Um dos focos do Projeto 2025, o plano patrocinado pela Heritage Foundation para o segundo mandato de Donald Trump, era colocar o ensino superior sob o controle estatal da extrema-direita. Os métodos que o governo Trump adotou para implementar esse plano já são bem conhecidos. O componente central tem sido a instrumentalização de acusações de antissemitismo contra universidades, incluindo Harvard Northwestern, Cornell, Columbia e Brown. Professores judeus reagiram veementemente a essas acusações infundadas. Apesar da reação, inclusive judicial, o governo Trump utilizou esse método para extrair centenas de milhões de dólares dessas instituições.
O Projeto 2025 tinha como alvo o credenciamento como método para colocar o ensino superior dos EUA sob o controle estatal da extrema-direita. Um painel federal foi nomeado, o Comitê Consultivo Nacional sobre Qualidade e Integridade Institucional, que emite recomendações para suspender a habilitação de organizações tradicionais de credenciamento. Nesta semana, o painel recomendou a suspensão dos poderes de credenciamento da Associação Americana de Psicologia (APA) devido à sua suposta falha em fiscalizar o antissemitismo nos programas que credencia — uma acusação da qual a APA disse discordar “veementemente”.
A tática da administração Trump de instrumentalizar acusações de antissemitismo contra universidades supostamente liberais é uma forma de exercer o controle ideológico da extrema-direita sobre as universidades. Essa tática se disseminou por todo o Ocidente, atacando partidos políticos de oposição e políticos associados ao socialismo democrático e à esquerda.
Atacar a esquerda por antissemitismo é profundamente irônico.
Tradicionalmente, a extrema-direita, incluindo Adolf Hitler e o Partido Nazista, atacava partidos políticos de esquerda e instituições democráticas por serem supostamente controlados por judeus. Agora, essas mesmas forças atacam partidos políticos de esquerda e instituições democráticas por serem “antissemitas”. E, claro, partidos e movimentos de esquerda em todo o Ocidente continuam a ter apoio e participação judaica substanciais.
Um tema central do antissemitismo de extrema-direita, que remonta a Hitler, é a ideia de que os judeus são responsáveis por trazer emigrantes não brancos para nações “brancas” para destruí-los por meio de casamentos interétnicos ou substituição. A crença da extrema-direita de que os judeus estão por trás da emigração em massa de pessoas não brancas para os países ocidentais foi fundamental para o maior massacre de judeus nos Estados Unidos: o ataque à sinagoga Tree of Life em Pittsburgh, em 2018, no qual o assassino matou 11 pessoas, culpando os judeus pela emigração em massa para os Estados Unidos. O assassino afirmou que a Sociedade de Auxílio ao Imigrante Hebreu “gosta de trazer invasores que matam nosso povo”. “Não posso ficar parado e ver meu povo ser massacrado. Dane-se a imagem pública, eu vou entrar lá”. No entanto, movimentos políticos como o trumpismo, baseados na Teoria da Grande Substituição, utilizam regularmente acusações de antissemitismo como arma, em seu arsenal contra a democracia.
Esse ataque a partidos políticos de esquerda, com acusações infundadas de antissemitismo, não começou com o atual governo Trump. Foi uma tática central no Reino Unido contra o Partido Trabalhista britânico, quando este era liderado por Jeremy Corbyn, de 2015 a 2020. E agora, após o governo Trump ter intensificado essa tática, ela é empregada contra a esquerda de forma mais ampla.
Na Alemanha, um consórcio de partidos liderado pelo tradicional partido conservador União Democrata Cristã (CDU) e pela União Social Cristã (CSU) atacou o Die Linke, partido de esquerda que acaba de vencer as eleições em Berlim, acusando-o de antissemitismo. Em um discurso proferido em setembro sobre as eleições de Berlim, o chanceler da CDU, Friedrich Merz, entre outros temas, criticou duramente o sentimento anti-imigração, central para o partido de extrema-direita Alternativ für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, ou AfD). Ao final de seu discurso condenando a xenofobia, Merz declarou: “A pior forma de xenofobia é o antissemitismo”. Ao classificar o antissemitismo como uma espécie de xenofobia, o chanceler alemão estava declarando que os judeus devem (sempre? em todo lugar?) ser estrangeiros (incluindo nós, judeus alemães).
