Jornalista é agredido ao tentar receber pagamento de um frila

 
A direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) repudia a agressão física sofrida pelo jornalista Thiago Moraes de Souza Fernandes...

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A direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) repudia a agressão física sofrida pelo jornalista Thiago Moraes de Souza Fernandes, no início de abril, realizada por um funcionário empresa de telemarketing do Grupo Unite, que presta serviços terceirizados ao jornal Valor Econômico. Thiago, que foi repórter nos jornais A Tarde (da Bahia) e Folha de S.Paulo, relata que conseguiu o trabalho na empresa através de um anúncio do Facebook.

Ele solicitava com urgência jornalistas e estudantes de jornalismo para o serviço de atualização de algumas informações sobre as empresas que fazem parte do anuário Valor 1000.

Segundo o relato do jornalista, durante duas semanas, o trabalho seria ligar para as empresas para confirmar endereços, telefone e o nome e contatos de executivos de sete áreas. No entanto, por um problema técnico, o frila foi encerrado em seis dias e, ao se dirigir à empresa para receber o referente ao período, foi agredido violentamente por um funcionário da Unite de nome Leandro.

O SJSP repudia qualquer atitude de agressão contra profissionais de imprensa, está solidário com o jornalista e deverá solicitar ao jornal Valor Econômico que reveja contrato com empresa que apela para a violência contra os trabalhadores.

A direção da entidade está à disposição de Thiago para as providências cabíveis.

 

Leia o relato do jornalista sobre o episódio:


Meu nome é Thiago Moraes de Souza Fernandes e sou jornalista formado em 2004 pela Universidade Federal da Bahia e moro em São Paulo há quase dois anos. Já trabalhei para os jornais A Tarde e Folha de S.Paulo e para a revista Consumidor Moderno, entre outros.

Na segunda quinzena  do mês de março, prestei um trabalho free lancer para a empresa de telemarketing Grupo Unite, que havia sido contratada pelo jornal Valor Econômico para fazer a atualização de algumas informações sobre as empresas que fazem parte do anuário Valor 1000.

Cheguei lá a partir de um anúncio publicado no Facebook que solicitava com urgência jornalistas e estudantes de jornalismo para o serviço. Durante duas semanas, o trabalho seria ligar para as empresas para confirmar coisas como o endereço, telefone e o nome e contatos de executivos de sete áreas. O acertado seria o pagamento de 900 reais pelo período e mais 130 de ajuda de custo, 1030 reais no total. Tirando sábados e domingos, seriam 10 dias de trabalho, 103 por dia de trabalho.

O acordado comigo seria trabalhar das 14h20 às 20h40 nesse período, com dois intervalos, um de 10 minutos e outro de 30 minutos. Eu precisava registrar os intervalos no sistema de controle interno de colaboradores, da mesma forma que os funcionários contratados.

Mas acabei ficando somente pouco mais de uma semana nessa função de "Boa tarde, meu nome é Thiago Fernandes e falo em nome do jornal Valor Econômico. Estamos atualizando alguns dados sobre as maiores empresas do país e preciso confirmar algumas informações sobre a empresa".

No sexto dia de trabalho (dia 18/03), houve algum problema como o banco de dados central do cadastro e, por volta das 19h30, o supervisor Gabriel informou que não seria resolvido mais no dia e portanto, não teríamos mais como atualizar as informações. Diante disso, disse a ele que estava indo embora, o que ele não permitiu, dizendo que eu deveria  aguardar o horário de saída mesmo sem ter nada para fazer, sob risco de ter essa hora descontada do pagamento final. Disse a ele que tudo bem, poderia descontar a hora e fui embora.

Ao chegar na empresa no dia seguinte, não me deixaram passar da recepção. O segurança me abordou e disse que o Gabriel viria falar comigo. Ele chegou com mais uma pessoa que eu já tinha visto, mas que nunca havia sido apresentado. Fui dispensado por ter "saído sem autorização" no dia anterior. Era uma terça e me informaram para voltar na quinta para receber o valor proporcional aos dias trabalhados.

