As autoridades israelenses estenderam a detenção do pediatra Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, sem acusação formal e sem prazo determinado, anunciou a família do médico após uma audiência na terça-feira. O doutor Abu Safiya está impedido de ter acesso a um advogado há mais de dois meses, desde que foi transferido para a prisão de Ketziot, no deserto do Negev.
Sua família adverte que sua saúde está se deteriorando gravemente devido à violência física sofrida, à perda de peso significativa e contínua e à negligência médica sistemática. Ele foi preso em dezembro de 2024, após se recusar a ordenar a evacuação dos pacientes do Hospital Kamal Adwan, apesar dos repetidos ataques israelenses à unidade.
Em março de 2026, após receberem relatos de que Abu Safiya foi submetido a torturas na prisão, os relatores especiais de direitos humanos Tlaleng Mofokeng e Ben Saul, da ONU, emitiram declaração na qual exortam Israel a libertá-lo imediatamente e garantir que ele tenha acesso a exames e tratamento médico. “Recebemos relatos de que o Dr. Abu Safiya foi submetido a tortura e outros tratamentos cruéis e degradantes, e que seu estado de saúde permanece grave”, disseram os especialistas.
“As condições de sua detenção parecem ser flagrantemente arbitrárias e manifestamente incompatíveis com as Regras de Mandela, que estabelecem a obrigação dos Estados de garantir que os presos tenham acesso a cuidados de saúde”, manifestaram os especialistas. Safiya permanece detido sob a lei israelense de combatentes ilegais, apesar de ser um médico civil. “Temos reiteradamente enfatizado que essa lei viola os direitos humanos e o direito humanitário”, afirmaram Mofokeng e Saul.
“Ele teve negados sistematicamente exames e tratamentos médicos essenciais, sendo privado de cuidados fundamentais a tal ponto que sua vida, saúde e bem-estar foram gravemente colocados em risco”, disseram os especialistas. “Os Estados devem proteger os feridos e doentes sob seus cuidados enquanto estiverem sob custódia”.
Em dezembro de 2025, o Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR), “a maior organização de direitos civis e defesa dos direitos dos muçulmanos nos Estados Unidos”, voltou a pedir ao governo Trump que exija de Israel a libertação de Safiya, “o médico de Gaza que caminhou em direção aos tanques israelenses em um vídeo icônico” e que naquele momento completava um ano nas prisões israelenses. O CAIR também instou os membros do Congresso e as instituições médicas estadunidenses a pedirem publicamente a libertação do médico palestino.
“A detenção contínua do Dr. Hussam Abu Safiya sem acusação ou julgamento é uma violação flagrante do direito internacional e um símbolo arrepiante do ataque da ocupação israelense ao sistema de saúde de Gaza. Durante esse genocídio, a ocupação israelense assassinou centenas de profissionais de saúde e destruiu a maior parte das instalações médicas de Gaza”, declarou em nota o CAIR. “Nosso governo não pode permanecer em silêncio enquanto um médico que cumpriu seu dever ético de cuidar dos feridos é mantido preso indefinidamente por um exército financiado com o dinheiro dos contribuintes americanos. O governo Trump e os membros do Congresso devem exigir a libertação imediata do Dr. Abu Safiya e a responsabilização de Israel pelos crimes cometidos contra profissionais da saúde”.
A respeitada organização Anistia Internacional promove, por sua vez, a campanha “Libertem Abu Safiya!”.
Número oficial de mortes em Gaza desde outubro de 2023 é de 72.594
Nas últimas 24 horas, um palestino foi morto e cinco ficaram feridos em Gaza. O número total de mortos desde 7 de outubro de 2023 subiu para 72.594, com 172.404 feridos. Desde 11 de outubro, o primeiro dia completo do chamado cessar-fogo, Israel matou pelo menos 818 palestinos em Gaza e feriu 2.301, enquanto 762 corpos foram recuperados dos escombros, segundo o Ministério da Saúde palestino.
