Greve completa 20 dias no Correio Popular; salários estão em aberto desde dezembro

Rede Anhanguera de Comunicação continua sem apresentar proposta para quitação dos débitos e tenta jogar os trabalhadores contra o Sindicato; greve é maior da categoria em SP.

Por Flaviana Serafim - Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

A paralisação dos jornalistas na Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) completou 20 dias nesta segunda-feira (5), já sendo considerada a maior greve da categoria no estado de São Paulo, e até o momento a empresa não apresentou qualquer proposta para quitar os salários em aberto. O grupo de comunicação é responsável pelos jornais Correio Popular, Gazeta de Piracicaba, pelas revistas Metrópole e VCP News, e pelo portal RAC.com, entre outras mídias.

A gravidade da situação é tamanha que somente no sábado (3) é que a rede terminou de pagar as duas últimas parcelas referentes ao salário de novembro, e continuam em aberto os salários de dezembro, janeiro e fevereiro, além do 13º de 2017, seis meses de vales refeição e alimentação e do adicional de um terço devido aos que saíram de férias nos últimos dois anos. 

Os depósitos ocorreram depois de uma das muitas falsas promessas de pagamento feitas pela RAC, que no último 9 de fevereiro havia se comprometido a pagar, no dia 23 do mesmo mês, o valor em aberto de novembro e também o adiantamento de dezembro, mas os jornalistas não receberam nada. Na ocasião, a rede se limitou a enviar um comunicado aos empregados pedindo “desculpas pelo ocorrido” e alegando que um empréstimo não havia sido liberado “por questões burocráticas da instituição bancária” (leia mais em RAC descumpre promessa novamente e greve continua). 

No último dia 28 de fevereiro, em audiência no Tribunal Regional da 15ª Região (TRT 15-Campinas), a única proposta apresentada pelo grupo de comunicação foi quitar o vale alimentação em atraso até 9 de março, e a direção da rede ainda queria que os grevistas retornassem ao trabalho e aguardassem mais 30 dias por uma outra negociação para “viabilizar novos pagamentos”.

A proposta foi recusada e classificada de “indecente” pelos trabalhadores e pelos dirigentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), e o dissídio segue para julgamento pelo TRT 15-Campinas, em data ainda não definida.

Em vez de pagar o que deve, RAC distorce a verdade

Para além da intransigência em não negociar qualquer pagamento durante a audiência, o SJSP apurou que, no comunicado enviado aos jornalistas na tarde da sexta (2) para informar o pagamento de 1/4 do salário de novembro, a RAC também distorce a verdade dos fatos ocorridos durante a audiência realizada dois dias antes.

Na mensagem, a rede expressa “surpresa” ao observar o comparecimento de cerca de 25 pessoas à audiência do dia 28 de fevereiro, das quais 50% seriam sindicalistas e advogados “ou até mesmo [pessoas] desconhecidas, o que não entendemos o objetivo e interesse”. Não é verdade.

"A verdade é que, inclusive durante reunião preliminar com o desembargador auxiliar do TRT 15, a participação de jornalistas foi expressiva, com testemunhos das graves dificuldades financeiras e até dos problemas de saúde decorrentes de estresse no ambiente de trabalho nos últimos dois anos", afirma a direção do Sindicato. "Parece que agora os prepostos da empresa decidiram intensificar o jogo da divisão, na tentativa de jogar jornalistas contra a entidade sindical que luta para garantir direitos", completa. 

Ainda assim, em esclarecimento aos jornalistas, os dirigentes do SJSP informaram o seguinte:

“A presença nas audiências é livre,  franqueada qualquer cidadão;

Temos uma lista de presença com a assinatura de 18 trabalhadores (jornalistas e administrativos). Além desses, estiveram presentes o presidente do sindicato, três diretores da executiva, dois diretores da regional Campinas, a jornalista e dois advogados do Sindicato, além do presidente e da advogada do Sindicato dos Administrativos,  o que demonstra a grande atenção que as entidades dedicam à questão;

Segue a ata da audiência com destaque para a proposta da empresa, que divulgamos no dia 28.

Todos os trabalhadores estão juntos e sempre colaboraram. Ocorre que vivemos sob o regime do trabalho assalariado e não escravo. A lei nos faculta o direito à greve e a empresa não busca o diálogo.

O Sindicato tem uma postura transparente e sempre se propôs a conversar.

Insinuações levianas e informações distorcidas não contribuem para a superação da crise da RAC.”

Na verdade, o que é incomodou a empresa foi a presença, na audiência, da maioria dos grevistas, demonstrando a coesão e força do movimento, avaliam os sindicalistas. 

Como a direção do SJSP já havia afirmado após a audiência no TRT 15-Campinas, a greve dos jornalistas do Correio Popular é exemplar pela unidade e disposição de luta contra a precarização do trabalho, além de histórica na cidade. Para os sindicalistas, a proposta de pagar apenas o vale alimentação é mais uma atitude de desrespeito e intransigência da empresa em meio ao tamanho e o tempo da dívida com os trabalhadores. 

Fundo de greve continua

A arrecadação ao fundo de greve continua para contribuir com o pagamento emergencial dos jornalistas e a gestão dos recursos é feita pelos próprios profissionais.

É possível colaborar doando cestas básicas na Regional Campinas do Sindicato, que fica na Rua Dr. Quirino nº 1319, 9º andar, no centro campineiro, e também com o depósito de qualquer quantia em dinheiro na seguinte conta bancária:

Caixa Econômica Federal
Agência 4070
Conta corrente 1143-3
(caso o depósito ou transferência seja entre contas da Caixa, o código da operação é 003)
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
CNPJ 62.584.230.0001-00

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