“O jornalista pertence a uma tribo. O Sindicato é a marca dessa tribo”

Confira a entrevista exclusiva com José Hamilton Ribeiro, sindicalizado e engajado nas lutas do Sindicato dos Jornalistas há 61 anos

Por Flaviana Serafim - Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

José Hamilton Ribeiro e o livro sobre os 60 anos de história do Sindicato, publicado em 1998. Foto: Flaviana Serafim/SJSPJosé Hamilton Ribeiro e o livro sobre os 60 anos de história do Sindicato, publicado em 1998. Foto: Flaviana Serafim/SJSPO repórter José Hamilton Ribeiro, 83 anos de idade e mais de 60 de carreira, é história viva do jornalismo brasileiro. Seja na cobertura de guerra ou na vida do homem do campo, é o jornalista mais premiado do país, ganhador, entre outros, de sete prêmios Esso.

Ele começou na Rádio Bandeirantes na década de 1950, percorreu o Brasil e o mundo trabalhando em redações como a do jornal Folha de S.Paulo, das revistas Realidade e Quatro Rodas, e da Rede Globo, onde há 36 anos é repórter do Globo Rural.

Sindicalizado há 61 anos, Zé Hamilton sempre esteve engajado nas atividades do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP). Fez parte da diretoria durante a gestão de Audálio Dantas, de 1975 a 1978, e foi vice-presidente de 1990 a 1993, durante o mandato de Antônio Carlos Fon.

“O jornalista pertence a uma tribo e o Sindicato é a marca dessa tribo porque o jornalista é muito mais ligado ao jornalismo e ao Sindicato do que à empresa para a qual ele trabalha. A empresa pode mudar, mas o Sindicato não, ele é um só”, afirma.

Hamilton também é o responsável pelo livro que narra os 60 anos de fundação do SJSP, o Jornalistas: 1937 a 1997 – história da imprensa de São Paulo vista pelos que batalham laudas (terminais), câmeras e microfones, publicado em 1998 pela Imprensa Oficial do Estado.

Parte da extensa biografia do repórter é compartilhada nessa entrevista, originalmente publicada em versão editada na mais recente edição do jornal Unidade. Aqui, o bate papo na íntegra, que faz parte da série com os jornalistas que fazem a história desses 81 anos do Sindicato.

O que o levou ao jornalismo? Por que ser jornalista?
Foram duas coisas. Nasci numa cidade pequena do interior paulista, em Santa Rosa do Viterbo, e minha tia, a Tia Nenê, tinha a única livraria da cidade, única até hoje. Ela vivia lendo e me influenciou muito com livros de acordo com a minha idade, o que despertou em mim o prazer de ler e, como consequência, também uma facilidade de redação. Ela era muito católica e assinava dois jornais que vinham do interior de Minas Gerais, um era O Lutador e o outro era o Lar Católico. O jornal estimulava os leitores a escrever e enviar para publicar, e minha tia me estimulou a escrever. Escrevi, mandei, publicaram e fiquei encantado com aquilo. Era um jornal do outro lado do mundo para mim, onde nem sabia onde era, e de repente chega o jornal com minha redação.

O outro fato é que na minha infância, quando tinha 8 ou 9 anos, tive uma infecção óssea, uma osteomielite que atacou minha perna esquerda. Depois fiz fisioterapia, me recuperei, mas naquele momento minha perna esquerda era mais fina, mal conseguia me apoiar, e usava muleta. Nisso, há mais de 70 anos, caiu um avião na cidade, o que hoje já seria uma loucura, mas naquela época era como se tivesse uma invasão de outro planeta. A queda foi perto da cidade, as pessoas viram caindo, a molecada saiu correndo para chegar perto do avião, para ver o que tinha acontecido com o piloto, e fui junto, de muleta. Tinha que atravessar um riacho de muleta, tinha brejo e mato no caminho, e fui com a molecada até o local da queda. O piloto estava ferido, mas consciente e pôde conversar, não diretamente comigo, mas ali, na rodinha, ele contou como foi. Depois voltei para casa e quando cheguei a vizinhança toda estava me esperando para que eu contasse sobre a queda do avião.

Fui conhecendo jornalistas brilhantes, talentos incríveis como o Hermínio Sacchetta, que era uma figura lendária, gente formidável, interessantíssima e de alguns fiquei ligado para sempre.

