Jornalistas relatam escalada de ataques em Ato em Defesa do Jornalismo e da Democracia

Por Adriana Franco - Sindicato dos Jornalistas de SP / Fotos: Cassia Belini

Patrícia Campos Mello, Bianca Santana, Carla Vilhena, Flávia Oliveira, Josi Gonçalves, Amanda Audi, Paula Guimarães, Tatiana Dias, Tai Nalon e Juliana Dal Piva foram algumas das mulheres jornalistas que emprestaram sua voz e sua coragem para relatar alguns dos ataques que sofreram no último período durante o Ato em Defesa do Jornalismo e da Democracia, realizado nesta terça-feira (27), na PUC São Paulo. Elas são apenas algumas das mulheres jornalistas que sofreram ataques virtuais, ameaças, assassinato de reputação e perseguição judicial.

O Ato, organizado pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) e mais 15 entidades, evocou um BASTA aos ataques em uma defesa intransigente do Jornalismo e da Democracia.

A repórter da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, agradeceu publicamente ao apoio das entidades organizadoras do ato, que asseguram o exercício profissional das jornalistas atacadas. Patrícia relatou que a agressão mais emblemática que sofreu foi do presidente da República, Jair Bolsonaro, que misturou o jargão jornalístico para uma notícia ainda não divulgada, denominado furo, com o orifício do corpo humano. O ataque fez com que a jornalista recebesse centenas de mensagens pornográficas e com relação a sexo anal, insinuando seu exercício profissional com a troca de favores sexuais. Segundo ela, este ataque segue se repetindo sempre que publica uma nova matéria.

“Até hoje, quando eu faço uma matéria, vem estes comentários. Vira e mexe voltam com a história ou voltam com alguma coisa e isso está acontecendo com todo mundo: muitas jornalistas e muitos jornalistas. É ainda pior com jornalistas negras e trans e, se não fosse a ação de entidades como as que estão organizando o ato hoje e também a sororidade e apoio das jornalistas que se uniram e se ajudaram, teria sido muito difícil para mim, para a Bianca Santana, para a Miriam, para a Vera, e para milhares que estão em lugares que não são tão visíveis da mídia, em cidades menores. Temos que continuar fazendo o nosso trabalho e resistir. Resistir é o quê? Continuar investigando, continuar fazendo reportagem e é assim que a gente pode defender [a democracia e o jornalismo] e resistir. Mais do que fazer algum tipo de campanha ou pronunciamento, com a ajuda de entidades, a gente tem conseguido mais ou menos fazer o nosso trabalho”, disse.

Bianca Santana, jornalista e professora, contou mais detalhes sobre o episódio em que também foi atacada pelo presidente Jair Bolsonaro. Bianca foi acusada de cometer fake news durante uma live do presidente na mesma semana em que publicou um artigo relacionando os mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes com a família Bolsonaro. Além disso, o texto citado não era de Bianca e, sim, de uma de suas alunas, fazendo um aceno velado não só ao exercício de Bianca como jornalista como também como professora, estendendo o ataque a uma de suas alunas.

“Em uma de suas lives, Bolsonaro leu e atribuiu a mim uma manchete publicada em 2014. Além de a acusação ter sido falsa, houve um componente que me assustou em especial e que escolhi não trazer à público naquele momento. A reportagem citada por ele foi escrita por uma pessoa que eu conhecia. Saber que a repórter que assinou aquele texto havia sido minha aluna, ativou em mim um terror psicológico perverso. Havia uma ameaça explícita que dizia a seus seguidores: ‘essa jornalista é alvo’, mas havia ainda uma ameaça velada, afinal eu sabia quem era a autora do texto e que tínhamos uma relação professora-aluna de respeito e afeto. Eu alertei, mas não falei publicamente sobre isso e decido fazer essa menção agora para que não reste dúvida sobre a perversidade que temos vivido nos últimos quatro anos. Bolsonaro não apenas defende torturadores, ele mesmo promoveu terror em seus anos de governo e convocou seus iguais a fazerem o mesmo, especialmente contra jornalistas e contra mulheres”, alertou Bianca.

