Debate sobre The Intercept destaca o papel do jornalista na defesa do interesse público

A importância do jornalismo também foi lembrada como fundamental para garantir a democracia

Por Adriana Franco - Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo

Foto: Cadu BazilevskiFoto: Cadu Bazilevski

Interesse público, sigilo de fonte e apresentação do contraditório foram os princípios fundamentais do jornalismo que o debate Intercept e Lava Jato: a relevância do jornalismo no Brasil atual destacou na noite da última quinta-feira (11), no auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP).

“Não temos dúvidas que o The Intercept está fazendo jornalismo ao divulgar as mensagens que foram cedidas ao site por uma fonte e essas mensagens tem conteúdo de muitíssima relevância para a história atual do país. Essa relevância é determinada pelo interesse público, ou seja, o que é de interesse da maioria da sociedade é caracterizado como informação de caráter de interesse público e, portanto, uma informação que deve ser divulgada pelos jornalistas e pelos veículos que fazem jornalismo”, destacou a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga.

A partir do caso das reportagens recém-divulgadas pelo site The Intercept, a presidente da Fenaj reiterou que a investigação jornalística conta com outra forma de investigação, diferente da policial e, para isso, conta com as fontes que fornecem a matéria-prima para o jornalista trabalhar. “É por isso que felizmente no Brasil e na maioria dos países democráticos do mundo é garantido o sigilo de fonte. E o sigilo da fonte não é uma proteção para o jornalista, não é uma proteção para o veículo de comunicação que faz jornalismo; o sigilo da fonte é para proteção da fonte. Uma fonte, dependendo do grau de comprometimento que essa fonte pode desencadear para determinados atores e setores da sociedade, se for revelada, pode significar sua sentença de morte.”, explicou a jornalista.

Para Maria José Braga, é o princípio do sigilo da fonte e do caráter público da informação que constituem a liberdade de imprensa e garantem que a sociedade tenha acesso a informações verdadeiras que tragam o contraditório e, de fato, permitam ao cidadão avaliar cada situação e cada ponto de debate da vida nacional.

Ao abordar a importância do jornalismo no Brasil atual, Maria José Braga se ateve ao período recente e discorreu como a mídia abandonou o jornalismo para fazer política de oposição ao governo Dilma. Segundo ela, o golpe de 2016, que destituiu a presidente Dilma Rousseff do poder e desencadeou a organização da extrema-direita, contou com o apoio dos grandes veículos de comunicação no Brasil. “A mídia foi decisiva para que o judiciário pudesse agir dessa maneira. Eu, como jornalista, não posso dizer e não acredito que jornalismo seja só manipulação, acredito que jornalismo é atividade essencial para a democracia, é atividade essencial para a constituição da cidadania e os jornalistas têm de assumir o papel de fazer jornalismo com ética, com técnica, com a teoria jornalística e com os olhos sempre voltados para o interesse público.”, declarou a presidente da Fenaj.

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Ricardo Carvalho, presidente eleito do escritório regional da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em São Paulo, ateve-se ao papel do jornalismo e citou o jornalista Millôr Fernandes que dizia que “jornalismo é oposição, o resto é secos e molhados”. Para Carvalho, o papel da imprensa é fazer oposição.

O representante da ABI afirmou que a mudança de posição dos veículos de imprensa - como no caso da Folha de São Paulo e da Veja, que passaram a divulgar recentemente as reportagens em conjunto com o site The Intercept - se dá em virtude de seus interesses comerciais. “Não é só ideológico, mas tem por trás o interesse comercial. Eu não me iludo muito com as revistas e os jornais. Aí vem a imprensa e diz ‘perdemos a credibilidade’ e eu penso: Se o jornalismo perdeu a credibilidade, em quem confiar?”

Carvalho relatou que o fazer jornalístico depara-se com uma tensão permanente entre jornalistas e a direção do veículo e é neste campo que se situa o interesse público. Ao relembrar sua reportagem sobre a primeira lista de desaparecidos políticos, Carvalho destacou que a veiculação só se deu naquele momento porque ele assinou a matéria, assumindo a responsabilidade pelo material veiculado. Para o jornalista, há sempre uma negociação entre a redação e a direção do jornal sobre as matérias que são veiculadas. “Mas se a empresa não quiser publicar, não há essa possibilidade.”, disse o representante da ABI.

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O presidente do Sindicato dos Jornalistas, Paulo Zocchi, defendeu a importância da cláusula de consciência para que os jornalistas possam ter autonomia durante seu exercício profissional, que exige autonomia individual pela qual cada jornalista responde. Zocchi ponderou que, apesar da autonomia individual dos profissionais, os jornalistas trabalham para empresas que têm poder diretivo sobre seus funcionários. “Esse conflito é permanente na vida de um jornalista e o sindicato atua nesse sentido porque defende as condições de trabalho para que o jornalista possa fazer jornalismo nessa situação difícil que a gente vive”, destacou o presidente do SJSP.

Debate

O debate foi aberto ao público e os participantes puderam contribuir com diversos elementos e a importância do trabalho jornalístico divulgado pelo The Intercept foi consenso entre os participantes. A jornalista Rose Nogueira destacou que no jornalismo “temos a obrigação de publicar quando temos uma informação que é checada e verdadeira”.

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O jornalista Cadu Bazilevski falou que o caso do The Intercept “mostra que o jornalismo é fundamental, ainda mais nos dias de hoje. As empresas e o negócio jornalístico podem estar em crise, mas a gente percebe que o jornalismo é fundamental para a sociedade”.

O ex-presidente do SJSP, José Augusto Camargo, disse que “o jornalismo divulga verdades, mas a pós-modernidade questiona a verdade e afirma que tudo é narrativa. Assim, acerta no cerne da profissão do jornalista e no fundamento do jornalismo, havendo negação do princípio do jornalismo e sua missão histórica de apresentar fatos e verdades para a sociedade.”