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Resolução vazada do “Conselho de Paz” descreve plano liderado pelos EUA para governar Gaza; minuta confere amplos poderes a Trump

Jonathan Whittall, Drop Site News*

O chamado “Conselho da Paz”, lançado oficialmente pelo presidente Donald Trump em Davos, na Suíça, na semana passada, está desenvolvendo planos abrangentes para uma administração apoiada pelos EUA para governar Gaza, de acordo com uma minuta de resolução do Conselho.

Drop Site News obteve o documento não assinado, datado de 22 de janeiro de 2026 e intitulado “Resolução nº 2.026/1”, de três fontes independentes, todas em contato regular com autoridades americanas e israelenses a respeito da reconstrução de Gaza. As fontes confirmaram que o conteúdo do documento está alinhado com as discussões em curso entre Israel e os EUA sobre a implementação das estruturas de governança planejadas para a Faixa de Gaza.

A resolução, a primeira do gênero emitida pelo “Conselho de Paz”, detalha a estrutura de uma autoridade governamental apoiada pelos EUA que assumiria o controle legislativo, executivo e judicial completo sobre Gaza, incluindo “poderes de emergência”. O objetivo declarado do Conselho de Paz é transformar Gaza em uma “zona livre de terrorismo, desradicalizada e desmilitarizada, que não represente uma ameaça aos seus vizinhos”. A cópia do documento obtida pela Drop Site News não está assinada (confira aqui). Há um espaço em branco para a assinatura de Donald J. Trump, em sua qualidade de Presidente do Conselho da Paz. Permanece incerto se a resolução foi formalmente adotada ou se a versão recebida representa o texto final.

Os metadados indicam que o documento foi criado em meados de dezembro pelo Departamento de Estado — e a data no documento corresponde à participação do presidente Trump no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde ele presidiu formalmente o lançamento oficial de seu conselho. O Departamento de Estado se recusou a comentar o assunto em resposta a uma solicitação da Drop Site.

O projeto de resolução formaliza uma estrutura hierárquica para o Conselho de Paz, com Trump como presidente e um conselho executivo que tem “a mesma autoridade, poderes e capacidade para fazer todas as delegações necessárias e apropriadas para executar o Plano Abrangente, assim como o Conselho de Paz”. O Conselho Executivo tem o poder de “promulgar novas leis ou modificar ou revogar leis civis e penais anteriores” em Gaza.

A resolução lista os nove membros do conselho executivo: sete que já haviam sido anunciados pela Casa Branca em 16 de janeiro, mais dois que não haviam sido divulgados publicamente. Os membros anunciados anteriormente são: o Secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair, o genro de Trump Jared Kushner, o empresário Mark Rowan, o presidente do Banco Mundial Ajay Banga e o vice-conselheiro de Segurança Nacional Robert Gabriel. Os dois novos nomes revelados no documento são a chefe de gabinete de Trump, Susan Wiles, e Martin Edelman, advogado imobiliário e assessor especial do governo dos Emirados Árabes Unidos.

Haverá também um Conselho Executivo de Gaza, que inclui vários dos mesmos membros, atuando em caráter consultivo.

O projeto de resolução também estabeleceria um Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG), descrito como um “comitê tecnocrático, apolítico e rigorosamente selecionado” de palestinos, operando estritamente sob a supervisão de um Alto Representante. O Alto Representante é Nickolay Mladenov, ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores da Bulgária e ex-enviado da ONU para o Oriente Médio. O CNAG seria liderado por Ali Shaath, ex-funcionário do governo da Autoridade Palestina. Nenhum palestino foi incluído no Conselho de Paz, embora Trump tenha concedido uma vaga ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que permanece indiciado por crimes de guerra e sujeito a um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. O conselho, que críticos consideram uma tentativa de contornar qualquer supervisão significativa da ONU ou mesmo de se posicionar como uma alternativa privatizada à organização mundial, prevê operar em um ambiente onde responde exclusivamente a Trump.

“Infelizmente, nem o Conselho de Paz nem suas estruturas subordinadas são representativos ou responsáveis. Isso pode ser visto no poder irrestrito do próprio presidente, o sr. Trump”, disse Martin Griffiths, ex-subsecretário-geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e atual diretor executivo do Mediation Group International, ao Drop Site. Ele acrescentou que esse desequilíbrio é mais evidente no tratamento dado aos palestinos na resolução, cuja participação é reduzida “ao nível mais baixo e técnico”.

O projeto de resolução afirma que “apenas as pessoas que apoiarem e agirem de forma consistente” para criar uma “Gaza desradicalizada e livre do terrorismo que não represente ameaça aos seus vizinhos” serão elegíveis para “participar de atividades de governança, reconstrução, desenvolvimento econômico ou assistência humanitária em Gaza”. A resolução impede a participação de quaisquer indivíduos ou organizações considerados como tendo “apoiado ou demonstrado histórico de colaboração, infiltração ou influência com ou por parte do Hamas ou outros grupos terroristas”. Não esclarece como essas determinações serão feitas, mas indica que o Conselho Executivo e o Alto Representante criarão “padrões de elegibilidade para participação no desenvolvimento da Nova Gaza” e os aplicarão caso a caso, sujeitos à aprovação de Trump. Tanto Israel quanto os EUA têm denunciado repetidamente, sem provas credíveis, agências da ONU e organizações não governamentais como fachadas do Hamas ou facilitadoras do terrorismo.

A proposta do Conselho de Paz estabeleceria “zonas humanitárias” e “corredores controlados de proteção civil”, patrulhados pela Força Internacional de Estabilização. O acesso seria restrito a indivíduos aprovados pelo Conselho Executivo e pelo Alto Representante, com limites definidos de acordo com “requisitos operacionais e de segurança” não especificados. A Força Internacional de Estabilização “temporária” seria liderada pelo major-general americano Jasper Jeffers, e somente o presidente do Conselho (Trump) teria autorização para aprovar ou substituir comandantes, bem como para aprovar os futuros países líderes.

Embora a resolução declare que “ninguém será forçado a sair de Gaza” e que “aqueles que desejarem sair terão a liberdade de fazê-lo e a liberdade de retornar a Gaza”, ela também deixa claro que o acesso a recursos, ajuda e participação política em Gaza estará condicionado ao cumprimento do “Plano Abrangente” e à autoridade do Conselho.

Griffiths criticou a resolução por reduzir os palestinos a “executores das decisões de outros”, deixando-os “mais uma vez sem poder algum sobre o próprio destino”. Enquanto Israel, disse ele, “tem um lugar à mesa principal”, os palestinos são “privados e excluídos”. “Eles não são encontrados em lugar nenhum”, acrescentou Griffiths, “exceto na base dessa pirâmide de poder”. A resolução estabelece que todas as suas disposições entrariam em vigor imediatamente após a assinatura.

*Publicado em inglês na edição de 26 de janeiro do Drop Site News.

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