Pelo menos 226 crianças e 179 mulheres foram mortas em ataques israelenses em Gaza desde o início do chamado cessar-fogo. Dois meninos palestinos foram mortos por ataques de Israel, com algumas semanas de diferença, enquanto coletavam lenha em Gaza. Adel al-Najjar, de 9 anos, foi morto a tiros por forças israelenses no dia 28 de abril, enquanto coletava lenha em Khan Younis, segundo o Hospital Nasser. Adel estava a cerca de 400 metros da “Linha Amarela”, que separa as áreas controladas por Israel do restante de Gaza. Seu irmão mais novo teria sido morto em circunstâncias semelhantes na mesma área apenas um mês antes.
O chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou em 27 de abril que intensos combates podem ser retomados em todas as frentes ativas de Israel ainda este ano. “Permanecemos prontos e em alerta para a possibilidade de uma retomada de intensos combates em todas essas frentes — 2026 ainda pode ser um ano de combates em cada uma delas”, disse Zamir a oficiais do Exército durante uma reunião.
Em entrevista à Fox News na segunda-feira, o secretário de Estado Marco Rubio se recusou a dizer se o governo Trump apoiaria a retomada da guerra em Gaza por Israel, mas afirmou que “todo este projeto só funciona se o Hamas for desmilitarizado”. O Hamas tem se recusado sistematicamente a discutir o desarmamento até que Israel cesse as violações do cessar-fogo e cumpra suas obrigações da Fase Um.
Eleições em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza, e na Cisjordânia ocupada
Deir al-Balah tornou-se o primeiro município em Gaza a realizar eleições locais desde 2005, no sábado, com os eleitores votando em 12 centros — nove deles em tendas — depois que Israel bloqueou a entrada de materiais eleitorais padrão, forçando os organizadores a improvisar com materiais de origem local. A participação atingiu apenas 22,7%, com um analista atribuindo a baixa participação ao fatalismo generalizado em relação ao controle contínuo de Israel sobre as passagens de Gaza, eletricidade, água e acesso à reconstrução.
A chapa “Ascensão de Deir al-Balah”, considerada próxima ao Fatah, conquistou seis das 15 cadeiras do conselho. Uma eleitora descreveu à Drop Site News a importância das eleições para a Faixa de Gaza. “O cenário das eleições dá às pessoas a esperança de que é possível parar esta guerra e restaurar a vida ao que era”, disse ela. Leia a reportagem completa de Mohamed Suleiman para Drop Site News aqui.
Também foram realizadas eleições municipais na Cisjordânia ocupada. Atef al-Awawdeh, ex-prefeito de Deir Samet, a sudoeste de Hebron, afirma que as forças israelenses o obrigaram a renunciar ao seu cargo recém-conquistado no conselho municipal sob ameaças de prisão ou violência, segundo entrevista ao Al-Araby Al-Jadeed. Al-Awawdeh disse que foi preso antes de sua vitória eleitoral e advertido por um oficial que se identificou como “Capitão Zidan” de que “se você não desistir das eleições, será preso e sua casa será destruída”, e que “pode ser morto”.
Ele relatou ter sido detido novamente e submetido a abusos após a vitória, antes de finalmente renunciar. O oficial citou o histórico pessoal de al-Awawdeh como um fator, dizendo que seu filho — que fazia parte da resistência em Jenin e foi morto em 2023 — já havia atacado soldados israelenses. Al-Awawdeh, no entanto, sugeriu que a medida reflete uma interferência israelense mais ampla na formação da governança local na Cisjordânia ocupada, afirmando que as autoridades buscam excluir certas figuras dos conselhos municipais.
