Correio Popular: greve dos jornalistas completa um mês

Paralisação é a maior da categoria em SP e, com salários em aberto desde dezembro, empresa continua sem fazer acordo enquanto os profissionais aguardam o julgamento do dissídio.

Por Flaviana Serafim - Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

A greve dos jornalistas da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) completou um mês neste 14 de março e o protesto continua porque os salários continuam em aberto desde dezembro, assim como o 13º do ano passado e mais seis meses de vales alimentação e refeição.  Entre outras mídias, o grupo é responsável pelos jornais Correio Popular, Gazeta de Piracicaba, pelas revistas Metrópole e VCP News, e pelo portal RAC.com.

A mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras da RAC é a mais longa da categoria na história do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), e resultado de dois anos de frequentes atrasos no pagamento de salários e benefícios. Para que se tenha ideia do quadro, no último dia 9 de março, a rede depositou o valor referente a um quarto do salário de dezembro, mas descontou os dias parados dos grevistas e não pagou vale alimentação ou refeição.

Nestes 30 dias de greve, a empresa não fez nenhuma proposta concreta para quitação dos débitos, exceto a que foi apresentada em audiência no último dia 28 de fevereiro, no Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT 15-Campinas), e classificada como “indecente” pelos jornalistas – pagamento somente do vale alimentação devido até 9 de março.

Na audiência, que terminou sem acordo, a rede ainda queria que os grevistas voltassem ao trabalho e que aguardassem mais um mês para nova negociação junto ao TRT 15-Campinas. A maior parte da redação está engajada no movimento paredista e agora os jornalistas aguardam o julgamento do dissídio pela Justiça do Trabalho.

Em 6 de março, também ocorreu uma mesa-redonda para tratar da questão no Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas, mas novamente não houve qualquer acordo porque a direção da RAC se limitou a reapresentar a proposta que já havia sido feita e recusada pelos jornalistas no TRT.

Além dos débitos de salários e benefícios, quem saiu de férias nos últimos dois anos não recebeu o salário adicional de um terço, e os atrasos atingem também os depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o repasse do Imposto de Renda que, apesar de descontado em folha, não é repassado à Receita Federal, levando profissionais à malha fina.

RAC tenta desqualificar movimento grevista

Mesmo devendo há tanto tempo aos trabalhadores, a RAC não só descontou os dias parados , como também fez demissões, o que é ilegal e caracteriza prática antissindical, explica o advogado Marcel Roberto Barbosa, responsável pela defesa dos jornalistas junto à Regional Campinas do SJSP. Por isso, foi apresentada uma petição ao TRT 15-Campinas e os profissionais aguardam a análise do processo pelos desembargadores e pelo Ministério Público do Trabalho.

Como se não bastasse, em contestação apresentada em 7 de março ao TRT 15-Campinas, o grupo de comunicação afirma que  “não é verdade que não houve pagamentos desde novembro de 2017 até o momento. Houve diversos pagamentos semanais, em quase todas as semanas, sendo o atraso de salários decorrente de situação bem anterior”, o que configura uma incoerência porque o volume da dívida decorre de atrasos que se arrastam desde o final de 2015.

No documento, o grupo de comunicação ainda questiona a publicação do edital e a assembleia que aprovou a paralisação, numa tentativa de desqualificar o movimento paredista alegando que o SJSP não teria cumprido os quesitos legais para a deflagração da greve.  E apesar do direito ao vale alimentação estar garantido na Convenção Coletiva da categoria, na contestação a empresa também afirma que não tem obrigação de pagar o benefício.

“É uma tentativa inócua de descaracterizar o pleito porque todas as medidas foram tomadas de acordo com a legislação e com o estatuto do Sindicato dos Jornalistas. Contra fatos não há argumentos e não há mérito na contestação, que é uma tentativa de protelar a questão. Quanto aos débitos, ou a RAC prova que pagou ou perde a razão”, afirma o advogado da Regional Campinas.

Movimento exemplar

Na avaliação de Paulo Zocchi, presidente do SJSP, a greve é histórica e exemplar, pois a adesão dos jornalistas aumentou ao longo desses 30 dias “porque o movimento paredista é a única alternativa para enfrentar a precarização e o abuso cometidos pela empresa”, afirma.

“Depois de dois de atrasos, a RAC está impondo condições insuportáveis de vida às pessoas que sustentam a empresa, prejudicando a saúde dos trabalhadores de maneira impossível de compensar e com reflexos que se estendem às famílias dos jornalistas. A rede impõe um sofrimento geral e, ao mesmo tempo, os proprietários preservam o patrimônio e mantêm uma vida luxuosa, cheia de privilégios com base nesse patrimônio acumulado graças ao trabalho dos profissionais”, criticou o sindicalista.

Zocchi também ressalta que é preciso que o engajamento cresça ainda mais com a participação do conjunto dos trabalhadores para obrigar a RAC a fazer um acordo e pagar o que deve definitivamente. 

Solidariedade

Durante todo o período de greve, o apoio e a solidariedade da categoria têm sido fundamentais para a continuidade da mobilização e, mais do que nunca, as colaborações ao fundo de greve são essenciais, pois contribuem para o pagamento emergencial dos grevistas. A gestão dos recursos é feita pelos próprios profissionais. 

É possível doar cestas básicas diretamente na Regional Campinas do SJSP, que fica na Rua Dr. Quirino nº 1319, no 9° andar, centro campineiro, ou depositar qualquer quantia nesta conta:

Caixa Econômica Federal
Agência 4070
Conta corrente 1143-3
(caso o depósito ou transferência seja entre contas da Caixa, o código da operação é 003)
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
CNPJ 62.584.230.0001-00