Comecei a contar e percebendo as pessoas em silêncio, interessadas, me ouvindo. Assim percebi que aquilo era interessante e pensei ‘será que é possível ganhar a vida com isso, ouvindo uma notícia e depois contar para os outros?’. Juntando com o prazer de ler, quando chegou o momento de ir para a universidade, na minha cabeça já estava escrito. Vim para São Paulo e naquela época a única faculdade que existia no Brasil era a Cásper Líbero para fazer jornalismo, onde fui estudar. Comecei na profissão no segundo ano da faculdade, quando fui trabalhar pela primeira vez como jornalista, cobrindo férias de um redator da Rádio Bandeirantes. Atendendo a um anúncio da Folha de S.Paulo para contratar jornalista, também escrevi e mandei. Fui chamado para a entrevista, me disseram que não tinha vaga, mas que quando tivesse me avisariam. Uma semana depois, chegou um telegrama me chamando para uma entrevista na Folha às 18h. Estava escuro quando fui conhecer a redação, os jornalistas novatos já tinham feito o trabalho deles e ido embora, estava só o pessoal da ‘cozinha’ mesmo, o secretário de redação, alguns repórteres, o editor de internacional, um pessoal bem mais velho que eu e levei um certo choque. Mas com o passar dos dias, naquela Folha dos anos 1950, fui conhecendo jornalistas brilhantes, talentos incríveis como o Hermínio Sacchetta, que era uma figura lendária, gente formidável, interessantíssima e de alguns fiquei ligado para sempre.

Há 50 anos, em março de 1968, você estava na guerra do Vietnã numa cobertura jornalística que marca sua vida. Como era ser repórter naquele período?
Com a possibilidade dos Estados Unidos serem derrotados militarmente, o Vietnã passou a ser a maior notícia daquele tempo, onde se dizia que tinha a maior quantidade de furo de reportagem por metro quadrado da história. Eu trabalhava numa revista que naquele momento era a maior do país, a Realidade, e a direção resolveu que, pela guerra ser um assunto jornalístico tão importante, a revista não ia aceitar escrever sobre o Vietnã pela cabeça de outros, de americanos ou europeus, mas que era preciso mandar um de seus repórteres para lá. Depois soube que fizeram uma lista de repórteres para convidar e que o primeiro era eu, então com 32 anos e muita energia para trabalhar fazendo reportagem, e o desafio de cobrir uma guerra do outro lado do mundo.

Pedi 24 horas para pensar, mas na verdade era o tempo de conversar com minha mulher, porque já era casado e tinha uma filha, e fui para a cobertura. Hoje penso como é pegar um brasileiro e mandar sozinho para o Vietnã como fui, para um país em guerra do outro lado do mundo, com uma língua completamente estranha. Eu me questionei se aquilo era costume na época, e era!

Fui sozinho para o Vietnã e, como precisava de fotógrafo, tinha levado dinheiro para contratar um profissional que me acompanhasse enquanto estivesse lá, e esse repórter fotógrafo foi o japonês Keisaburo Shimamoto, que se tornou um grande amigo, uma figura querida e que, no episódio do meu acidente no Vietnã, foi quem ficou do meu lado o tempo todo no hospital. Ele desenvolveu certo sentimento de culpa com o acidente, pois eu deveria ter voltado para Saigon, e o fotógrafo tinha pedido para ficarmos mais um dia no front porque ele ainda não tinha a foto de capa. Foi nesse um dia a mais que teve o episódio da explosão da mina terrestre em que perdi a parte inferior da perna esquerda.

Mantivemos contato após o acidente e, quando fui editor-chefe da Realidade, convidei o fotógrafo para passar uma temporada no Brasil. Ele aceitou e viria assim que terminasse um trabalho para uma revista japonesa. Era 1971, ele estava no Laos, com um general sul-vietnamita, num helicóptero que foi atingido por uma bomba e explodiu no ar. A família não tinha nada dele, a não ser o que o tinha ficado no hotel. Anos mais tarde, encontraram um pedaço do colete com a placa de metal e o nome dele, e entregaram aos familiares para o sepultamento.

