura”. “Inferno na Terra” dá sequência ao relatório “Bem-vindo ao Inferno”, publicado pela B’Tselem em agosto de 2024.
Baseando-se na extensa pesquisa e análise realizadas para o relatório anterior, este apresenta dados atualizados e novos depoimentos de 21 palestinos libertados de prisões israelenses nos últimos meses, além de utilizar informações de outras organizações israelenses e internacionais de direitos humanos. “As informações atualizadas indicam que as prisões israelenses continuam a funcionar como uma rede de campos de tortura para palestinos, com abusos sistemáticos ainda mais disseminados do que antes”, destaca a apresentação do relatório.
“Isso inclui abusos físicos e psicológicos, condições desumanas, privação deliberada de alimentos e negação de assistência médica, o que resultou em inúmeras mortes. Algumas testemunhas também descreveram ter sofrido ou presenciado violência e abuso sexual”. A transformação das prisões em uma rede de campos de tortura, diz a B’Tselem, faz parte do ataque coordenado do regime israelense contra a sociedade palestina, com o objetivo de desmantelar o coletivo palestino.
A transformação das prisões israelenses em campos de tortura para detentos palestinos deve ser compreendida no contexto do ataque coordenado de Israel contra os palestinos como um coletivo desde outubro de 2023, principalmente por meio do genocídio em curso em Gaza. Os fundamentos do regime moldado desde a criação do Estado de Israel, que permitem o genocídio em Gaza, a violência desenfreada e a limpeza étnica na Cisjordânia e a perseguição de cidadãos palestinos de Israel, também moldam o tratamento dos prisioneiros. Em primeiro lugar está a desumanização dos palestinos como grupo e o emprego de violência extrema contra eles (para mais informações, consulte o relatório de julho de 2025 da B’Tselem, “Nosso Genocídio”).
O novo relatório “Inferno na Terra” revisita as categorias de abuso listadas no relatório original, usando-as para avaliar a situação atual e quaisquer novos desenvolvimentos. “A atualização se baseia em 21 depoimentos prestados à B’Tselem por palestinos libertados sob o acordo entre Israel e o Hamas em outubro de 2025 ou nos meses anteriores. Muitos prisioneiros libertados têm muito medo de prestar depoimento, pois — de acordo com as testemunhas com quem conversamos — as autoridades israelenses ameaçaram prender novamente qualquer pessoa que compartilhe informações sobre suas experiências na prisão. As ameaças foram feitas tanto antes quanto depois da libertação dos prisioneiros, ilustrando como Israel usa a privação de liberdade como um meio fundamental de oprimir os palestinos”.
Esses esforços para silenciar os prisioneiros libertados são uma característica de uma política multifacetada, liderada pelo regime de apartheid de Israel, para desumanizar os palestinos e negar sua humanidade como um coletivo, seja por meio de encarceramento e tortura ou por meio de intimidação, repressão política e censura. A presente atualização também se baseia em diversas outras fontes, incluindo pesquisas e relatórios recentes de organizações de direitos humanos que monitoram regularmente as condições nas prisões israelenses, reportagens da mídia, dados do Serviço Prisional de Israel (IPS) e materiais apresentados em petições ao Supremo Tribunal de Justiça de Israel.
Todas as descobertas, em conjunto, levam a uma conclusão inequívoca: Israel continua sua política sistêmica e institucionalizada de tortura e abuso de prisioneiros palestinos, aprovada e apoiada pelo sistema político, pelo sistema judiciário, pela mídia e, é claro, pelas próprias autoridades prisionais, que se vangloriam abertamente das condições de tortura em que os detentos palestinos são mantidos.
84 prisioneiros e detidos palestinos (incluindo um menor) cujas identidades são conhecidas morreram em prisões ou centros de detenção israelenses. Organizações de direitos humanos e outros meios de comunicação relataram um número ainda maior – pelo menos 94 mortes, incluindo algumas cujas identidades são desconhecidas. Em agosto de 2025, pelo menos seis palestinos haviam morrido durante interrogatórios do ISA (Shin Bet).
Testemunhos de ex-presidiários indicam um grave padrão de violência sexual em centros de detenção e prisões, que varia de ameaças de agressão sexual, através de desnudamento forçado, até agressões sexuais reais. Estas incluem espancamentos nos genitais que causaram ferimentos graves, uso de cães contra os presos e penetração anal forçada com diversos objetos.
Os detidos e prisioneiros continuam a ser sujeitos a violência e abusos frequentes, institucionalizados e organizados, incluindo choques elétricos, uso de gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral, queimaduras por meio do apagamento de cigarros em seus corpos ou derramamento de líquidos ferventes sobre eles, disparos de balas de metal revestidas de borracha, espancamentos com cassetetes e o uso de cães contra eles.
As condições de vida dos prisioneiros e detidos continuam desumanas, incluindo superlotação extrema, uso de algemas por períodos prolongados e negação de contato com o mundo exterior, bem como fome deliberada, alimentos de má qualidade e negação de higiene básica, como banhos, roupas limpas e água potável. As condições na Ala Rakefet da Prisão de Ayalon (Ramla), que é inteiramente subterrânea, são particularmente severas.
A recusa de cuidados médicos continua a servir como um método de tortura em si, levando a danos irreversíveis que variam de amputações de membros à perda de audição e visão, e até casos de morte. A sarna, uma doença de pele, é particularmente desenfreada, pois não é tratada adequadamente e continua a se espalhar pelas instalações.
O regime israelense classificou 10.863 palestinos detidos pela IPS até setembro de 2025 como “prisioneiros de segurança”. Destes, 7.425 eram residentes da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental; 2.931 eram residentes da Faixa de Gaza; e 507 eram cidadãos de Israel.
Entre esses detentos, 3.521 eram definidos como “prisioneiros administrativos”, ou seja são palestinos aprisionados por Israel sem julgamento e sem a possibilidade de apresentar defesa contra qualquer acusação. Outros 1.492 foram classificados como “condenados por questões de segurança” — palestinos sentenciados, cumprindo pena de prisão determinada por tribunais. Outros 2.623 eram designados “combatentes ilegais”, mantidos presos sem julgamento. Por fim, havia 3.227 “detidos por questões de segurança”, alvo de processos judiciais em andamento mas ainda sem sentença.
Do total de prisioneiros, 350 eram menores de idade e havia 48 mulheres palestinas, informa o relatório “Inferno na Terra” com base nos informes da IPS.
Em outubro de 2025, em decorrência do acordo de “cessar-fogo” entre Israel e Hamas patrocinado pelos EUA, foram libertados cerca de 2 mil prisioneiros palestinos, entre os quais 1.700 adultos e 22 menores de idade que haviam sido aprisionados na Faixa de Gaza.
“Assim, mesmo após o acordo, o número de prisioneiros palestinos detidos em Israel ainda é significativamente maior do que antes da guerra: estima-se que seja em torno de 9.000 (no final de setembro de 2023, o número total de prisioneiros palestinos da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, e da Faixa de Gaza era de 4.935)”.


