Numa “corrida contra o tempo”, Israel intensifica terror na Cisjordânia para expropriar mais terras e bens palestinos; desde 9 de agosto, três famílias da vila de Qusra estão sitiadas em suas casas por soldados e colonos israelenses

Zena Tahhan (Drop Site News)*

Ramallah, Cisjordânia ocupada — Por duas semanas, desde 9 de agosto, três famílias palestinas, totalizando dez pessoas, incluindo duas crianças pequenas, estão presas em suas casas na Cisjordânia ocupada, sitiadas e aterrorizadas por dezenas de israelenses armados — tanto colonos quanto soldados. Os membros da família estão confinados em casas separadas, sem poder se abrigar juntos ou suprir suas necessidades básicas, com os estoques de alimentos perigosamente baixos e sem acesso a gás de cozinha ou geladeira.

Embora o cerco às três famílias tenha atraído a atenção da mídia internacional e declarações de condenação, o ataque não é o primeiro desse tipo, mas sim um exemplo mais notório de uma tática crescente de colonos e soldados israelenses que atuam em conjunto para desapropriar palestinos de suas casas na Cisjordânia. Os ataques estão cada vez mais concentrados em comunidades palestinas na Área B, uma designação dos Acordos de Oslo em que a Autoridade Palestina é nominalmente responsável pela administração civil, enquanto Israel mantém o controle de segurança.

O mais recente cerco israelense teve como alvo um pequeno conjunto de casas palestinas situadas no topo de uma colina nos arredores da vila de Qusra, na parte sul da província de Nablus, no norte da Cisjordânia.

Na manhã de 9 de agosto, colonos armados bloquearam a única estrada que dava acesso às casas e ergueram um posto avançado colonial bem em frente à porta de uma delas. Começaram a atirar pedras nas casas e a tentar invadir o interior com frequência.

As forças de ocupação israelenses finalmente chegaram ao local e removeram o posto avançado, mas os colonos conseguiram reconstruí-lo, um padrão que se repetiu diversas vezes. E, apesar de breves confrontos com as forças israelenses, os colonos foram autorizados a permanecer e continuaram a circular livremente pela área.

Os colonos também cortaram o acesso dos moradores à água e à eletricidade e, por mais de uma semana, impediram que qualquer pessoa — incluindo equipes de emergência ou ambulâncias — chegasse às famílias presas dentro da casa. Os funcionários da Prefeitura de Qusra foram finalmente autorizados a consertar as linhas de água e eletricidade depois de terem sido inicialmente agredidos pelos colonos e detidos pelo Exército de Israel.

As tropas israelenses também agravaram a situação ao ocuparem duas das casas palestinas que afirmam estar protegendo.

Em 14 de agosto, soldados forçaram Yousef e Ruqayya Hassan e suas duas filhas, Kinda, de quatro anos, e Hour, de dois, a saírem de sua casa e se mudarem para a casa inacabada de seu vizinho, Loui Abu Ridi, um cidadão americano.

Ainda em construção, a casa de Abu Ridi não tinha móveis básicos, incluindo camas. “É como se tivesse havido uma morte na família. Estamos todos angustiados, com raiva e muito tristes”, disse Ruqayya a Drop Site em uma entrevista por telefone.

Tropas israelenses ocuparam outra casa vizinha, ainda em construção, que pertencia ao irmão de Abou Ridi, Raed. Os soldados também montaram uma tenda a cerca de doze metros de distância, segundo o prefeito de Qusra, Abdelatheem Wadi.

“De um lado estão os colonos armados e, do outro, os militares”, disse Wadi a Drop Site, descrevendo as famílias encurraladas em Qusra como estando sob um “duplo cerco”.

Entretanto, as filhas de Ruqayya adoeceram e começaram a apresentar sintomas gripais, com febre intermitente e tosse intensa. Na tarde de 12 de agosto, Ruqayya e suas duas filhas foram autorizadas a evacuar temporariamente a área em uma ambulância e levadas a uma clínica médica para receberem tratamento. Foi quando ela e suas filhas retornaram à área sitiada, dois dias depois, que encontraram soldados israelenses ocupando sua casa e receberam ordens para se mudarem para Abu Ridi.

Outra casa pertence ao cunhado de Ruqayya, Rizq Hassan, que está preso lá dentro com sua mãe de 61 anos e sua irmã. Os militares israelenses separaram as famílias e as impediram de se verem.

