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Após uma batalha de quase três décadas, jornalistas que trabalharam no DCI começam a receber seus créditos trabalhistas

Juliana Almeida - SJSP

No ano de 2000, foi decretada a falência do conglomerado gráfico Indústria Brasileira de Formulários (IBF), gestor de empreendimentos jornalísticos que incluíam o jornal Diário do Comércio Indústria (DCI), o Shopping News e a Revista Visão. Com a extinção das operações, dezenas de jornalistas ficaram sem receber seus créditos trabalhistas e iniciaram uma batalha para garantir esses pagamentos. Com persistência e solidariedade coletiva, os jornalistas finalmente começaram a receber esses valores em janeiro deste ano, após decisiva atuação do Departamento Jurídico do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP).

“Esse pagamento aos jornalistas do grupo DCI é a prova de que a existência de um sindicato é essencial para a salvaguarda dos trabalhadores, uma vez que, mesmo após quase 30 anos e a sucessão de inúmeras diretorias e advogados ao longo do processo, a entidade continuou sempre presente para lutar pelos jornalistas da melhor forma possível”, afirma o coordenador jurídico do SJSP, doutor Raphael Maia.

No final de 2024, por iniciativa do Departamento Jurídico, foi realizada uma assembleia com a participação de dezenas de ex-funcionários e familiares de jornalistas que faleceram enquanto aguardavam o pagamento dos créditos trabalhistas. Na ocasião, o doutor Raphael Maia e o presidente do SJSP, Thiago Tanji, apresentaram as novidades do processo, com a identificação de fundos financeiros disponíveis pela massa falida e que deveriam ser revertidos aos trabalhadores prejudicados pela falência. O então patrimônio da IBF incluía imóveis de alto valor em várias regiões do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Brasília.

Com a digitalização dos documentos físicos, houve maior celeridade da Justiça para que os responsáveis pela gestão do espólio da Indústria Brasileira de Formulários liberassem as verbas destinadas aos créditos trabalhistas. Desde então, o SJSP passou a coordenar a comunicação com os jornalistas por meio da criação de grupos no WhatsApp e também de contato direto com ex-funcionários e familiares, para que voltassem a acompanhar o caso.

A jornalista Neusa Barbosa trabalhou na Revista Visão entre 1989 e 1990 e relembra as diversas dificuldades em sua passagem pelo grupo. Editora internacional à época, conviveu com atrasos salariais e participou da greve que resultou na demissão de trabalhadores, decisão tomada pelo empresário Henry Maksoud, gestor da empresa naquele período. Com a falência, ficou sem receber os valores devidos. “Apesar de todos esses obstáculos, o Sindicato dos Jornalistas manteve-se firme e não desistiu da luta. Foi graças a essa persistência que, mesmo após tanto tempo, conseguimos alcançar essa vitória, ainda que tardia”, afirma.

Após a identificação de fundos disponíveis pela massa falida, o SJSP atuou junto à Justiça Cível de São Bernardo do Campo, onde corre o processo, para garantir a liberação de parte dos recursos, priorizando o pagamento dos direitos trabalhistas devidos. Em janeiro, o Sindicato começou a fazer os repasses aos jornalistas que entraram com ações por meio da entidade, incluindo herdeiros legais de credores que já faleceram.

Espera e reparação

Veronika Paulics trabalhou no DCI em 1993, quando o jornal já enfrentava sérias dificuldades financeiras. O primeiro acordo proposto pela empresa previa o pagamento de 40% da remuneração e, depois, dos 60% restantes. A ideia era que aquele acordo fosse temporário. Mas, a partir disso, a empresa foi de mal a pior. “Durante um tempo, ainda acompanhei o processo, ligava para o sindicato, conversava, tentava me informar. Mas os anos foram passando, quase 30 anos, e chegou um momento em que simplesmente desisti. Pensei: ‘isso eu nunca vou receber’. A vida seguiu, nunca contei com esse dinheiro nem com uma decisão da Justiça a favor dos trabalhadores.”