Moataz Ibrahim al-Baytawi, prisioneiro político detido há 15 meses pelas forças de segurança da Autoridade Palestina na prisão de al-Junaid, em Nablus, na Cisjordânia ocupada, foi hospitalizado após uma grave piora em seu estado de saúde, em meio a alegações de tortura, segundo o Palestine Online. Seu primo afirmou que Moataz está detido sem condenação criminal e iniciou uma greve de fome em protesto contra sua prisão contínua e a recusa da Autoridade Palestina em cumprir uma ordem judicial para sua libertação. Ele teria sido submetido a tortura durante todo o período de detenção. A família exige uma investigação independente e imediata sobre as condições na prisão de al-Junaid e que ele receba tratamento médico completo e proteção contra novos abusos.
O sistema de emergência médica de Gaza está à beira do colapso total devido a uma grave escassez de óleo lubrificante e peças de reposição, após Israel classificar os materiais como bens de dupla utilização sujeitos a bloqueio, informaram nesta segunda-feira o Ultra Palestine e o Centro de Direitos Humanos de Gaza. Paramédicos no centro de Gaza estão canibalizando ambulâncias quebradas para manter outras funcionando, reduzindo a frota operacional de 10 veículos para três e triplicando o tempo de resposta, de 30 minutos para duas horas.
Um dos principais geradores do Complexo Médico Nasser, o último grande hospital de Gaza, já parou de funcionar, ameaçando o fornecimento de energia para salas de cirurgia, unidades de terapia intensiva e alas neonatais. Desde outubro de 2023, ataques israelenses alvejaram e destruíram ou danificaram 211 ambulâncias e 23 veículos da defesa civil.
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, impediu que famílias depositassem fundos para equipamentos médicos para prisioneiros palestinos desde 7 de outubro de 2023. As consequências dessa política são ilustradas pela história de Adam Oweineh, um detento surdo de 24 anos da vila de Battir, na Cisjordânia ocupada, mantido em detenção administrativa sem acusação desde janeiro de 2025. Oweineh teve as baterias de seu implante coclear confiscadas ao chegar e foi espancado por guardas quando não obedeceu às ordens durante uma contagem. Os guardas então impuseram punição coletiva a toda a sua cela — retendo comida, lençóis e colchões por três dias e utilizando gás lacrimogêneo e cães. A reportagem completa do Haaretz sobre Oweineh está disponível aqui.
Relatório da MSF acusa Israel de usar acesso à água como arma
Israel tem usado o acesso à água como arma contra os palestinos em Gaza, privando sistematicamente a população desse recurso em uma campanha de punição coletiva, segundo um novo relatório divulgado pela Médicos Sem Fronteiras (MSF). O relatório documenta como a instrumentalização repetida da água pelas autoridades israelenses faz parte de um padrão recorrente, sistemático e cumulativo.
“As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, mas mesmo assim destruíram deliberadamente e sistematicamente a infraestrutura hídrica em Gaza, bloqueando consistentemente o acesso a suprimentos relacionados à água”, afirmou Claire San Filippo, gerente de emergências da MSF, em um comunicado. “Palestinos foram feridos e mortos simplesmente tentando acessar água”, disse San Filippo. “Essa privação, combinada com condições de vida precárias, superlotação extrema e um sistema de saúde em colapso, cria a tempestade perfeita para a disseminação de doenças.
O Ministério da Saúde de Gaza informou que pelo menos 494 fetos morreram no útero durante o genocídio. Um desses casos é o de Islam al-Tanani, de 41 anos. Ela estava grávida de gêmeos de quatro meses quando um projétil israelense atingiu a casa da família em Beit Lahia na tarde de 24 de abril, matando-a e aos gêmeos. Seu filho Hamza, de 14 anos, morreu instantaneamente, e Naya, de 5, sobreviveu apenas uma hora na UTI; seu marido Khaled, de 43 anos, e sua filha Shatha sobreviveram com ferimentos causados por estilhaços. “A ocupação destruiu nossos sonhos, a infância de nossos filhos e matou nossas esposas”, disse Khaled. “Isso não é uma guerra. Isso é genocídio.”
*Matéria publicada em inglês pela edição de 28 de abril do Drop Site News (confira aqui).


