Carta da assembleia de jornalistas conclama categoria à união em prol de reivindicação da campanha salarial

Por Adriana Franco - Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

Na busca pela reposição inflacionária nos salários e demais cláusulas econômicas retroativos à data-base, os jornalistas do segmento de jornais e revistas da capital buscam sensibilizar o restante da categoria com uma carta na qual demonstram sua indignação com a proposta patronal. As empresas não ofereceram o reajuste salarial retroativo apesar dos esforços realizados pelos trabalhadores durante a pandemia.

A indignação motivou os jornalistas a sugerir a redação do documento e a cogitar a possibilidade de paralisação, caso as empresas rejeitem o pleito. Certos de que o sentimento de indignação é coletivo e de que a reivindicação apresentada às empresas – e justificada na carta – é justa, os jornalistas pretendem reunir esforços em torno de uma mobilização.

A carta é direcionada a todas as redações e pretende fazer com que a próxima assembleia seja ainda mais representativa.

Leia abaixo a carta direcionada aos jornalistas das redações de jornais e revistas da capital.

Carta às redações da capital

São Paulo, 21 de janeiro de 2021

Aos colegas e às colegas jornalistas que trabalham em jornais e revistas da capital

Hoje foi realizada a assembleia convocada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para discutir a contraproposta das empresas de jornais e revistas da capital em relação à Convenção Coletiva de Trabalho 2020-2021. Foi uma assembleia ampla e representativa, na qual um debate sobre a nossa atividade e a campanha salarial se desenvolveu.

A primeira proposta patronal, apresentada em dezembro, havia sido de reajuste ZERO – rejeitada por unanimidade em uma assembleia anterior nossa. Mantivemos a reivindicação de 2,05% de reajuste nos salários e demais cláusulas econômicas, retroativo à data-base, que é 1º de junho.

A nova proposta patronal, debatida hoje, era: reajuste de 2,05% para salários até R$ 10 mil, a partir do mês de assinatura da renovação da Convenção; reajuste fixo de R$ 205 para salários superiores a R$ 10 mil; pagamento zero de multa de PLR; reajuste zero para as demais cláusulas econômicas (vale refeição, vale transporte, auxílio creche etc.).

O sentimento entre os presentes à assembleia foi de indignação e de inconformismo com essa proposta apresentada.

Quer dizer que, depois de termos enfrentado enormes dificuldades para manter a nossa atividade, nos arriscando diariamente para levar informação bem apurada para os leitores, as empresas que nos contratam sequer se dispõem a repor as perdas inflacionárias do período? É uma afronta, ainda mais quando sabemos que os índices de inflação subiram nos meses mais recentes. E que a inflação dos alimentos ou o índice que corrige valores de aluguéis, por exemplo, são bem maiores do que os 2,05% reivindicados.

As empresas repetem o velho chavão da crise, mas sabemos que a realidade é mais complexa. As dificuldades atingem cada setor e cada segmento econômico de forma diferente.

A maior parte de nós está atuando em home office. Isso significa mais trabalho, o que deve ser reconhecido e recomposto financeiramente. Enquanto nos desgastamos mais e arcamos em casa com diversos custos que não tínhamos na situação pré-pandemia, nossos empregadores economizam com gastos de energia, telefonia, água e materiais de higiene e escritório, além da alimentação subsidiada no local de trabalho.

Algumas das empresas que argumentam não ter recursos para recompor os salários a partir de junho nem pagar a modesta multa a título de PLR são as mesmas que fizeram gastos extraordinários em 2020, como a contratação de consultoria internacional ou o pagamento de prêmios a jornalistas sem critérios claros, provocando indignação na redação.

Por tudo isso, decidimos responder aos patrões com as seguintes propostas:

• como prova de nossa disposição para negociação, concordamos com o reajuste de 2,05% para salários até R$ 10 mil, com valor fixo de R$ 205 acima disso (apesar de considerarmos correto reajuste integral a todos os salários);

• exigimos que esse reajuste seja retroativo à data-base (1º de junho) e, também para facilitar um acordo, aceitamos que o valor atrasado seja parcelado;

• queremos manter a multa da PLR e todas as cláusulas econômicas reajustadas pelo índice de 2,05%.

Não dá para aceitar a argumentação de que as empresas jornalísticas não têm capacidade de recompor o valor dos salários. É o mínimo que esperamos de quem depende de nosso trabalho para manter os seus negócios.

Para quem ganha R$ 5 mil mensais, o pagamento de 2,05% retroativos a junho representa R$ 820 (R$ 102,50 de junho a dezembro, mais 13º). Para os salários superiores a R$ 10 mil, o valor desse atrasado é de R$ 1.640. São valores que fazem muita diferença em nossos salários e pesam pouco para nossos empregadores.

Este é um chamado também a todas as redações da capital. Para sermos vitoriosos nesta campanha salarial, é necessário mostrar às empresas que a categoria está atenta, unida e mobilizada.

A disposição e a combatividade que presenciamos na assembleia de hoje têm de se espraiar para todos os locais de trabalho. Devemos fazer com que a próxima assembleia seja ainda mais representativa do conjunto dos jornalistas e das jornalistas. E precisamos também começar a discutir, entre nós, formas de mobilização mais efetivas, para deixar claro que não iremos ceder e exigimos o atendimento das reivindicações apresentadas. No debate de hoje houve propostas de paralisação do trabalho por um dia, para fazer efetiva pressão sobre as empresas, mas tal possibilidade ficou para ser avaliada à luz da resposta patronal, e teria de ser preparada por reuniões amplas (e virtuais) por redação.

(texto redigido pela direção do Sindicato dos Jornalistas, por decisão da assembleia, com o objetivo de reportar o debate realizado e levá-lo a todas as redações)