Hamsa Housou, de onze anos, jazia morta sobre uma mesa de metal fria no necrotério do hospital Al-Shifa. Sangue cobria seu rosto e a parte superior de seu pijama listrado enquanto um de seus parentes limpava delicadamente sua boca e bochecha com um pano úmido, chorando ao fazê-lo. Ela estava dormindo em sua cama na madrugada de quinta-feira quando foi fatalmente atingida por disparos israelenses. A casa de sua família em Jabaliya, a oeste da chamada linha amarela, fica em uma área considerada segura.
“Estávamos dormindo e, de repente, por volta das 5 da manhã, houve estrondos — estrondos altos e tiros de granada”, disse o tio de Hamsa, Aouni Housou, parado ao lado do pequeno corpo da menina. “Eu moro no andar de cima e ouvi gritos. Corremos para o andar de baixo e nos disseram que a menina estava ferida. Fomos vê-la e ela estava coberta de sangue.” Demorou meia hora para a ambulância chegar. Quando finalmente chegaram ao hospital, Hamsa já havia falecido.
A menina de onze anos foi apenas um dos 14 palestinos, incluindo cinco crianças, mortos em ataques israelenses na Faixa de Gaza nas últimas 24 horas, segundo um balanço da Al Jazeera. Desde que o chamado cessar-fogo entrou em vigor em 10 de outubro, Israel tem matado palestinos em Gaza quase diariamente. Os ataques com mísseis, tiroteios e bombardeios ocorrem em áreas tanto a leste da Linha Amarela, ocupada pelas tropas israelenses como parte do acordo inicial, quanto a oeste, onde a maioria dos palestinos vive concentrada em menos da metade do território de Gaza. Pelo menos 425 palestinos foram mortos e mais de 1.200 ficaram feridos nos últimos três meses do “cessar-fogo” — uma média de quase cinco palestinos mortos por dia.
“Todas as noites há bombardeios, tiroteios, bombas incendiárias, robôs. Todas as noites. Estilhaços atingem nossa casa. Que cessar-fogo? Esse cessar-fogo é só teatro para o mundo. O que os levou a matá-la?”, disse Housou, apontando para a sobrinha morta, sem conseguir conter as lágrimas.
Embora grande parte da atenção mundial tenha se desviado de Gaza desde que o “cessar-fogo” entrou em vigor, o genocídio continuou, com ataques militares israelenses diários e severas restrições a itens essenciais à vida, incluindo suprimentos médicos, alimentos, materiais de construção e outros produtos.
Ao longo de um único dia — da madrugada de quarta para quinta-feira — as forças armadas israelenses alvejaram residências, escolas que abrigavam palestinos deslocados e acampamentos improvisados. Em Mawasi Khan Younis, uma área próxima ao mar, dois ataques aéreos distintos mataram quatro palestinos em suas tendas na praia, segundo a agência de notícias palestina Wafa. Outro palestino foi morto quando as forças israelenses bombardearam uma tenda que abrigava pessoas deslocadas na área de Al-Attar, em Khan Younis.
No campo de refugiados de Jabaliya, dois palestinos foram mortos quando as forças israelenses atacaram a Escola Abu Hussein, que abrigava diversas famílias deslocadas. No bairro de Al-Tuffah, a nordeste da Cidade de Gaza, um ataque aéreo israelense atingiu um prédio residencial, matando duas pessoas e ferindo cinco.
“Minha casa fica ao lado da casa que foi bombardeada. Eu estava neste quarto perto da varanda. De repente, algo voou e me jogou na cama. A janela inteira se estilhaçou — completamente. Minha esposa também foi jogada na cama”, disse Abu Hassan Alwan ao Drop Site, em meio às consequências do ataque ao prédio Al-Tuffah. “Quem disser que existe uma área segura, não dê ouvidos. Os israelenses têm permissão para atacar onde quiserem. Atacam qualquer ‘alvo’ que encontrarem. Não existem áreas seguras”, acrescentou. “Este cessar-fogo não está em vigor dessa forma”.
“Ficamos chocados com o que aconteceu, foi um desastre enorme. Estamos em uma zona verde, havia um cessar-fogo e tudo mais, e estávamos sentados em segurança em nossa casa”, disse Ahmad Akram Alwan, proprietário de um terreno próximo ao prédio e que estava na casa ao lado no momento do ataque. “Não temos nada a ver com isso. De repente, nos encontramos sob os escombros. Essa é a nossa situação em Gaza.”
Em comunicado, o Hamas classificou a onda de bombardeios como “uma escalada criminosa perigosa e uma violação flagrante do acordo de cessar-fogo. Trata-se de uma tentativa deliberada de perturbar a situação, burlar as obrigações do acordo e obstruir a transição para a segunda fase”.
O cessar-fogo não avançou além da primeira fase, que contemplou a retirada parcial das tropas israelenses e a troca de prisioneiros. Em vez disso, Israel tem consolidado seu controle sobre mais de 50% do enclave por meio da construção de infraestrutura militar e da destruição de edifícios existentes, aparentemente preparando o terreno para estabelecer uma presença permanente na maior parte da Faixa de Gaza.
*Matéria originalmente publicada em inglês na Drop Site News de 8 de janeiro. Colaborou Jawa Ahmad.
Israel mata cinco crianças em ataque à “zona segura” de Gaza, e reinicia genocídio com onda de ataques


