Para Bianca Santana, desculpa de Bolsonaro não diminui a gravidade dos ataques promovidos contra jornalistas

Por Adriana Franco - Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

Ação por dano moral movida por Bianca Santana contra Bolsonaro pede retratação pública, retirada do ar do trecho que a menciona e indenização por dano moral. / Foto: Arquivo pessoalAção por dano moral movida por Bianca Santana contra Bolsonaro pede retratação pública, retirada do ar do trecho que a menciona e indenização por dano moral. / Foto: Arquivo pessoal

“Pedir desculpas por um ataque específico não diminui o que Bolsonaro tem representado para a categoria dos jornalistas no geral, então eu sigo com o processo na justiça. Uma condenação nesse caso, especificamente em um processo que, além do meu caso, menciona em seu texto os ataques feito a jornalistas, é um marco e uma condenação importante para que possa contribuir com a constituição de um ambiente mais seguro para que os jornalistas façam o seu trabalho.” É assim que a jornalista Bianca Santana resume sua decisão em continuar com o processo na justiça contra o presidente Jair Bolsonaro por dano moral após o pedido de desculpas por tê-la associado a uma notícia que, segundo ele, era uma fake news.

O pedido de desculpas de Bolsonaro foi feito na noite desta quinta-feira, 30 de julho, durante uma transmissão ao vivo em rede social. Bolsonaro afirmou ainda ter tirado do ar o vídeo no qual acusava a jornalista. A acusação havia sido feita em 28 de maio, em outra transmissão ao vivo, e é objeto de uma ação civil movida pela jornalista Bianca Santana contra o presidente por dano a sua honra.

A jornalista afirmou ainda que o pedido de desculpas não foi por tê-la acusado de publicar fake news, mas por tê-la atribuído um texto que ela não escreveu.

A ação movida por Bianca Santana pede retratação pública, retirada do ar do trecho que a menciona e indenização por danos morais. Segundo ela, parte dos seus pedidos já foram antecipadamente atendidos pelo presidente, faltando apenas a indenização que, caso seja cedida no desenrolar da ação, será doada integralmente para projetos que buscam justiça em relação ao assassinato de Marielle Franco. “Eu gostaria muito que a justiça compreendesse a importância de que eu receba a indenização e que, como eu acredito ter sido mencionada [na transmissão ao vivo de maio] por tê-lo relacionado ao assassinato de Marielle, é legítimo que eu possa destinar o dinheiro de uma indenização para esse tema. A sociedade brasileira e o mundo inteiro querem saber quem mandou matar Marielle”, destacou Bianca.

Para além de contribuir com a busca pela verdade e justiça no caso de Marielle, a jornalista espera que a ação traga ainda contribuições para a segurança do exercício profissional dos jornalistas. Segundo Bianca, as instituições brasileiras, incluindo o judiciário, devem defender a Constituição e defender que os jornalistas possam exercer a sua profissão com liberdade de expressão. “Se o presidente da República é alguém que tem descumprido e que tem impedido e atrapalhado o trabalho jornalístico, as instituições outras, além do Poder Executivo, precisam tomar providências para que ele aja corretamente”, pontuou.

Em entrevista à edição 405 do jornal Unidade, Bianca destacou o jeito atrapalhado de Bolsonaro que embaralha as narrativas e deixa dúvidas sobre a sua real intenção, mas que, para ela, é proposital. Ao lembrar, na entrevista, o episódio em que é citada por Bolsonaro, Bianca disse: “Mas ele realmente não se confundiu. De fato, falou meu nome, provavelmente para me dizer que estou no radar, e também para me colocar no radar das milícias digitais.”