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Qua, 12 de Abril de 2017 15:16    PDF Imprimir E-mail
Rose Nogueira: “Nosso trabalho é informar”

 

Jornalista há 50 anos e histórica militante dos direitos humanos, Rose Nogueira compartilha suas histórias, fala do papel do Sindicato e relata como era ser colega de trabalho de Vladimir Herzog

“Considero o jornalismo a profissão mais bonita do mundo. Nunca poderia ser outra coisa. Eu me envolvo, não esqueço as matérias que fiz até hoje", afirma Rose Nogueira, a quarta entrevistada da série com os sindicalizados que fazem a história da profissão.

Jornalista há 50 anos, cobriu desde os festivais de música brasileira à Revolução dos Cravos, em Portugal. Trabalhou com Vladimir Herzog na TV Cultura, foi uma das criadoras da TV Mulher e editora do Jornal Nacional.

“Trabalhar no Última Hora era um sonho que tenho até hoje. Era um jornal trabalhista, onde escreveram Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues. Eu adorava quando meu pai trazia porque tinha um espírito meio carioca, apesar da edição ser feita em São Paulo. Era um universo todo muito interessante e era um jornal popular. Meu sonho não era só ser jornalista, era trabalhar no Última Hora”, recorda.

Além da dedicação ao jornalismo, ela enfrentou a ditadura, a censura, segue militante combativa pelos direitos humanos e é conselheira fiscal do Sindicato.

Com muita história para contar, Rose compartilha algumas experiências nesta entrevista exclusiva, com versão editada publicada no jornal Unidade de março.

Rose também vai compartilhar seus relatos na comemoração dos 80 anos do Sindicato, em 17 de abril, a partir das 19h, falando sobre a história da entidade na perspectiva das mulheres jornalistas.

Qual a importância do Sindicato para o trabalho do jornalista?

O Sindicato tem uma função ampla, mas a principal é defender os jornalistas e que sofrem muito na redação. Na entrevista do Paulo Moreira Leite, ele diz que estamos nos despedindo daquela ilusão de que o jornalista é como uma figura especial e não é. O jornalista é um trabalhador intelectual, é um trabalhador como outro qualquer. Sou do tempo em que se entrava nas redações e tinha sempre o cartaz “Lugar de repórter é na rua” levantando e apurando informações, descobrindo pautas, pessoas.

Historicamente, o Sindicato sempre teve um papel político e, depois da morte do Vladimir Herzog, assassinado sob tortura em 1975, centralizou toda a oposição à ditadura e, já antes, com a eleição do Audálio Dantas. Neste último mês de março, começou uma reação mais forte, e com a presença do Sindicato, contra esse golpe débil à democracia. O papel é sempre esse, o de fazer história e de ajudar a fazer história. É o papel histórico de luta contra qualquer tirania e hoje mesmo isso se confirma.

Como você avalia o jornalismo feito hoje no Brasil?

Estou preocupada com o jornalismo porque notícias muito fortes viram registro e hoje em dia não tem suíte, não tem a continuação da matéria. Um dos fatos foi o réveillon com 56 pessoas decapitadas num presídio de Manaus, com pessoas sob a custódia do Estado, mas cuidadas por uma empresa terceirizada. Depois o mesmo aconteceu em outros presídios, com mais de uma centena de pessoas. Ninguém fez a suíte? Ninguém divulgou o enterro, nem foi falar com as famílias? E ficou naquela estória de que “é uma briga entre facções” e, com isso, se institucionaliza as facções como se fossem coisas que a gente tem que levar em conta, mas que são organizações criminosas.

O que interessa é que 56 pessoas perderam a vida no despertar deste ano, dessa maneira horrorosa, e não vimos mais matérias, só vimos que o governo do Amazonas renovou o contrato com a empresa que estava administrando o presídio. Não se sabe mais nada.

Nosso trabalho é informar e isso transcende a matéria porque é um dos direitos do homem. Quando um jornalista está informando corretamente está cumprindo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Alguns não cumprem a Declaração e acham que basta somente registrar.

Fico muito preocupada com a desvalorização do ser humano porque o jornalismo é feito para os homens. É uma desvalorização não só da vida, que é terrível, mas também do ser humano. É o desrespeito o que vimos no caso do Habib’s, de um menino, uma criança sendo arrastada até o outro lado da rua, jogada na calçada e vem um laudo de infarto, de consumo de lança perfume como se fosse fácil e comum ter lança perfume.

