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Auditório Vladimir Herzog é palco de ato histórico por memória, justiça e democracia

Juliana Almeida - SJSP

Na noite da última sexta-feira, 27 de junho, data em que o jornalista Vladimir Herzog completaria 88 anos, o histórico auditório que leva seu nome, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, foi palco de um ato de homenagem repleto de emoção, memória e compromisso com a democracia.

Organizado por seis entidades — ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), Instituto Vladimir Herzog, Repórteres Sem Fronteiras e o próprio Sindicato — o encontro reuniu jornalistas, militantes e ativistas em um ato que resgatou a trajetória de Herzog e fortaleceu a resistência contra o autoritarismo.

O ato celebrou a força do manifesto histórico “Em Nome da Verdade”, publicado em 3 de fevereiro de 1976 pelo jornal O Estado de S. Paulo (e também veiculado no jornal Unidade), assinado por mais de mil jornalistas. A carta denunciava veementemente o assassinato de Herzog no DOI-CODI de São Paulo, contestando a versão oficial de suicídio apresentada pela Justiça Militar.

Naquele ano, dois dias após o assassinato de Herzog, em 27 de outubro de 1975, centenas de jornalistas se reuniram neste mesmo auditório e, com apoio de diversas entidades, promoveram o histórico culto ecumênico na Catedral da Sé em 31 de outubro — um dos primeiros grandes atos públicos contra a ditadura.

Testemunhos que marcaram o evento

O presidente do SJSP, Thiago Tanji, abriu os trabalhos falando como é impossível pensar o jornalismo brasileiro sem lembrar de Vladimir Herzog. “É com muita honra que o Sindicato dos Jornalistas recebe esse ato simbólico e histórico no auditório Vladimir Herzog, que carrega esse nome com tanto significado para a nossa categoria e para a luta por democracia no Brasil. Este é um espaço de resistência, memória e história. E hoje, mais uma vez, ele cumpre seu papel. Reunimos aqui entidades fundamentais da luta pela liberdade de imprensa para homenagear um colega cuja morte brutal escancarou as entranhas da ditadura militar e fortaleceu a mobilização da categoria.”

Rose Nogueira, jornalista e ex-colega de Herzog na TV Cultura, emocionou a todos ao lembrar a falsificação do laudo. “A Regina Passos foi até minha casa, levei um susto, ela não frequentava minha casa, não era assim. Mas chegou apavorada e falou para mim, ‘Rose, o Vlado se matou’. Eu sabia que era mentira. Ninguém se matava lá dentro. Eles o mataram.” Rose lembrou também da missa realizada por Dom Paulo Evaristo Arns que, segundo ela, “parou São Paulo e desmoralizou a ditadura”.

O filho de Vladimir, Ivo Herzog, relatou o reconhecimento oficial, por parte do Estado brasileiro, através da assinatura de acordo e pedido de desculpas em 26 de junho, reconhecendo Herzog como anistiado político — um passo ainda inicial. Ivo ainda salientou a necessidade urgente de revisão da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) sobre a Lei da Anistia, parada no STF há mais de oito anos com o relator ministro Toffoli, e declarou que “golpistas do passado e do presente devem ser devidamente investigados e punidos”.

Pedro Pomar, diretor do Sindicato, lembrou a Chacina da Lapa, em que seu avô e outros militantes foram torturados e mortos. Reafirmou ser necessário “derrubar o dispositivo infame da anistia e abrir arquivos, punir torturadores, extinguir a justiça militar e promover reforma profunda nas forças armadas”.

Alexandre Linares, da direção do Sindicato, ressaltou a figura de Roberto Elia Salomão, líder estudantil da ECA em 1975, e sublinhou que a luta por lembranças e punições deve manter viva a história de todos que desafiaram o regime.

Compromisso renovado

O ponto alto do evento foi a leitura coletiva do novo manifesto “Em nome da verdade”, redigido pela ABI, Abraji, Fenaj, Instituto Vladimir Herzog, RSF e o Sindicato. O texto traz um forte recado ao presente.

Jornalistas presentes tiveram a oportunidade de assinar o documento, reafirmando a luta contínua em um momento em que o ofício de informar enfrenta novas formas de violência: ameaças físicas, exaustão judicial, ataques virtuais e campanhas de desinformação.

Leia o manifesto abaixo.

EM NOME DA VERDADE: 50 ANOS DEPOIS

Cinquenta anos se passaram desde que Vladimir Herzog foi torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI, em um dos episódios mais brutais da história do Brasil. Naquele momento, jornalistas se uniram aqui neste auditório, em um gesto histórico e corajoso, para organizar uma grande mobilização social para exigir justiça, denunciar mentiras e reafirmar o compromisso da profissão com a verdade e os direitos humanos.

Hoje, meio século depois, nos reunimos novamente – jornalistas, comunicadores, estudantes, defensores da democracia e ativistas de direitos humanos – para lembrar Herzog e tudo o que ele representa para nós e para todo o país.

Mas não estamos aqui apenas para lembrar o passado. Estamos aqui porque o presente também exige nossa atenção. O jornalismo brasileiro atravessa um novo ciclo de ameaças. A violência física, os ataques digitais, o assédio judicial e a tentativa de deslegitimar o trabalho da imprensa, por meio da desinformação, compõem hoje o cotidiano de profissionais e ativistas da comunicação.

A liberdade de expressão e de informação jornalística, conquistada com suor e sangue, está mais uma vez em risco – não apenas por ação direta do Estado, mas por um ecossistema de ameaças múltiplas, em que o poder econômico, político e tecnológico opera muitas vezes contra a transparência, o pluralismo e o interesse público.

Não podemos ignorar que essa violência contra o jornalismo ultrapassa nossas fronteiras. Enquanto nos reunimos neste auditório, na Faixa de Gaza dezenas de jornalistas palestinos já foram assassinados em meio aos bombardeios e à ofensiva militar de Israel. A morte deliberada de jornalistas é uma das formas mais brutais de censura e um atentado direto ao direito de toda sociedade saber o que acontece. A cada profissional silenciado sob os escombros, morre um pedaço da liberdade de todos nós.

Por tudo isso, nós, jornalistas, comunicadores e defensores de direitos humanos reunidos neste auditório que carrega o nome de Vladimir Herzog, reafirmamos nosso compromisso inegociável com a verdade, com a liberdade de expressão, com o direito da sociedade à informação e com a memória de todos que sacrificaram suas próprias vidas na defesa desses princípios.

Assim como em 1975, voltamos a dizer: não aceitaremos silêncios forçados, não normalizaremos mentiras institucionalizadas, não deixaremos sozinhos os que sofrem por exercer o seu ofício com dignidade e responsabilidade. Lutaremos por estruturas de proteção, por marcos legais capazes de combater a desinformação, por melhores condições de trabalho, contra a criminalização de comunicadores populares e comunitários, e por um país – e um mundo todo – onde informar nunca seja um ato de risco.

Em nome da verdade – ontem, hoje e sempre.

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