E como é fazer jornalismo hoje com internet e redes sociais? Isso de alguma forma influencia sua reportagem na televisão?
Quando cheguei no jornalismo, tudo na TV era feito com filme e era uma operação incrível porque tinha uma pessoa que cuidava só disso, que tinha que ficar coberta com um pano preto para soltar o filme dentro da câmera porque velava se colocasse na luz do dia. Para fazer uma reportagem no Mato Grosso, por exemplo, tinha que levar 10 latas de filme, filmava lá e não se sabia o que tinha sido gravado. Podia ter entrado luz no filme, podia ter emperrado na câmera... Só em São Paulo, depois de revelar o filme, é que você via se a filmagem estava boa ou não e sem a possibilidade de mudar. Quando estava no Globo Repórter é que foi a mudança do filme para a fita magnética e, por acaso, fui eu, na Globo, o primeiro a fazer uma reportagem inteira com fita.

Para o repórter era uma maravilha porque a fita gravava e você para e volta para olhar o que gravou, e se não estava bom dava para fazer de novo quantas vezes quisesse. Isso desenvolveu muito o telejornalismo, deu mais liberdade para o repórter para fazer passagens de cena. Fui o primeiro a fazer reportagem jornalística gravada assim, foi em Serra Pelada, numa reportagem de longa duração, não era para o dia a dia da notícia no jornal, mas para o Globo Repórter, de 40 minutos e inteiramente com fita magnética. Depois a fita magnética foi melhorando de qualidade, da fita passou para a fase de disco e agora grava com uma pecinha, com uma memória, e sempre renovável, que grava, regrava e volta quantas vezes se quiser, o que dá muitas possibilidades. Foram muitas gradações tecnológicas ajudando o jornalista de televisão, principalmente, e de rádio.

Em mais de cinco décadas, foram muitas reportagens, mas entre elas tem alguma ou algumas que sejam especiais, memoráveis e mais significativas na sua carreira?
Essa reportagem da Serra Pelada foi uma marcante porque era um fenômeno incrível. Era uma cena como nas pirâmides do Egito, como uma legião de escravos carregando pedras. O cenário de Serra Pelada era parecido com isso, chegando a ter quase 80 mil homens que lidavam com o barro o dia inteiro porque tinha que cavar para tirar o ouro. Eles ficavam naquela lama de tal forma que eram 80 mil homens iguais, com a roupa e a cor iguais, barro no corpo todo enquanto subiam e desciam a Serra na lavra. Era um cenário incrível, tanto que as melhores que aparecem num filme recente sobre Serra Pelada foram tiradas dessa reportagem, e não tiveram o cuidado de citar a fonte das cenas. Essa reportagem foi histórica por ser um salto tecnológico no telejornalismo.

O homem do campo está mais ligado nas estações, na chuva, na época de plantar, na época de colher, no cio das éguas e das vacas, está voltado para a natureza. O homem da cidade às vezes nem percebe a lua.

Comecei na Globo no Globo Repórter e estou há 36 anos no Globo Rural, onde a temática é mais de natureza, da cultura do povo rústico do mato, é de trabalho, mas também mostra a diversão, danças, música caipira. É uma outra temática e, claro, mudam os personagens, mas mesmo assim tem histórias que não esqueço, como uma caçada da onça com cachorros no Pantanal, que foi feita há 30 anos. Com a caçada, no final a onça se cansa porque ela é imbatível num arranque, mas corre cem metros e tem que parar para descansar porque ela cansa muito e o cachorro não. O cachorro de caça vai devagar, mas não para. A onça corre e fica na ilusão de que se livrou do cachorro. Aí ela corre outra vez e fica nisso até que ela cansa, sobe numa árvore e fica na ilusão de que o cachorro não alcança e a onça fica salva. Mas aí chega o outro cachorro, que é o homem né? Ele fica debaixo da árvore com revólver ou espingarda e mata uma onça como se fosse um passarinho, e ela indefesa perante o ser humano. Nessa reportagem, os caçadores, com mais prática no mato do que eu, chegaram na frente, e era só para mostrar a caçada, ninguém ia matar a onça. Para ela descer, os caçadores levaram os cachorros para bem longe e, quando a onça não ouviu mais os cachorros, começou a se acalmar em cima da árvore, sentou, descansou um pouco e depois, lentamente, foi descendo pelo galho, pulou no chão e foi embora, uma cena muito interessante…

Tem muito personagem interessante nessa matéria do Globo Rural, de tal maneira que não me diminui trabalhar no programa. O Globo Rural não é um programa voltado para o homem rural e na extensão da alma do homem rural. Ninguém dirá que a alma do homem rural é menor que a alma do homem que vive na cidade, talvez seja até o contrário. O homem do campo está mais ligado nas estações, na chuva, na época de plantar, na época de colher, no cio das éguas e das vacas, está voltado para a natureza. O homem da cidade às vezes nem percebe a lua.