As matérias têm que ter esse respeito à vida, a sequência que o jornalismo brasileiro já deu de uma maneira esplêndida. Durante a ditadura, inclusive, se tivesse tido um crime desses, a cobertura seria mais forte. Nós trabalhamos com fatos e a história é um processo. Somos nós que registramos esse processo, nós que registramos a história e temos que refletir sobre os tempos, sobre a tecnologia que é muito bem vinda. Mas nosso trabalho é informar.

O que você acha que aconteceu com o jornalismo para perder esse papel? O jornalista era mais combativo na época da ditadura do que é hoje?

Não sei se era mais combativo porque tinha a censura diretamente. Mas hoje vemos a a expansão das redes sociais e, por acessarem as redes uma das outras, as pessoas se sentem informadas. O que aconteceu para nós jornalistas passarmos a não fazer falta? Será que estamos informando direito? A Operação Lava-Jato, por exemplo, virou pauta única dos jornais. Cadê as matérias e reportagens? Não tem outras coisas acontecendo? Quando se ouve falar de outra coisa, já é uma repercussão e você não foi informado sobre a matéria original.

Também me preocupa a questão da economia porque eu queria saber o que é que aconteceu direito com o Minha Casa, Minha Vida. Está suspenso ou não? Em que dia foi suspenso? Vai continuar onde, em que parte do Brasil? Cadê o texto? Embora tenham sido construídas quase três milhões de casas, continua um déficit habitacional de mais cinco milhões. Vão ser contratadas empreiteiras ou não? Como é que as casas vão ser construídas? É preciso informar corretamente, por inteiro, e isso não leva muito tempo. Você consegue apurar em pouco tempo e fazer uma matéria que permita ao leitor se sentir bem informado e poder fazer um juízo de opinião sobre esse assunto.

Na TV paga tem muito mais comentaristas do que reportagens e matérias. É barato ter três ou quatro comentaristas e não ter reportagens. E eles ficam comentando, do ponto de vista pessoal, um assunto que eles pensam que você deveria saber, mas não sabe, porque a TV deles ainda não deu a matéria. Eles ficam comentando como se você já soubesse. Os jornalistas viraram todos comentaristas de TV, que imaginam que você já sabe daquele assunto porque leu numa rede social e que favorecem o concorrente deles, mas sem saber. Ou então falam sobre coisas pessoais, como viagens em família, e isso num programa com três, quatro jornalistas de primeira qualidade, muito bons. No meu tempo trabalhando na TV, um jornalista jamais podia ocupar o tempo falando de coisas pessoais dele, ou dar opinião, ou fazer careta se gostou ou não da matéria.

Como era ter o Vlado como colega de trabalho na TV Cultura?

Trabalhei na Enciclopédia Abril e, quando a publicação acabou, fui pedir emprego na TV Cultura, que ficava próxima. Comecei repórter fazendo matéria e me interessava muito pela editoria internacional. O Vlado disse que eu tinha jeito e começou a ensinar não só a mim, mas a todos os repórteres, a editar matéria para TV, a sonorizar. Ele era um apaixonado pela profissão e todos nós da equipe aprendíamos. Passei a me apaixonar de um jeito por televisão que queria apreender mais. Na Cultura fizemos o Hora da Notícia, um jornal que dava o histórico de cada matéria, mostrava o que estava acontecendo e, por fazermos um bom jornal, houve uma oposição oficial muito grande. Na Assembleia Legislativa, deputados da Arena diziam que a TV Cultura estava cheia de comunistas. Nós demos, assim como o mundo todo, a matéria do fim da guerra do Vietnã com as imagens dos americanos fugindo.

Embora fosse um jornal simples, era informativo por excelência e cobria de maneira abrangente. Com o Vlado como diretor, o jornal ganhou um espaço muito grande e visibilidade. Até que a polícia foi na casa do Vlado. Era uma sexta-feira, ele chamou a gente e falou "nós vamos fechar o jornal, vou me apresentar amanhã cedo”. No dia seguinte ele se apresentou e de noite recebi a notícia da morte do Vlado. Entrei num parafuso porque o Vlado, aquela pessoa, aquele jornalista, professor, cineasta, não dá pra esquecer... Ele era tão forte que a ditadura teve que mudar porque oito mil pessoas foram para a Praça da Sé no culto ecumênico depois do assassinato. E no Cemitério Israelita do Butantã, o Vlado não foi enterrado junto aos suicidas, foi enterrado com os outros mortos por ter sido assassinado sob tortura pela ditadura. Jamais consegui esquecer. Na frente do meu computador tenho uma foto dele, olhando assim e me falando "poxa, você leva jeito...".

Foto: Flaviana Serafim/SJSP

 

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