Quantas (os) somos e onde estamos?

Por Flávio Carrança*

A participação de jornalistas negras (os) no mercado de trabalho é proporcionalmente muito menor que o peso desse segmento no conjunto da população brasileira e isso tem consequências negativas para os conteúdos produzidos pelos veículos de comunicação. Essa afirmação, que não será analisada em profundidade aqui, está no centro das preocupações da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – Cojira SP, órgão de assessoria da diretoria deste sindicato, fundada em 2001.

A passagem de mais um Dia da Consciência Negra é uma oportunidade para chamar a atenção de nossa categoria sobre a importância de se aprofundar a reflexão sobre presença/ausência de profissionais negras e negros em nosso mercado de trabalho e seus efeitos. 

Há cerca de 17 anos, quando preparava um artigo que iria integrar a coletânea “Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro”, que organizei em parceria com a colega Rosane da Silva Borges (IMESP, 2004), me deparei com uma extrema dificuldade em obter informações organizadas sobre esse tema.  Depois de muita procura, graça à preciosa ajuda de Nelson Sato, profissional na época responsável pela elaboração das estatísticas do Sindicato, obtive informações do Ministério do Trabalho que comprovavam o que inferíamos pela vivência cotidiana nas redações, a reduzida presença de negros e negras nos locais de trabalho de jornalistas.  Felizmente, nos últimos anos, a preocupação com esse tema, antes bastante circunscrita a alguns poucos pesquisadores e ativistas sindicais, transcendeu esse âmbito, ganhando espaço na sociedade brasileira.

Teve ampla difusão na rede o episódio dos debates da Globonews sobre o assassinato de George Floyd, um primeiro momento apenas com jornalistas brancos e, depois de protestos, com seis jornalistas negras (os) da casa. É evidente que a dificuldade da Globo em reunir os jornalistas negros para um debate tem a ver com reduzida presença de profissionais com esse perfil.

De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no estado de São Paulo, em 2018, eram pretos e pardos apenas 13,5% dos jornalistas com carteira assinada, que recebiam rendimentos, em média, 30,4% menores que os salários pagos aos brancos. A informação consta de artigo publicado na revista piauí, edição de julho deste ano (É SÓ O COMEÇO: O racismo e a imprensa brasileira), pela jornalista negra e ombudsman da Folha de São Paulo, Flavia Lima, que informa também sobre um levantamento  feito em 2019  pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Esse estudo levantou a composição racial dos colunistas dos três jornais de maior circulação no Brasil – Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo e revelou que os homens brancos eram 68% e as mulheres brancas chegavam a 28%. Os homens negros não passavam de 2%. As mulheres negras também ficavam em 2%.

Como observa Flavia Lima, há grande descompasso desses números com os 56,4% de brasileira(o)s que se declaram pretos e pardos. E isso tem consequências negativas para a cobertura de temas que envolvem e são do interesse da população negra. Felizmente, mesmo neste tempo de autoritarismo crescente e exacerbação do racismo explícito, é possível perceber na sociedade brasileira e, particularmente, entre jornalistas e até mesmo em algumas empresas desse setor, a consciência da necessidade de alterar esse quadro. Ainda é pouco, mas é um começo. 

* Flávio Carrança é Jornalista com passagem por diversas redações de rádio e TV e revisor, diretor do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial - Cojira SP.  É coautor de Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro – coletânea organizada em parceria com Rosane da Silva Borges e publicada em 2004 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – IMESP. É também coautor, com Maria Aparecida da Silva Bento, da coletânea Diversidade nas Empresas & equidade racial, publicada em 2017 pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – Ceert.