Representando as 16 entidades organizadoras do ato, Paulo Zocchi, vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e diretor do SJSP, destacou como os depoimentos mostram uma realidade dura da categoria e do país.

Para Zocchi, o jornalismo não poderia ser uma profissão de risco e, por isso, não podemos naturalizar essa situação. “O fato é que no Brasil, nos últimos anos, a violência contra os profissionais é uma preocupação constante e crescente da nossa categoria inteira. Jornalistas são agredidos pelo poder de Estado, notadamente pela Polícia Militar - sobretudo em situações de rua, o que tem deixado alguns companheiros e companheiras com graves sequelas. Jornalistas são perseguidos judicialmente e, infelizmente, se inclui até mesmo o Supremo Tribunal Federal. Jornalistas são agredidos por manifestantes de diversas matizes [ideológicas] a partir do agravamento das tensões políticas que nós vivemos no Brasil. E, desde 2019, os jornalistas são agredidos principalmente pelo chefe de Estado no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro”, discursou Zocchi.

Ao citar os alarmantes números de violência sofridos pela categoria, registrados por diferentes organizações que fazem acompanhamentos deste tipo, Zocchi constatou que, com Bolsonaro no governo, os jornalistas sofrem três vezes mais agressões do que antes. Além disso, como constata o relatório anual da Fenaj, Bolsonaro é o principal agressor da categoria, totalizando 34% dos ataques promovidos apenas em 2021.

As três condenações sofridas por Bolsonaro por promover ofensas e assédio aos jornalistas foram citadas por Zocchi. Patrícia Campos Mello e Bianca Santana se somam ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo nas ações movidas contra o chefe do executivo brasileiro por atacar e ofender jornalistas.

Bianca Santana obteve êxito na Justiça em primeira e segunda instância pelo ataque a uma jornalista negra. Patrícia Campos Mello venceu, em junho, na primeira instância pelo ataque de cunho sexual e, de forma inédita, o SJSP venceu ação, em primeira instância, condenando Bolsonaro por assédio moral coletivo contra a categoria de jornalistas.

Zocchi elencou ainda os motivos que levam Bolsonaro a atacar o jornalismo, citando, por exemplo, a intolerância de Bolsonaro à livre circulação de informações na sociedade, papel essencial da imprensa. “A simples divulgação de notícias mostra aos brasileiros que o presidente da República e sua família estão envolvidos em inúmeros casos de corrupção há muito tempo e em várias esferas”, enumera.

Além disso, Paulo Zocchi citou os ataques do atual Governo à comunicação pública, como na tentativa de aparelhamento da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e, mais recentemente, aos ataques promovidos contra a jornalista Kariane Costa, representante dos trabalhadores junto às esferas de decisão da empresa.

Segundo Zocchi, a imprensa é responsável por mostrar à sociedade que o atual governo aplica uma política contrária aos interesses da grande maioria da população brasileira, bem como incentiva a destruição da Amazônia, persegue indígenas, quilombolas e ataca os fundamentos da democracia fazendo permanentes ameaças de golpe de Estado.

“É por isso que Jair Bolsonaro lança mão de mentiras, as ditas fake news, em escala industrial. Para que prosperem, ele ataca a imprensa de forma brutal e sistemática. Pela sua lógica, é preciso desacreditar quem tem credibilidade informativa para que prevaleça, então, um vale tudo. Além da agressividade da mentira, Bolsonaro lança mão do preconceito, da homofobia, da xenofobia e da misoginia. Assim, não é coincidência que, em seus ataques, as jornalistas mulheres sejam as mais visadas. Bolsonaro explicita um ódio às mulheres altivas, seguras de si, que exercem sua profissão com brio e o desafiam com simples exercício de seu oficio”, reiterou Zocchi.

Ao final do evento, as entidades organizadoras lançaram o Manifesto em Defesa do Jornalismo e da Democracia.

Para assistir ao Ato, clique aqui.