Canais negros lutam por visibilidade no YouTube

Dos 100 maiores canais brasileiros, apenas 8 pertencem a negros, que representam 53,6% da população

A população negra é a maioria no Brasil, mas não na internet brasileira. Embora pretos e pardos sejam 53,6% da população, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas oito dos 100 maiores canais brasileiros no YouTube, listados no ranking Social Blade, pertencem a negros. São eles:  Authenticgames (7º),  Am3nic (20º), Everson Zoio (22º ), Juliana Baltar (53º), Nomegusta (55º), Afreim (58º),  Camila Loures (81º) e Matheus Yurlei (99º).

Uma das que lutam para mudar essa realidade é a jornalista Silvia Nascimento, diretora do site Mundo Negro. Lançado em 2001, o Mundo Negro foi um dos pioneiros no Brasil a abordar conteúdos exclusivamente para a população negra. Para a jornalista, embora os negros estejam conquistando espaço na mídia em geral, as pautas ainda permanecem presas aos problemas que cercam a negritude. Ela defende que a questão racial deve ser abordada sempre, não só no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, e que os negros sejam visto como público, não apenas como assunto.

“Assim como nós falamos de violência e corrupção, de problemas ecológicos e ambientais, eu acho que a questão racial tem de ser uma pauta permanente e eu percebo que ela aparece apenas em datas especiais, como em novembro, mas sempre naquele recorte da problemática”, explica Silvia.

Egnalda Cortes é gestora de carreira de 15 creators (criadores de conteúdo), dentre eles nomes importantes para a negritude, como Nataly Neri e Gabi Oliveira. Além de ter um canal no Youtube onde aborda a questão sobre a maternidade negra, ela é mãe do youtuber PH Cortes, de 15 anos que se destaca no Youtube pelo quadro Meus Heróis Negros Brasileiros, em que conta a histórias de importantes personagens de forma descontraída e dinâmica.

A gestora abriu a Côrtes Assessoria, no início deste ano, para ajudar na profissionalização e visibilidade de influenciadores negros, impulsionada pela conquista de ser citada como uma das 30 pessoas mais influentes do digital em 2016, pelo Youpix Builders. Para ela, os negros ainda não avançaram o suficiente para alcançar a mesma visibilidade dada as pessoas brancas. “Devemos sobretudo ressaltar que tivemos que recorrer à marginalidade, ao alternativo para quê ganhássemos ecos, ou seja, nós chegamos porque muitos que vieram antes de nós lutaram por essa inserção”, argumenta.

O YouTube, como plataforma, reflete uma estrutura socialmente construída, segundo Silvia. Assim como nos altos cargos, nas universidades e nos meios de comunicação tradicionais, “a representatividade dentro do Youtube não é proporcional à representatividade do povo, demograficamente falando, então quando a gente entra no site é como quando olhamos na TV, quase não há programação para negros, quase não tem os sons dos negros, estão bem escondidos”.

youtuber Patrícia Rammos, autora do blog Um abadá pra cada dia, que aborda assuntos variados sobre cultura, além de questões raciais, concorda sobre a questão da visibilidade: “Ainda aparecemos como os exóticos, como a exceção e o nosso objetivo é que façamos parte do todo, da forma mais natural possível”. Especialmente para a Ponte, ela fez o vídeo acima, sobre representatividade.

Charge: Junião/Ponte JornalismoCharge: Junião/Ponte JornalismoPara isso, o empoderamento e a representatividade do negro são fatores imprescindíveis, explica Silvia Nascimento “representatividade significa que você não é sozinho no mundo e que tem pessoas parecidas com você para se espelhar, se aglomerar e fazer relações sociais”.

Para a jornalista, o empoderamento significa acima de tudo a consciência de saber que é possível chegar onde quiser: “A representatividade e as referências são importantes para o empoderamento, você ver pessoas que foram além espaço socialmente delimitado para elas”. Patrícia complementa dizendo que essas são as principais armas para o fortalecimento do povo negro na busca da igualdade de direitos.

As condições de desigualdade social e racial também contribuem para a falta de representatividade negra no YouTube. “Se partirmos do princípio que um jovem negro da periferia tem que ajudar em casa, e seus acessos são restritos devido a uma internet não veloz e um celular capenga, muito dificilmente poderá se firmar no YouTube porque, além disso, precisa imediatamente ajudar no orçamento familiar”, aponta Egnalda.

“O maior problema é que a maioria das pessoas que consomem canais de negros são os próprios negros. São questões legítimas e necessárias, mas infelizmente, não interessam a quem não é, quem não se sente parte e a quem não vive à margem”, explica Patrícia. Para a youtuber, invisibilidade também é uma faceta do racismo e isso influi até na questão dos investimentos, que impulsionam os influenciadores.

A falta de identificação também torna-se um fator a ser analisado, como aponta Silvia: “Eu acho que alguns youtubers negros se baseiam muito em brancos famosos, querem fazer uma versão negra de um canal branco e nisso eles acabam criando um ruído de comunicação com as pessoas que não se identificam”. Para Egnalda, “o grande desafio é furar a bolha”, fazer com que os youtubers negros “consigam tornar-se visíveis não somente para a comunidade negra, mas para toda sociedade”.

A diretora do Mundo Negro afirma que os algoritmos do Youtube também escondem um pouco do conteúdo feito para comunidade negra. “Eles ainda leem a palavra negro, as questões relacionadas a negritude como questões ofensivas, problemáticas, ‘militantes’ no sentido ruim”, argumenta.

Como exemplo, Patrícia cita um caso recente, quando alguns youtubers se juntaram e criaram uma playlist temática no dia da Consciência Negra. Segundo ela, o Youtube desmonetizou a maioria dos vídeos. Ela questiona por que a iniciativa foi barrada no mesmo período em que vídeos atacando as afirmações da atriz Taís Araújo sobre o racismo no Brasil ficaram em alta. “Ganha-se muito mais sendo racista. E isso cansa”, lamenta.

Outro lado

Procurada pela Ponte, a assessoria de imprensa do Youtube afirma que a desmonetização dos vídeos é feita com base nas diretrizes da comunidade e que de forma alguma julga “negro” como uma palavra que vai contra tal regimento. Afirmando estar ciente da importância das discussões raciais, a plataforma lançou em novembro a terceira edição do YouTube Black Brasil, que reuniu mais de 90 criadores e foi chamada de YouTube Negro, com o intuito de reforçar a importância da representatividade negra no Brasil.

O YouTube afirma que barra conteúdos que contenham nudez ou conteúdo sexual; incitação ao ódio; conteúdo prejudicial ou perigoso; explícito ou violento; assédio e bullying virtual; spam, metadados enganosos e golpes; violação dos direitos autorais e privacidade; falsificação de identidade e risco para crianças. O site informa que, caso algum conteúdo seja barrado indevidamente, o criador do canal pode pedir uma reavaliação.

Escrito por: Amanda Stabile, especial para a Ponte Jornalismo