Você é sindicalizado desde 1957 e sempre esteve engajado com as atividades do SJSP. Qual a importância de ser sindicalizado? 
O jornalista pertence a uma tribo e o Sindicato é a marca dessa tribo porque o jornalista é muito mais ligado ao jornalismo e ao Sindicato do que à empresa para a qual ele trabalha. A empresa pode mudar, mas o Sindicato não, ele é um só. Cheguei ao Sindicato logo que comecei a trabalhar em jornal, aos 20 anos de idade na década de 1950, e vi o Sindicato funcionando ainda com pessoas que participaram da fundação, em 1937.

Outra coisa que gosto no Sindicato é que observei o avanço da mulher na profissão. Quando o Sindicato foi formado há 81 anos, reuniu cerca de 300 pessoas associadas e só três eram mulheres, uma porcentagem insignificante. A redação não era um lugar bom para a mulher. O que se acreditava era que a mulher podia frequentar a redação de dia, sabe? De dia a coisa era mais ‘civil’, digamos assim, mas a hora que escurecia, só ficavam no jornal os homens profissionais, a turma da ‘cozinha’, da madrugada. Jornalista sempre gostou muito de beber, o pessoal era boêmio, fechava o jornal e se reunia num boteco para conversar sobre três assuntos - o jornal mesmo, futebol e mulher, os três assuntos que mantinham acaloradas as reuniões dos jornalistas no começo da madrugada. 

José Hamilton ao lado de Antonio Carlos Fon numa atividade com sindicalizados no auditório Vladimir Herzog. Foto: Arquivo/SJSPJosé Hamilton ao lado de Antonio Carlos Fon numa atividade com sindicalizados no auditório Vladimir Herzog. Foto: Arquivo/SJSPQuando foi diretor do SJSP na gestão do Audálio Dantas (1975-1978) e do Antonio Carlos Fon (1990-1993), como era colaborar, fechar o Unidade e lidar com os diferentes pensamentos dos vários colaboradores?
O Audálio transformou o Unidade em mensal, e o próprio Audálio se dedicava ao jornal com outros diretores que eram jornalistas muito bons, a publicação teve uma fase ótima nessa gestão. Quando fui vice-presidente na direção do Fon, ele me passou o Unidade e fizemos um jornal sem patrão porque patrão de jornalista nós não seríamos. Contávamos com vários colaboradores, com colunas fixas e a colaboração de nomes como o Raimundo Pereira, Narciso Kalili, Mino Carta, Boris Casoy. Eram cabeças variadas, mas a característica principal era de fazer um jornal em que não fôssemos patrão de jornalista. Depois o Sindicato entrou numa crise financeira muito grande que desarticulou todo o esquema que amparava o jornal. As diretorias que se sucederam tiveram que enfrentar uma realidade bem mais negativa do que diretorias anteriores que podiam bancar o custo do jornal sem agravar outras obrigações do Sindicato.  

Como você, que viveu e trabalhou durante a ditadura, avalia o cenário do Brasil hoje? 
O país vive uma crise profunda de representatividade do governo, e uma crise política, social e econômica. É um momento difícil e os sinais de que pode melhorar estão tardando, o que gera uma intranquilidade. É uma crise grande e espero que nesse embate político de várias correntes, cores e bandeiras, que o Brasil saia mais fortalecido, que saiba, sobretudo, manter a democracia, o pluripartidarismo, a liberdade de imprensa, os direitos civis, os direitos humanos, um país que volte a nos dar orgulho de ser brasileiro.

E qual sua avaliação quanto à cobertura da mídia nessa conjuntura?
A imprensa escrita vive a maior crise da sua história, uma crise que põe em dúvida até sua sobrevivência. É um mau momento. O que a imprensa escrita tem feito é até surpreendente diante da crise que assola seu próprio quintal, e a TV não é um veículo jornalístico, é de entretenimento. O telejornalismo as empresas fazem porque é obrigação para cumprir a lei da concessão de TV, fora uma ou outra exceção. A Globo trabalha profissionalmente, faz um jornalismo que acredito ser profissional, exigente, transparente, mas muita gente acha que não, que não é bem assim. Então, se o país está em crise, a imprensa e o trabalho jornalístico estão em crise ainda maior para cobertura dos fatos da vida no Brasil nos dias de hoje. Como o chinês diz que a crise é uma hora de oportunidade, quem sabe a gente saia dela numa situação melhor?