Na quinta-feira (28/03), fui encaminhado para falar com o sr. Leandro, que faria o pagamento. Ele disse que iria me pagar R$ 326,03, menos da metade dos R$ 721 que eu deveria receber pelo sete dias de trabalho (incluindo o dia da dispensa). Já prevendo que isso fosse acontecer, gravei toda a conversa que tive com o sr. Leandro nessa ocasião. Me recusei a receber e ele me informou que iria conversar com outras pessoas para ver a possibilidade de retificar o valor a ser pago e entraria em contato comigo na segunda-feira.

Sem nenhum contato na segunda, resolvi retornar à empresa na terça-feira (02/04). Chegando lá, fui recebido pela sra. Francine Silveira e encaminhado para novamente conversar com o sr. Leandro. Desta vez, ele me ofereceu R$ 390. Recebi o dinheiro, mas deixei claro que não sairia dali enquanto não recebesse o pagamento total pelo meu trabalho. Ele e a sra. Francine me informaram que não haveria ninguém responsável para resolver esse assunto. Segundo eles, a sra. Natália, que seria diretora da empresa, seria a única pessoa que poderia resolver a questão. Eles se recusaram a telefonar para que eu pudesse conversar diretamente com ela.

A sala em que eu estava conversando com sr. Leandro é ligada por um corredor, sem portas, à recepção onde se encontrava a sra. Francine. Saí de lá e fiquei na recepção dizendo que não sairia dali enquanto não recebesse todo o dinheiro que eles me deviam. Informei ainda aos dois que eu havia gravado e continuava gravando toda nossa conversa.

Nesse meio tempo, ainda na recepção da empresa, saíram de uma outra sala lateral três mulheres a quem eu me dirigi. Duas delas me falaram estar fazendo entrevista para trabalhar na Unite. Mesmo assim, disse a elas: "Cuidado. Eu acabei de ter um problema. Eles não me pagaram o que devem". A terceira pessoa, que já era funcionária da empresa, tentou me impedir de falar com as demais. Enquanto eu tentava falar com ela, o sr. Leandro me atacou pelas costas. Me deu um murro no lado direito do rosto, me empurrou pelas costas. Ele me bateu no braço esquerdo e nas costas. Rasgou minha camisa. Na fuga, me bati numa mesa em que estava o bebedouro, que caiu e espalhou água pela recepção.

Eu e as mulheres com que eu estava conversando corremos para dentro da sala de onde elas haviam saído. Foi quando um senhor de terno, que imaginei ser segurança do lugar, me pediu para deixar a empresa e se ofereceu para me acompanhar. Depois de me recompor na medida do possível, com a camisa rasgada e intimidado por toda aquela situação, fui com ele até a porta de entrada do prédio. No caminho, conversamos e ele me disse que não era segurança. Estava lá também para fazer uma entrevista de trabalho para a empresa.

Chegando lá, percebi que estava sem meus óculos e disse que iria voltar para pegar. Chegando novamente na recepção, pedi ao sr. Leandro meus óculos e ele me devolveu. Estavam quebrados. Depois disso, fiz menção de pegar o celular no bolso. Minha intenção era confirmar se a gravação continuava. Enquanto estava de cabeça baixa, o sr. Leandro me atacou novamente. O celular caiu no chão e pensei na hora que minha prioridade era pegá-lo antes que o agressor o fizesse. Ele me bateu novamente nas costas e o senhor que me acompanhou anteriormente interviu, segurando o sr. Leandro enquanto eu novamente me recompunha depois da nova agressão. Nessa hora, percebi que, além dos óculos e da camisa, ele ainda havia quebrado meus fones de ouvido.

Tenho as gravações dos dois dias em que eu encontrei o sr. Leandro na sede da empresa. Prestei muita atenção que lá havia ainda câmeras de segurança cujo registro espero que não tenha sido apagado pela empresa. Saí de lá direto para a delegacia. Registrei o Boletim de Ocorrência contra o Sr. Leandro e fui encaminhado para fazer o exame de corpo de delito. Espero que ele e a empresa Unite paguem pelo absurdo crime que cometeram ao agredir um profissional que estava lá apenas para receber o pagamento justo e combinado pelo trabalho contratado.