“Minhas filhas ficam me perguntando por que a avó delas mora bem ao lado e elas não podem ficar com ela. Elas estão muito angustiadas. Como vou explicar o que está acontecendo com elas?”, disse Ruqayya, acrescentando que o impacto psicológico e físico já era visível em sua filha mais velha. “Ela começou a urinar involuntariamente. Mesmo durante o dia, quando está acordada, ela se molha”, contou.

Vandalização de residências por soldados e “zona militar fechada”

O fato de Abou Ridi, um cidadão norte-americano, ser o proprietário de uma das casas pode ter contribuído para gerar declarações de condenação, inclusive de autoridades americanas firmemente pró-Israel, como o embaixador Mike Huckabee, que chamou os colonos de “terroristas israelenses” e suas ações de “criminosas”, embora Washington não tenha feito nada para intervir.

Abou Ridi viajou de Ohio de volta para a Palestina em 17 de agosto para se juntar a seu irmão Qusai e seu sobrinho, que estavam hospedados em sua casa com Ruqayya, seu marido e duas filhas.

Os que estavam na casa de Abou Ridi finalmente receberam suprimentos de alimentos, água e medicamentos de uma equipe da Unicef em 17 de agosto, bem como produtos de higiene pessoal para Ruqayya e suas filhas. Já os que estavam na casa de Rizq Hassan, que recebe menos atenção, não tiveram a mesma sorte.

“A casa do meu cunhado está completamente sitiada. Eles não podem sair pela porta da frente. Não têm gás nem geladeira — estão vivendo de pão e alguns enlatados”, disse Ruqayya. “Ninguém está falando deles”.

Wadi, o prefeito, disse que eles estão sendo maltratados pelos soldados. “A ajuda humanitária trazida pela Unicef para a casa de Rizq Hassan foi deixada pelos soldados no quintal por 24 horas sob o sol, antes que a família pudesse recebê-la, e metade dela já estava arruinada”, disse Wadi a Drop Site. “A atenção da mídia está voltada apenas para a casa de Loui [Abou Ridi]”.

O cerco militar e de colonos se estendeu para além das três casas em 13 de agosto, quando centenas de soldados da ocupação israelense invadiram Qusra e impuseram um toque de recolher em toda a vila. Os soldados tomaram posse de pelo menos oito casas e expulsaram suas famílias. Segundo Wadi, eles vandalizaram gravemente as casas, danificando móveis e pertences.

Os soldados se retiraram dias depois das oito casas e do resto da aldeia, mas declararam a área das três casas sitiadas como zona militar fechada. Wadi estima que pelo menos 50 a 60 soldados permaneçam estacionados na área das casas sitiadas e arredores.

Embora os militares tenham afirmado que essa ordem terminaria na noite de terça-feira, ela permanece em vigor, de acordo com os moradores.

“Nova realidade” na Cisjordânia ocupada

Os palestinos na Cisjordânia ocupada têm sofrido ataques cada vez mais intensos nos últimos três anos. Ataques de colonos israelenses, apoiados por soldados e pelo Estado israelense, deslocaram total ou parcialmente 107 comunidades desde janeiro de 2023, além de uma expansão sem precedentes dos assentamentos, segundo um novo relatório da Human Rights Watch. O exército israelense expulsou outros 32 mil palestinos de suas casas nos campos de Jenin, Tulkarem e Nur Shams em janeiro de 2025.

As famílias sitiadas em Qusra estão sob ataque desde janeiro, quando colonos tomaram posse de um prédio próximo que estava em construção e começaram a lançar ataques diários contra os moradores.

Suas casas estão localizadas na Área B da Cisjordânia ocupada. Embora os ataques de colonos e a transferência forçada de palestinos nos últimos anos tenham atingido principalmente aldeias e comunidades beduínas na Área C — que compreende cerca de 60% da Cisjordânia e inclui quase todas as terras agrícolas —, a violência e o roubo de terras por colonos israelenses estão se espalhando cada vez mais para as comunidades palestinas localizadas na Área B.

No mês passado, uma família palestina de oito pessoas, residente na aldeia vizinha de Jalud, foi forçada a abandonar sua casa após um cerco semelhante de 10 dias perpetrado por colonos e soldados. O ataque concentrado começou três meses antes, quando colonos ergueram um posto avançado colonial perto da família Al-Tubassi e passaram a atacá-los diariamente.

