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Israel está proibindo a entrada das “últimas testemunhas estrangeiras” do genocídio

Diana Buttu/Zeteo*

É o que eu chamo de “morte por mil cortes”: a maneira lenta, metódica e burocrática de matar ou destruir algo que o governo israelense aperfeiçoou ao longo das décadas. Sempre há uma falsa justificativa de segurança, mas o verdadeiro motivo é controlar a vida palestina, tornar a vida impossível, para, por fim, nos eliminar.

Observamos esse padrão há décadas, não apenas na forma como Israel tenta roubar terras, instalar postos de controle ou destruir nossas casas, mas também nas maneiras como tenta controlar o trabalho de organizações não governamentais palestinas e internacionais. Portanto, não é de todo surpreendente que Israel tenha efetivamente proibido dezenas de organizações não governamentais internacionais (ONGs) que atuam na Palestina. É um golpe fatal e mortal — foi planejado e nós o previmos. No entanto, a indignação dos governos estrangeiros que abrigam esses grupos de ajuda essenciais tem sido mínima, na melhor das hipóteses.

Há pelo menos uma década, organizações da sociedade civil palestina vêm documentando o que chamam de “espaço cada vez menor” em que podem operar, semelhante ao “espaço cada vez menor” em que os palestinos vivem. ONGs palestinas foram rotuladas de organizações “terroristas” por Israel por atividades como defender crianças palestinas da prisão. Mais recentemente, os Estados Unidos impuseram sanções a três ONGs palestinas simplesmente por pressionarem para que Israel seja responsabilizado perante o Tribunal Penal Internacional. Entidades apoiadas por Israel, como a NGO Monitor, passaram mais de duas décadas perseguindo funcionários de ONGs palestinas, atacando-os nas redes sociais e redigindo relatórios (distorcidos) para conseguir demissões ou o corte de financiamento dessas organizações. Esses ataques têm como alvo ONGs palestinas em toda a Palestina — seja na Cisjordânia, em Jerusalém, em Gaza ou mesmo na Palestina de 1948.

Nos últimos dois anos, Israel (e os EUA) têm atacado a agência da ONU para refugiados palestinos, a UNRWA. E agora, Israel está atacando ONGs internacionais — efetivamente proibindo 37 grupos, incluindo Médicos Sem Fronteiras, Conselho Norueguês para Refugiados, Comitê Internacional de Resgate, Mercy Corps, World Vision e Handicap International, de operar na devastada Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Em 30 de dezembro de 2025, Israel emitiu notificações a essas 37 ONGs, informando-as de que seus registros expirariam no dia seguinte e dando-lhes 60 dias para “cessar as operações” na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Por quê? Porque Israel quer garantir que não haja testemunhas ou críticos estrangeiros para o seu (contínuo) genocídio em Gaza e seus ataques na Cisjordânia, e está registrando apenas as ONGs que não fazem críticas a Israel — em nenhum aspecto.

De acordo com essas novas regulamentações, as ONGs internacionais devem fornecer a Israel todos os dados sobre seus funcionários palestinos e internacionais, violando diversas leis europeias de privacidade às quais muitas dessas organizações estão sujeitas e colocando esses palestinos em risco, visto que Israel matou mais de 500 trabalhadores humanitários desde 7 de outubro. Além disso — e acredite — o ministério negará o registro se a organização (incluindo qualquer dirigente, sócio, membro do conselho ou fundador) ou qualquer funcionário: (1) não reconhecer Israel como um “Estado judeu e democrático”; (2) tiver incitado um boicote a Israel nos últimos sete anos; (3) tiver promovido campanhas de “deslegitimação” (indefinidas) contra Israel; ou (4) tiver manifestado apoio a processos judiciais contra cidadãos israelenses em um país estrangeiro ou perante um tribunal internacional por crimes de guerra.

O interessante é que, embora Israel esteja se esforçando muito para alegar que se trata de “segurança”, não está conseguindo convencer o público disso. Aliás, se você quiser saber do que se trata, basta olhar o nome do ministério israelense que está proibindo essas ONGs humanitárias: o Ministério da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo.