Quando Veronika recebeu um e-mail com uma oferta de uma empresa especializada na compra de créditos trabalhistas, achou estranho e decidiu entrar em contato com o Sindicato, ficando surpresa ao saber que o processo ainda estava em andamento. “Para mim, a questão nunca foi apenas o dinheiro. Claro que qualquer valor é bem-vindo, mas isso sempre foi muito mais sobre justiça. Acompanhar o grupo de WhatsApp e saber que tantas pessoas morreram ao longo desse processo, que para muitas esse dinheiro teria feito uma enorme diferença, pessoas que trabalharam anos e foram profundamente prejudicadas, me marcou muito.”

Infelizmente, nem todos os jornalistas estavam vivos para receber os valores devidos pelo processo. O jornalista Denilson Ferreira de Vasconcelos foi redator do DCI entre 1990 e 1993 e faleceu em 2020, em decorrência de um câncer de pâncreas. A filha, Tayra, que hoje também é jornalista e professora de dança, tinha 13 anos quando os jornalistas estavam se mobilizando para lutar por seus direitos. Participou de passeatas e bazares de arrecadação de fundos para os grevistas. Acompanhando seu pai, passava tardes no Auditório Vladimir Herzog, enquanto assembleias buscavam uma solução para o impasse. Mesmo sabendo que não seria um processo rápido, o pai não desistiu, dizendo que esse dinheiro sairia para pagar a faculdade dos filhos.

“Sabemos que recebemos menos do que merecíamos, mas foi uma vitória imensa. O dinheiro saiu. Perdemos muitos familiares e companheiros ao longo do caminho, mas o Sindicato foi incansável por mais de três décadas. Isso é muito louvável”, afirma Tayra. Ela conta que foi à cidade de Salvador, terra natal de seu pai, para pagar uma promessa que fez quando o dinheiro saiu. “O meu pai sempre foi um grande defensor do Sindicato. Sempre brigou muito pelo coletivo, pela luta sindical. Imagine, um ex-preso político. É uma coisa que ele sempre defendeu. E eu tenho certeza de que, onde quer que ele esteja, está muito feliz de ver que o Sindicato conseguiu essa imensa vitória para tantos e tantos colegas. Viva o Sindicato!”

Para Veronika Paulics, essa conquista é mais importante do ponto de vista político do que financeiro. “Entendo, juridicamente, por que não houve reajuste dos valores, mas, na prática, é revoltante pensar que valores de 1993 não foram devidamente atualizados, enquanto alguém lucrou com esse atraso. O que existe, de fato, é uma reparação histórica e política. Tenho dito a todo mundo o quanto fico feliz de ter apostado no sindicato e numa ação coletiva.”

Para o presidente do SJSP, Thiago Tanji, foi emocionante acompanhar as comemorações dos jornalistas com a notícia de que seus créditos trabalhistas finalmente seriam pagos. “O Sindicato só existe porque representa a luta coletiva de nossa categoria, de todas as épocas. É um orgulho grande saber que essa foi uma batalha que passou por diferentes gestões, mas que nunca esmoreceu. A luta coletiva é capaz de grandes feitos”, afirma.

Acompanhamento permanente

O Departamento Jurídico do SJSP continua acompanhando de perto o processo e reafirma seu compromisso de lutar para que todos os empregados recebam todos os seus direitos, após anos de lentidão, dificuldades e dúvidas. Até o momento mais de 3 milhões de reais foram repassados aos jornalistas.

O Sindicato ainda não conseguiu contato com todos os jornalistas que estão no processo. Caso você seja um deles, herdeiro ou conheça algum jornalista que esteja envolvido, entre em contato com o nosso departamento jurídico pelos endereços de e-mail:
departamentojuridico@sjsp.org.br
dejur@sjsp.org.br

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