“Durante o último mês, os colonos ocuparam uma casa em construção na estrada para a casa da família Al-Tubassi e, nos últimos 10 dias, cortaram a água e a eletricidade, tornando impossível o contato com eles”, disse Bashar Qaryouti, médico e ativista da região, a Drop Site. “Nos últimos quatro dias, a família ficou sem comida, sem nada, e no último dia foram mantidos sob a mira de armas pelos colonos e forçados a sair.”

Em comunicado divulgado na semana passada, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos condenou os ataques a Qusra. “Essas ações criminosas dos colonos, apoiadas ou toleradas por Israel, a Potência Ocupante, estão tornando a vida insuportável para essas famílias palestinas e visam claramente forçá-las a abandonar suas casas e terras. O tempo está se esgotando para essas três famílias antes que sejam deslocadas à força”, afirmou o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

“A Corte Internacional de Justiça é clara quanto à ilegalidade de todos os assentamentos israelenses e à obrigação de Israel de cessar todas as atividades de assentamento, evacuar todos os colonos, incluindo aqueles que aterrorizam Qusra e Jalud, e pôr fim à sua presença ilegal na Cisjordânia”. Os analistas também advertem que a recorrência da tática de cerco em Qusra é um mau presságio e aponta para um padrão mais amplo que se desenrola em toda a Cisjordânia ocupada.

“Começou com os beduínos palestinos em áreas remotas, depois se espalhou para as pequenas aldeias nos arredores das províncias e agora eles estão em grandes aldeias, com a participação ativa dos militares, que também fornecem as armas e os treinam”, disse Nihad Abu Ghosh, analista político baseado em Ramallah, a Drop Site.

Nos últimos três anos, dezenas de milhares de palestinos foram transferidos à força por colonos e militares da Área C. Além dos milhares de palestinos deslocados à força na Cisjordânia nos últimos três anos, mais de mil palestinos também foram mortos, quase um quarto deles crianças.

“Essas são milícias fascistas judaico-sionistas que estão realizando pogroms e assassinatos na Cisjordânia ocupada”, continuou Abu Ghosh. “Tanto o governo quanto os colonos estão numa corrida contra o tempo. Eles consideram os poucos meses ou dias restantes do mandato deste governo uma oportunidade excepcional para mudar a realidade no terreno. É por isso que estão intensificando seus ataques até chegarem a um ponto em que, em sua avaliação, será difícil reverter o que fizeram”.

As condições para os palestinos na Cisjordânia ocupada deterioraram-se ainda mais no mês passado, após um ataque em grande escala de colonos à aldeia de Tel, a sudoeste da cidade de Nablus, em 24 de julho, durante o qual morreram quatro palestinos e dois colonos israelenses.

Desde o incidente em Tel, colonos e soldados têm realizado ataques diários e ininterruptos, incluindo tiroteios em massa, agressões físicas, incêndios criminosos e roubo de terras. Os colonos também ergueram pelo menos 15 novos postos avançados coloniais em terras palestinas na Cisjordânia, com o apoio declarado de altos funcionários israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que anunciou uma série de medidas que incluíam “acelerar a legalização de postos avançados agrícolas e o estabelecimento de novos”.

De volta a Qusra, os moradores estão aterrorizados. “Fico pensando no que aconteceu com a família Al-Tubassi e rezando para que possamos superar isso”, disse Ruqayya.

Wadi, o prefeito de Qusra, compartilha da mesma preocupação. “Tememos que este cerco se torne a nova realidade na Cisjordânia ocupada, que Qusra seja mais um precedente para todas as aldeias”, disse Wadi. Ele também relatou que seu irmão mais velho e seu sobrinho foram assassinados por colonos armados em 12 de outubro de 2023, durante o funeral de outros quatro palestinos mortos na aldeia, também por colonos, no dia anterior.

Alguns alertam que a violência implacável dos colonizadores pode estar chegando a um ponto crítico. “A distância entre o povo palestino na Cisjordânia e os massacres é uma questão de quando, não de se”, disse Abu Ghosh. “Quando a faca chegar à garganta dos palestinos, eles não terão outra escolha senão resistir com todos os meios disponíveis”.

*Reportagem publicada em inglês na edição de 20 de agosto de Drop Site News (confira aqui).

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