Como você já deve saber, segundo Israel, qualquer crítica a este Estado racista, fascista e genocida de apartheid equivale a antissemitismo. Portanto, é natural que o ministério criado para combater isso esteja focado, de forma míope, em esmagar organizações que fornecem água potável para famílias em Gaza (após Israel bombardear a infraestrutura de água e saneamento), ou aquelas que fornecem farinha para padarias (após Israel passar quase dois anos matando palestinos de fome), ou aquelas que prestam assistência médica e enviam médicos (após Israel bombardear todos os 36 hospitais de Gaza e matar muitos médicos especialistas), ou aquelas que garantem que as crianças possam continuar seus estudos (apesar de Israel ter bombardeado suas escolas e matado seus professores), ou os grupos que fornecem a grande maioria dos abrigos na Faixa de Gaza (após Israel bombardear e demolir sistematicamente mais de 90% das residências). Usando a lógica de Israel, faz sentido negar próteses a crianças em Gaza, porque isso é combater o antissemitismo.

As “últimas testemunhas estrangeiras”

Conversei com vários funcionários de ONGs internacionais e muitos temiam ser citados nesta matéria. Eles temem por seus colegas palestinos, cujas vidas continuarão em risco, e temem nunca mais poder retornar à Palestina. Um desses trabalhadores humanitários me disse:

Não me surpreende que os israelenses tenham feito isso, porque vimos a direção que este país tomou. Eles já proibiram a entrada de jornalistas estrangeiros, e os trabalhadores humanitários são agora as últimas testemunhas estrangeiras. As organizações que representamos foram as que pediram um cessar-fogo, que pediram a proteção de civis e que pediram responsabilização. É isso que os trabalhadores humanitários fazem. Israel pensa que, ao nos remover, pode acabar com o nosso ativismo, mas, ironicamente, não vai conseguir.”

Aliás, esta não é a primeira vez que ONGs internacionais são barradas por Israel: em 2019, Israel revogou o visto de trabalho de Omar Shakir, da Human Rights Watch (HRW), sob a alegação de que ele havia incitado um boicote a Israel quando era estudante e parecia estar fazendo o mesmo enquanto trabalhava para a HRW. O objetivo, então, era claro: silenciar os críticos de Israel. Naquela época, poucos acreditavam que Israel imporia essa medida a todas as ONGs.

Quando Omar foi deportado, diplomatas estrangeiros emitiram declarações tímidas condenando sua expulsão — mas foi só isso. Avançando para os dias de hoje, aqui estamos nós — as mesmas declarações diplomáticas vazias e tímidas expressando “preocupação” com as ações de Israel, mas sem fazer nada para impedi-lo. Os ministros das Relações Exteriores do Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Japão, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido chegaram a expressar “sérias preocupações” e classificaram a situação como “inaceitável”. Nossa! Isso certamente assustará Israel. Não me surpreenderia se esses mesmos países pressionassem as ONGs a fazerem de tudo para apaziguar um Israel inabalável, em vez de pressionar Israel a parar de apertar o cerco em torno dos palestinos.

Pela lógica de Israel, os palestinos têm o direito de receber ajuda (às vezes) e deveriam ser gratos a Israel por nos permitir viver. Mas se alguém ousar se manifestar, isso, segundo a lógica falha de Israel, é simplesmente errado. Mas isso não contradiz a lógica da ajuda humanitária? Não é função dos trabalhadores humanitários destacar por que a ajuda humanitária é necessária para garantir que esses sistemas falidos sejam consertados? Por que nós, palestinos, precisaríamos de ajuda se Israel não estivesse tentando de tudo para nos eliminar da face da Terra? E qual “democracia” se sentiria tão ameaçada a ponto de exigir que trabalhadores humanitários jurassem lealdade, prometendo nunca pedir a punição de criminosos? Apenas as genocidas, suponho.


*Publicado originalmente em inglês, em 7 de janeiro de 2026, no site Zeteo. Diana Buttu é advogada e analista radicada em Haifa. É autora do livro Diário de uma Palestina em Israel.

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