Violência contra jornalistas, atentado à democracia - a opinião do SJSP

 
Vítimas do regime militar que tomou conta do Brasil após o golpe de 1964, jornalistas foram assassinados, torturados, perseguidos, ameaçados, presos ou banidos do país....

 

Vítimas do regime militar que tomou conta do Brasil após o golpe de 1964, jornalistas foram assassinados, torturados, perseguidos, ameaçados, presos ou banidos do país. As redações em que trabalhavam foram ocupadas por agentes da repressão encarregados da censura prévia que manipulava informação e não admitia diferenças de opinião. A verdadeira história da violência contra jornalistas, que arriscaram a vida e encararam a morte na luta pela redemocratização no país, vem sendo passada a limpo por várias Comissões da Verdade, especialmente a do SJSP.


Passados quase 50 anos do golpe militar, com o Brasil em plena redemocratização, uma cena está virando rotina nas manifestações de rua: profissionais de imprensa são alvo intencional de spray de pimenta, gás lacrimogêneo e balas de borracha, sofrem agressões verbais e físicas, recebem voz de prisão de policiais truculentos que agem com o aval de governos despreparados para o convívio democrático. Em São Paulo, essa é a política adotada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que não consegue conter a onda de violência crescente e os altos índices de criminalidade, mas tem uma polícia agressiva contra jornalistas.


Infelizmente, esses fatos não são isolados e a prática truculenta não está restrita às manifestações de rua. Quem se incomoda com o clique de uma máquina fotográfica ou com informações de um texto, não hesita em agir com violência. Repórteres fotográficos sofrem com o despreparo dos seguranças em eventos públicos, atos políticos e shows artísticos. Até alguns manifestantes e jovens estudantes agridem profissionais de imprensa e querem impor censura ao exercício profissional, confundindo os trabalhadores com a linha editorial dos donos dos veículos de comunicação.


Enfim, vivemos tempos de banalização e cultivo da violência exatamente por quem deveria garantir a segurança de profissionais e cidadãos. O forte aparato militar que ainda existe no estado  everia ser urgentemente desmontado e desmilitarizado. Caso contrário, o jornalista, que sempre esteve no olho do furacão na busca de notícias, continuará se transformando em alvo fácil.


A Fenaj, em sua Comissão Nacional de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa, acompanha a situação da violência contra os jornalistas desde 1998, através de relatórios anuais, fazendo uma radiografia da situação brasileira. O próprio SJSP se incumbiu, durante os protestos de junho, em fazer um relatório dos jornalistas feridos e detidos pela PM e  agredidos pelos manifestantes. Também a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) apontou  em levantamento que, de vinte agressões registradas contra jornalistas, 85% foram cometidas pela PM. Em 2012, estudo do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) já apontava que o Brasil ocupava o terceiro lugar nas Américas e o 11º no mundo no ranking de impunidade de crimes praticados contra os profissionais de imprensa.


A situação é tão preocupante que, recentemente,  a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República reconheceu que os ataques recentes da PM a jornalistas são "resquícios da ditadura militar".


Mesmo diante de tanta adversidade, os jornalistas de SP têm dado demonstração de força e unidade. É chegada a hora da reação e da discussão necessária para dar um basta aos aparelhos de repressão do Estado que assumem o papel de violadores da liberdade de imprensa e dos direitos humanos. Verdadeiro atentado à democracia.