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#8M

8 DE MARÇO CONTRA O FEMINICÍDIO E A VIOLÊNCIA POLÍTICA E DIGITAL CONTRA MULHERES JORNALISTAS

Direção do SJSP

O 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, volta a ocupar as ruas e os espaços de debate público em um cenário marcado por retrocessos e disputas profundas em torno dos direitos das mulheres. Mais do que uma data simbólica, trata-se de um marco histórico de resistência, que reafirma a necessidade de enfrentar a escalada dos feminicídios, a violência política de gênero e o avanço de forças de extrema direita, no Brasil e no mundo, que têm entre seus alvos a autonomia feminina.

Enquanto você lê este texto, uma mulher brasileira é vítima de alguma brutal violência de gênero – agressão, estupro ou feminicídio. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública revelam que o número de feminicídios bateu recorde em 2025: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro — mais de quatro mulheres assassinadas por dia em razão de seu gênero. O total superou o já grave número de 2024, quando foram registrados 1.464 casos.

A situação é igualmente dramática quando se observa a violência sexual. Em 2024, foram registrados mais de 83 mil casos de estupro no país, segundo dados informados pelos estados e pelo Distrito Federal ao Ministério da Justiça. Isso representa uma média de 227 vítimas por dia — aproximadamente nove por hora, ou um estupro a cada seis minutos. A maioria das vítimas é composta por meninas e adolescentes, o que revela a dimensão estrutural e brutal dessa violência.

Especialistas e entidades de defesa dos direitos humanos apontam que esse cenário está associado a um ambiente político e cultural marcado pela naturalização da misoginia, intensificada a partir de 2018, que contribuiu para a legitimação de discursos de ódio e para o enfraquecimento de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

A retórica agressiva, a desqualificação das pautas de gênero e o estímulo à violência simbólica — amplificados por figuras públicas como Jair Bolsonaro — criaram um terreno fértil para ataques que extrapolam o campo discursivo e se materializam em agressões físicas, perseguições e assassinatos.

As mortes de mulheres e meninas também se relacionam à ausência de políticas públicas que garantam direitos reprodutivos. A clandestinidade do aborto expõe milhares à insegurança e ao risco de morte. Defender a vida das mulheres é garantir autonomia sobre seus corpos e acesso a políticas de saúde seguras e legais.

O trabalho das mulheres

A desigualdade salarial, as jornadas extenuantes e a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado, ainda majoritariamente atribuído às mulheres, aprofundam as desigualdades. A redução da jornada sem redução salarial e o fim da escala 6×1 são medidas fundamentais para melhorar a qualidade de vida das trabalhadoras e enfrentar as múltiplas jornadas que recaem sobre elas.

A luta internacionalista das mulheres

Esse fenômeno não é isolado. A Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), por meio de seu Conselho de Gênero, alertou, em dezembro de 2025, que o crescimento global do extremismo representa uma ameaça sem precedentes aos direitos das mulheres e à segurança das jornalistas. Em declaração pública, endossada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a entidade destacou que movimentos extremistas têm impulsionado ataques direcionados, especialmente por meio de abusos online, assédio, violência e campanhas coordenadas de desinformação.

O alerta da FIJ é respaldado por casos concretos. No Afeganistão, sob o regime talibã, 87% das mulheres jornalistas relataram sofrer discriminação de gênero e 60% perderam seus empregos. Na Europa, jornalistas investigativas passaram a receber ameaças de morte após reportagens sobre partidos de extrema direita. Na Argentina, apoiadores do presidente Javier Milei promovem ataques misóginos contra profissionais da imprensa. Na Somália, grupos extremistas armados seguem ameaçando mulheres jornalistas com o objetivo de silenciá-las.

No Brasil, a retirada de direitos intensificada pela reforma trabalhista aprofundou a precarização das relações de trabalho, ampliou a pejotização e consolidou práticas abusivas de gestão, contribuindo para o adoecimento das mulheres trabalhadoras.

O cenário internacional, marcado por investidas dos Estados Unidos contra a soberania dos povos, dialoga diretamente com a realidade brasileira, inclusive por meio de sanções econômicas, supertaxações de produtos nacionais e ameaças políticas e militares.

Nossa solidariedade aos povos que resistem, como Irã, Venezuela, Cuba e Palestina, onde o genocídio promovido por Israel, com apoio dos Estados Unidos, atinge de forma devastadora mulheres e crianças.

Mulheres jornalistas na linha de frente

No Brasil, jornalistas enfrentam uma combinação perversa de desigualdade estrutural e violência direcionada. Nas redações, assessorias, coletivas e coberturas de rua, são frequentemente interrompidas, desacreditadas e submetidas a questionamentos constantes sobre sua autoridade, além de alvos dos assédios sexual e moral. Recebem salários menores, são menos promovidas e têm sua competência colocada sob suspeita. O machismo não é um ruído externo: ele estrutura relações, define oportunidades e atravessa trajetórias profissionais.

Além disso, os ataques digitais tornaram-se rotina. A exposição nas redes sociais, especialmente quando a cobertura envolve direitos das mulheres, violência de gênero ou denúncias contra figuras públicas alinhadas à extrema direita, desencadeia ondas coordenadas de assédio e ameaças. O objetivo é claro: intimidar, silenciar e expulsar essas profissionais do espaço público.

Ainda assim, as mulheres jornalistas seguem na linha de frente. Investigam, denunciam, apuram com rigor e sustentam a informação com coragem — mesmo quando os ataques deixam de ser apenas profissionais e se tornam pessoais.

O EMJor e suas potencialidades

É nesse contexto que a organização coletiva ganha centralidade. O Encontro Nacional de Mulheres Jornalistas (EMJor), cuja primeira edição foi realizada em São Paulo, em 2024, com apoio do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP), consolidou-se como um marco histórico de articulação e formulação política da categoria. A segunda edição, que está sendo preparada para ocorrer em Curitiba (PR), entre os dias 3 e 6 de dezembro, reforça o espírito de luta das jornalistas e reafirma o EMJor como espaço estratégico de fortalecimento, denúncia e construção de caminhos concretos para enfrentar as desigualdades de gênero no jornalismo.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), em consonância com a Fenaj e a FIJ, reitera que a igualdade de gênero é pauta sindical e democrática. Por isso, soma-se à luta por uma legislação mais robusta, proteção efetiva às profissionais que cobrem grupos extremistas, responsabilização dos agressores e maior compromisso das plataformas digitais no combate ao assédio online.

Respeito às mulheres jornalistas não é concessão — é princípio democrático. Não existe imprensa livre quando mulheres são silenciadas ou deslegitimadas.

Neste 8 de Março, a luta contra o feminicídio, contra a violência política e contra o extremismo que busca controlar corpos e vozes femininas reafirma-se como tarefa coletiva.

Lugar de mulher é na pauta, na reportagem, na chefia, na presidência de sindicatos e federações — onde ela decidir estar. E com respeito. Sempre.

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