No exemplo mais absurdo da ironia de a extrema-direita instrumentalizar acusações de antissemitismo, políticos do AfD, o partido de extrema-direita mais radical da Europa, juntaram-se a este amplo ataque ao Die Linke por usar o “ódio aos judeus para mobilizar eleitores”. O AfD defende a restauração de memoriais aos soldados alemães na Segunda Guerra Mundial e a minimização da história alemã do século XX nas escolas. Alguns de seus principais políticos defenderam a remoção do Memorial do Holocausto em Berlim. Outros políticos de destaque do AfD descreveram o nazismo como “uma mancha de excremento de pássaro na história alemã”.
O antissemitismo alemão sempre incluiu ataques a intelectuais judeus. O atual ataque alemão contra esquerdistas por suposto antissemitismo tem como alvo principal proeminentes intelectuais judeus de esquerda. É difícil evitar a sensação de que o momento presente é meramente uma continuação do passado, que esta é simplesmente a história alemã se reafirmando.
No Canadá, um suposto bastião da democracia liberal, acusações de antissemitismo, usadas como arma, estão sendo cada vez mais empregadas contra universidades e até mesmo contra líderes judeus de esquerda. Avi Lewis, líder do Partido Nacional Democrático (NDP), de esquerda, tuitou no Yom Kippur:

Lewis foi duramente condenado por “antissemitismo” neste tuíte, com o The Globe and Mail, o principal jornal do Canadá, ligando-o indiretamente a um ataque a uma sinagoga ocorrido no mesmo dia em Belleville, Ontário, em um editorial publicado por seu Conselho Editorial (especificamente, acusando Lewis de jogar “fósforo na fogueira” do antissemitismo que levou ao ataque em Belleville). No entanto, o responsável por esse ataque, um ex-membro das Forças Armadas Canadenses dispensado por se recusar a tomar a vacina contra a Covid-19, não tinha histórico de oposição a Israel — embora tivesse um histórico de ataques a imigrantes e de sentimentos explicitamente antissemitas. Em resumo, ele parece se encaixar no modelo de antissemitismo da extrema-direita.
É antissemita culpar todo o povo judeu pelas ações genocidas de Israel em Gaza, pois se trata de uma espécie de responsabilidade coletiva pelas ações de um país que jamais atribuiríamos a qualquer outro povo. E a acusação de responsabilidade coletiva é absurda. Interpretar esse sentimento nas declarações de Lewis é, no mínimo, implausível. Lewis está pedindo às pessoas que façam o máximo possível em situações de emergência. Se alguém não puder fazer isso, não será responsável pela emergência.
Dias após o tiroteio em Belleville, o governo canadense divulgou um relatório classificando o antissionismo como uma forma de antissemitismo, apesar de um número considerável de judeus no Ocidente, especialmente entre os jovens, ser cético em relação ao sionismo.
Uma pesquisa de fevereiro de 2026 revelou que menos da metade dos judeus americanos com menos de 44 anos concordava que “em geral, Israel me orgulha de ser judeu”. Muitos judeus americanos, especialmente os mais jovens, têm sentimentos que os colocam diretamente no alvo de acusações de antissemitismo usadas como arma. Os judeus têm amplas divergências sobre o atual governo israelense, sobre as ações de Israel em Gaza, o tratamento dado por Israel à Palestina e aos palestinos em geral ao longo do tempo, e até mesmo sobre o próprio projeto nacionalista.
A possibilidade de acusações de antissemitismo serem usadas como arma contra a esquerda demonstra que a democracia não deve ser considerada garantida, nem mesmo no Canadá.
Atualmente, a tática de usar acusações de antissemitismo como arma se espalhou muito além dos partidos de extrema-direita nos Estados Unidos. Ela está sendo empregada por democratas centristas contra candidatos socialistas democratas e progressistas.
Acusações de antissemitismo são, obviamente, direcionadas principalmente contra políticos, intelectuais e escritores muçulmanos, cuja própria identidade muçulmana muitas vezes parece ser a base para tais acusações. O candidato ao Senado por Michigan, Abdul El-Sayed, tem posições que são basicamente as da organização sionista liberal J Street — mas isso não o impediu de ser alvo desses ataques.
A democracia liberal e os valores progressistas universais são as próprias forças que nós, judeus, utilizamos para a nossa emancipação. É inaceitável atacar esses valores e as instituições que os representam em nome da nossa suposta proteção.
*Artigo publicado na edição de 30 de setembro (acesse aqui a publicação original em inglês). Jason Stanley é filósofo e colaborador do Zeteo. Ele também é professor e chefe do Departamento de Estudos Americanos da Universidade de Toronto e autor de Apagando a História: Como os Fascistas Reescrevem o Passado para Controlar o Futuro.


