Tinhorão, o legendário

O polêmico crítico da música popular brasileira tornou-se um pioneiro historiador da cultura urbana e continua fiel às suas ideias

Por Elizabeth Lorenzotti - Rede Brasil Atual*

O pesquisador musical e escritor em 2009: ele começou a trabalhar em jornais nos anos 1950 e escreveu mais de 30 livros. Foto: Paulo Pepe/Rede Brasil AtualO pesquisador musical e escritor em 2009: ele começou a trabalhar em jornais nos anos 1950 e escreveu mais de 30 livros. Foto: Paulo Pepe/Rede Brasil AtualNo ano passado, enquanto o país celebrava os 50 anos da bossa nova, José Ramos Tinhorão, seu crítico mais polêmico e devastador, fazia 80. Radical como sempre, proclamou, rindo: “Chega de saudade! Cinquenta anos de admiração pela música norte-americana! Para com isso, rapaziada!”. Silêncio total. Tinhorão não fez parte das comemorações, nem para registro. O jornalista tem 22 livros publicados no Brasil, outros cinco em Lisboa e hoje é um respeitado historiador da cultura popular urbana. Neste ano serão lançados Música Popular no Tempo da Revolução, pesquisa sobre o tema na época da Revolução Francesa; As Origens da Canção Urbana, publicado em Portugal em 1997 e inédito no Brasil; e a quinta edição de Música Popular, Um Tema em Debate, todos pela Editora 34.

Para quem não o conhece, ou já esqueceu as histórias que o cercam, é bom lembrar alguns fatos. A famosa apresentação da bossa nova no Carnegie Hall foi em 21 de novembro de 1962, mas já em 23 de março daquele ano, na série de matérias sobre a história da música popular brasileira, no Caderno B do Jornal do Brasil, Tinhorão demolia: “Samba bossa nova nasceu como automóvel JK: apenas montado no Brasil”.

Foi aí que começou o ódio contra ele, acredita. Artigos como esse foram incluídos, em 1962, no livro Música Popular, Um Tema em Debate. “Esses artigos, escritos no calor da hora, são lidos até hoje como História. É o meu livro mais reeditado”, orgulha-se.

Também faz parte do livro outro artigo, igualmente devastador, publicado na revista Senhor em 1963 sob o título “Os pais da bossa nova”, com a seguinte abertura: “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana – que é, inegavelmente, sua mãe —, a bossa nova vive até hoje o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana: não sabe quem é o pai”. Quando a bossa nova começou a fazer sucesso no Brasil, todo mundo queria ser o pai, explica. “Nasceu no apartamento de Nara Leão, e quem estava lá? Vinícius, Lira, Baden? O violonista Laurindo de Almeida, trabalhando nos Estados Unidos, também queria a paternidade”.

O artigo provocou grande reação entre os jovens adeptos da bossa. Lembra o crítico: “Impossibilitados de responder ao principal ponto – um primeiro levantamento das raízes do processo de alienação cultural imposta à música popular –, partiram para o lado pessoal”. Em 1966, em um show produzido por Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, Taiguara atirava longe o livro e dizia: “O livro do Tinhorão dura apenas cinco minutos, a bossa nova já vai fazer dez anos”. Mas os dois alcançaram a posteridade.

Marxista, nacionalista, Tinhorão sempre tomou o lançamento de discos como pretexto para tocar em problemas sociais e culturais. Ganhou a desconfiança da direita e da esquerda. Foi demitido da TV Globo no dia 31 de março de 1964 e, por outro lado, foi acusado de ser agente da CIA. A massificação da cultura e a suposta diluição de valores nacionais foram apontados desde sempre pelo jornalista.

Sempre fiel ao materialismo dialético, ele entende que a História é a crônica dos homens no mundo, ou seja, de suas relações com a natureza e com os outros homens. Das relações de produção derivam as relações sociais e, no sistema capitalista, a divisão em classes. Cada classe tem suas ideias básicas admitidas como boas, sua ideologia. Em música, teatro, literatura e outras artes essa produção também projeta uma ideologia e, numa sociedade de classes, o que se chama cultura é uma cultura de classes.

Erva tóxica

Tinhorão – uma planta ornamental, porém tóxica – não é seu sobrenome, mas apelido dado por Everardo Guillon, secretário de redação do Diário Carioca, onde o jornalista se profissionalizou a partir de 1953. O batismo definitivo, em letra impressa, veio do chefe de redação, Pompeu de Souza Brasil, ao assinar a primeira matéria do foca.

Esse santista, radicado desde a infância no Rio de Janeiro, formado em Direito e em Jornalismo, foi contratado como redator, dentro da primeira grande transformação da imprensa brasileira: a introdução do lead, a implementação do primeiro manual de redação brasileiro. Exímio redator de textos-legenda, foi apelidado de “Tinhorão, o legendário”. A brincadeira serviu tanto para as legendas quanto para a lenda urbana em que se transformou. Naquela grande época da imprensa, Tinhorão trabalhou com jornalistas como Reynaldo Jardim, Sérgio Cabral, Prudente de Moraes, neto, Janio de Freitas, Nelson Rodrigues, entre tantos outros que também se tornaram lendas.

Virou personagem da peça rodriguiana Engraçadinha, da qual só tem um reparo a fazer: na minissérie, exibida anos atrás pela Globo, Tinhorão aparece como proprietário de um carro bem caído. Mas na verdade ele tinha um Ford conversível 1935, em ponto de bala.

No Diário Carioca ficou até 1958, quando foi convidado para o Jornal do Brasil, onde trabalhou até 1963 e depois colaborou como crítico entre 1974 e 1982. E despertou iras. Uma delas foi imortalizada em letra de música possivelmente inspirada no artigo intitulado “O melhor de João Bosco é Aldir Blanc”. Aldir, com Maurício Tapajós, em Querelas do Brasil, fala das coisas que o Brazil com “z” não conhece, entre elas “tinhorão, urutu, sucuri”. E no verso seguinte cita aves canoras: “O jobim, sabiá, bem-te-vi”. Tom Jobim, aliás, conta a lenda, certa época comprou um vaso de tinhorão, colocado na porta de entrada de sua casa, onde diariamente fazia xixi.

Acervo na quitinete

Tinhorão passou pelas redações do Correio da ManhãO Jornal, Última Hora, TV Globo, revistas Veja e Nova. No fim da década de 1970, resolveu largar tudo e viver para escrever seus livros. Foi morar em uma quitinete na Rua Maria Antônia, centro de São Paulo, entupida com seu precioso acervo. Quando não dispunha de mais nenhum centímetro quadrado livre em sua quitinete, pensou em vender o acervo, mas não teve coragem. Até que o Instituto Moreira Salles adotou a coleção: 6.500 discos gravados em 76 e 78 rotações por minuto, entre 1902 e 1964; 6 mil discos em 33 RPM de 1960 a 1990, e livros, partituras, folhetos, revistas e documentos raros sobre música e cultura popular urbana no Brasil. Muita coisa, ele garante, nem a Biblioteca Nacional tem. “Os professores querem só o que está dentro da biblioteca da universidade. Eu ando em sebo há 40 anos, descubro muitas coisas. Por isso, hoje, muita gente come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”, reclama o crítico.

Ele escreve em média um livro a cada dois anos, e nos 22 publicados no Brasil até agora, contabiliza 2.845 citações de livros, artigos e documentos (impressos e manuscritos). “Está tudo documentado. Para me contestar, é preciso contar outra história e isso nunca aconteceu.”

*Elizabeth Lorenzotti é jornalista, autora da biografia Tinhorão, O Legendário, a ser lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo